Sábado de Blues: O Dia em que Eu Escrevi uma HQ usando Apenas Versos de Robert Johnson


Algumas semanas atrás, eu abordei algumas canções de blues que apareceram em Terapia, a HQ que produzo com a Marina Kurcis e com o Mario Cau, meus grandes parceiros nesse projeto.

Hoje, eu quero falar novamente sobre Terapia, mas desta vez de uma forma diferente. Apesar desse texto, num primeiro momento, interessar mais aos leitores de Terapia (e também a quem gosta de escrever e me pergunta como é meu processo criativo), eu acredito que ele também tem tudo para agradar aos fãs de blues.

Afinal, ele pode ser um texto sobre Terapia. Mas ele também é um texto sobre Robert Johnson — uma das maiores lendas do blues, e que já ganhou um texto na Sábado de Blues aqui.

Esse texto, porém, não irá falar sobre Terapia de forma geral, e sim sobre o capítulo 11, o mais recente que publicamos e que chegou ao final algumas semanas atrás. Assim, eu aconselho que você leia este capítulo antes de prosseguir com a leitura — ele começa aqui — mas isso não é obrigatório.

Eu posso dizer com certeza que este capítulo 11 se tornou um dos meus preferidos em toda a história de Terapia. Eu enxergo Terapia, antes de tudo, como uma história sobre Psicologia, mas neste capítulo eu acredito que o roteiro mergulhou de cabeça no blues — talvez até mais que nos capítulos anteriores. E o mais importante é que fizemos isso sem deixar a Psicologia de lado em momento algum.

Mas creio que este capítulo foi o que mais teve blues em Terapia… E claro que isso está simbolizado no blueseiro que aparece na história.

Muita gente veio me perguntar nas redes sociais se este blueseiro é Robert Johnson.

Bem… Sim e não. Vamos primeiro para o não. E essa resposta seria: “Não, ele não é Robert Johnson”. Na verdade, esse blueseiro é, aos meus olhos, praticamente o blues encarnado. E não estou falando apenas da música, mas de todos os sentimentos por trás desse gênero: tristeza, melancolia, solidão, confusão, desespero… E esperança. Tudo está ali nele.

Por outro lado: sim, ele é Robert Johnson. Ou, pelo menos, ele foi totalmente baseado em Robert Johnson.

Em alguns momentos, tive medo disso ficar claro demais, porque a ideia sempre foi jamais entregar sua identidade de forma fácil. Claro que leitores mais atentos (especialmente aqueles que conhecem Robert Johnson) perceberiam isso com mais facilidade. Mas a intenção foi deixar a dúvida no ar o tempo inteiro.

Na verdade, a HQ apenas assume o fato dele ser inspirado em Robert Johnson em dois momentos. A primeira vez é no quadro do cemitério, na página 138. Nesta cena, o blueseiro repete a pose clássica de uma famosa foto de Johnson, e todos os nomes das sepulturas são de blueseiros que tiveram (ou, em alguns casos, diziam que tiveram) contato pessoal com ele.

E a segunda é no último quadro da página 139. Ali, temos muitas referências à música, e não apenas ao blues. Na verdade, a ideia era explicitar de vez a ligação entre o blues e o rock: trata-se de uma versão da capa de Abbey Road, dos Beatles, adaptada para o universo de Terapia. Todos os prédios são gravadoras importantes de blues (Chess, Cobra, VJ), mostrando que, sem elas, o rock não existiria — ao menos, não como o conhecemos (existem também duas referências muito grandes a Terapia aí, mas isso eu deixo para vocês descobrirem). E Robert Johnson? Bem, ele está no quadro. Mais precisamente, na placa do fusca: RLJ 1938, que significa seu nome completo (Robert Leroy Johnson) e o ano de sua morte.

Esses detalhes são as associações mais óbvias à identidade do blueseiro, mas existem outras, mais discretas. Ele tocar de costas para o público (página 133), algo que Johnson fazia. “Era como se fossem duas pessoas tocando violão” (página 132) é uma referência ao que Keith Richards diz ter pensado quando ouviu Robert Johnson pela primeira vez. E, por fim, ele está no cruzamento das ruas 61 com 49, que seria a lendária encruzilhada onde Johnson teria vendido sua alma.

