Sábado de Blues: 5 Discos de Blues para Conhecer #7


Caso você seja novo aqui, de tempos em tempos, eu faço um texto indicando cinco bons discos de blues. Nunca é demais repetir: não se tratam dos melhores discos de todos os tempos (embora alguns deles sejam vistos dessa forma), mas sim de indicações para que o leitor possa conhecer alguns dos maiores nomes do gênero. O último da série está aqui.

Um aviso importante: desde que eu comecei a colocar playlists do Spotify nos textos dessa coluna, eu venho quebrando a cabeça sobre como fazer isso nesses posts de indicações. Mas desisti de usar o Spotify nessa série pelo simples motivo de que eu não quero ficar preso apenas ao que existe por lá — e muita coisa antiga de blues não está ali. Sendo assim, esta série de indicações continua sem Spotify (sintam-se livres, claro, para caçar os discos ali).

E vamos aos discos da vez:


The Allman Brothers Band
(At Fillmore East — 1971)

Quando se pensa em The Allman Brothers, muita gente deve imediatamente pensar em southern rock. Isso não está errado, mas chega a ser um pecado ignorar o lado blueseiro da banda. Afinal, trata-se de uma banda que, em seu início, teve um dos maiores guitarristas modernos do gênero: Duane Allman.

É uma das histórias mais tristes da música: Allman estava se firmando como um dos maiores nomes de sua geração (chegou a participar do clássico Layla and Other Assorted Love Songs, do Derek and the Dominos, banda liderada pelo seu amigo Eric Clapton) até morrer em um trágico acidente de moto aos 24 anos. Gravou poucos discos, e nenhum deles mostra seu amor pelo blues como o clássico At Fillmore East, considerado um dos maiores álbuns ao vivo de todos os tempos.

Minha Favorita:
Statesboro Blues — abrindo o disco, uma interpretação deliciosa e acelerada do clássico escrito pelo lendário Blind Willie McTell.

Preste Atenção em:
Stormy Monday— o clássico de T-Bone Walker que (merecidamente) aparece em tantos textos dessa coluna ganha uma versão monstruosa e elegante de mais de dez minutos. Uma aula de blues.


Muddy Waters
(The Complete Plantation Recordings — 1993)

No último texto, eu falei sobre Muddy Waters e citei a lenda que gira em torno das gravações que ele teria feito ainda na fazenda onde morava. Em 1993, este pequeno tesouro — há muito desejado por colecionados — foi finalmente disponibilizado em CD. Mais que o legado de uma época (existem outros discos mais representativos dos blues do Delta), The Complete Plantation Recordings mostra os primeiros passos do homem que mudou o blues.

A gravação é crua, o que torna tudo ainda melhor, pois a impressão é estar sentado em uma varanda do Mississippi com ele tocando ao seu lado. Mas o fato de ser acústico e mais “bruto” não muda o fato de que estamos falando de um gênio. O som que ele tira de seu violão é impressionante (e ainda mais rico que em sua fase elétrica) e sua voz… Bem, é inegável que ele canta como um veterano, interpretando as músicas ao invés de apenas cantá-las. Não é o melhor caminho para conhecer Muddy, mas, para os fãs, é imperdível.

Minha Favorita:
 I Be’s Troubled — Os fãs de Muddy Waters reconhecerão a música de imediato. Afinal, trata-se de I Can’t Be Satisfied, mais rústica e com uma letra diferente — e não menos maravilhosa.

Preste atenção em:
Rosalie— Algumas das canções trazem apenas Muddy. Em outras, porém, ele está acompanhado de uma pequena banda. Rosalie é uma dessas canções, e seu som serve quase como uma amostra do que Muddy faria em Chicago anos depois.


Koko Taylor
(What It Takes: The Chess Years — 1977)

O apelido de Rainha do Blues não é para qualquer um, mas parece se encaixar perfeitamente em Koko Taylor. Ela é muito conhecida pelos fãs de blues, mas (diferente de Bessie Smith ou Etta James) é quase uma anônima por quem não ouve o gênero. Caso você nunca tenha escutado nada de Koko, nunca é tarde para corrigir esse erro.

Com uma carreira que durou quase cinco décadas — até sua morte, em 2009, Koko atravessou gerações de blues encantando com sua voz (uma das mais poderosas do blues). Uma de suas melhores coletâneas abrange o período em que ela gravou na lendária Chess (a partir do meio dos anos 60), acompanhada de músicos de primeira linha, cantando composições do gênio Willie Dixon, e criando um clássico atrás do outro.

Minha Favorita:
Fire— Descrever a voz de Koko é praticamente impossível; é mais fácil dar play e deixar que ela se mostre sozinha. Fire faz isso — mas, um conselho: é impossível ficar parado ao ouvir a música.

Preste atenção em:
Wang Dand Doodle — Um dos maiores sucessos de Koko, se tornou um clássico quase imediatamente, mesclando um dos ritmos estupidamente sensual com a fúria de sua voz.


Slim Harpo
(The Best of Slim Harpo — 1997)

Uma das minhas descobertas mais recentes no blues. Descobri Slim Harpo quase por acidente: estava pesquisando sobre swamp blues (o blues que se toca nos pântanos da Louisiana) sobre o qual conhecia muito pouco e de repente, tropecei nesse artista. Me apaixonei completamente pelo som.

O swamp blues é um estilo mais lento de blues; porém, não se trata de um lento triste e sim “preguiçoso”. É o que eu chamo de “música para uma tarde abafada”. Harpo é o maior representante do estilo, com uma voz anasalada (às vezes, ao extremo), mas que parece combinar perfeitamente com o jeito sensual (de um jeito único) das canções.

Minha favorita:
I’m a King Bee — Seria impossível escolher outra. A música assinatura de Slim Harpo é um som bem próximo do rock n’ roll, mas completamente hipnótico graças à sua voz (e à sua letra carregada de duplo sentido).

Baby Scratch My Back — Talvez seja um dos blues mais preguiçosos que ouvi, e gira em torno do prazer que o músico sente quando sua namorada coça suas costas. Mas, se tudo vira sexo no blues, não seria diferente aqui.


Gary Moore
(The Best of Blues — 2002)

Nem todo mundo sabe disso, mas a Irlanda é um dos maiores polos de blues da Europa, com guitarristas lendários. E um deles ganhou sucesso internacional com o hit Still Got the Blues — não há quem não tenha passado pelos anos sem conhecer seu riff inicial — que foi recentemente regravada por Eric Clapton. Porém, a carreira de Gary Moore é muito maior que essa canção e a coletânea The Best of Blues mostra bem isso.

O disco duplo (o primeiro traz gravações em estúdio; o segundo, apenas apresentações ao vivo, com participações de monstros como B. B. King e Albert Collins) deixa claro que a fusão de blues com hard rock de Moore se encaixa perfeitamente em seu estilo agressivo e melodioso de tocar a guitarra. Mas não se trata apenas disso: especialmente nas apresentações ao vivo, com Moore solto em cima do palco, fica claro que ele tinha tanta técnica quanto feeling. Era um monstro.

Minha favorita:
Still Got the Blues — esqueça o fato de que a música se tornou clichê e concentre-se apenas no som. Sua letra é dolorida ao extremo, mas não machuca quase nada perto de sua guitarra.

Preste atenção em:
Parisienne Walkways — meu dedo coçou aqui para colocar Stormy Monday com a participação de Albert Collins. Mas a versão magistral de Parisienne Walkways parece ser perfeita para explicar o que Moore conseguia fazer com a guitarra.


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