Agora, a grande referência a Robert Johnson não está neste ou naquele quadro, mas espalhadas pelo capítulo inteiro. Isso porque todas as frases que o blueseiro diz — e eu realmente quero dizer TODAS — são trechos de músicas de Robert Johnson.

O trabalho para isso foi gigante. Eu li as letras de todas as 29 músicas de Johnson, separando em cada uma os versos que poderiam ser usados dentro da história que queríamos contar. Com esses versos na mão, eu comecei a montar um enorme quebra-cabeça. Trechos de duas ou três canções diferentes se encaixavam por mágica (mesmo o começo, quando ele está apenas falando sobre a chuva que vai cair já mistura duas canções), enquanto outros funcionavam apenas sozinhos.

Claro que fiz adaptações para transformar os versos originais em um diálogo dentro da história, mas elas são muito pequenas. Em alguns casos, eu tirei um “you know” ou “baby” do verso e padronizei os tempos verbais para o passado. Mais nada.

Assim, eu construí todo o diálogo entre ele e o Garoto ao redor desses versos, precisando dar um sentido a isso. Aliás, o diálogo não precisava apenas fazer sentido, ele precisava também se encaixar em todo o contexto de Terapia. E, claro, fazer a história avançar, pois absolutamente nada em Terapia é gratuito.

Para quem se interessar, estou listando abaixo todas as referências, página a página, explicando de quais músicas elas vêm (sempre com os links para as canções nas primeiras vezes que elas aparecem):

Página 133
 1)
“Você consegue ouvir o vento uivando?”
 
É o verso “Can you hear the wind howl?”, da canção Come On In my Kitchen.


Página 134
 1)
“O vento está crescendo. As folhas tremendo na árvore.”
 São dois versos seguidos (“I can tell the wind is rising / the leaves tremblin on the tree”) de Hell Hound on my Trail
 
 2) “Vai chover do lado de fora.”
 Apesar de parecer uma sequência direta das frases anteriores, o verso “It going to be rainin’ outdoor” está em Come on in my Kitchen.


Página 135
 1) “Eu tenho dores no meu coração… Elas tiraram meu apetite”.
 Novamente, dois versos seguidos da mesma canção: “I have pains in my heart / they have taken my apetite” estão em Stones in My Passway.

2) “E tenho bebido… Leite maltado. Para espantar o blues para longe.”
 Mais um caso de dois versos da outra música, mas que parecem dar sequência ao trecho anterior. Os originais (“I keep drinking malted milk / trying to drive my blues away”) são de Malted Milk.


Página 136
 1)
“Um homem é como um prisioneiro, ele nunca está satisfeito.”
 São dois versos (“A man’s like a prisoner / and he’s never satisfied), de From Four Until Late.

2) “Eu trabalhava duro. Trabalhei por muitos anos. Mas meu capitão era cruel demais comigo. Então, fui para as montanhas, tão longe quanto eu podia enxergar.”
 Aqui a coisa é complicada, porque são trechos de três músicas diferentes costurados como um pensamento único. A ideia abre com “I’m a hard working man / have been for many years”, de Steady Rolling Man, passa por Last Fair Deal Gone Down (no trecho “My captain’s so mean on me”) e encerra com “And I went to the mountain / lookin’ far as my eye could see”, de If I Have Possession over Judgment Day.


Página 137
 1)
“Fui para uma encruzilhada, me ajoelhei e pedi a Senhor “tenha piedade, salve o pobre Bob se assim desejar”.
 Desde que comecei a fazer isso, sabia que Cross Road Blues apareceria mais cedo ou mais tarde. E ela surgiu aqui, com um trecho enorme: “I went down to the crossroad / felt down on my knees / asked the Lord above / ‘have mercy now, save poor Bob if you please’”.

2) “Mas o Sol, no alto, desapareceu. E eu acredito que o pobre Bob afundou.”
 Estes versos (“Rising sun going down / and I believe to my soul / poor Bob is sinking down”) também são de Cross Roads Blues, mas estão em outro trecho da canção.

3) “Como um e um são dois, e dois e dois são quatro. Não sei que mal eu fiz, mas eu rolei e caí e chorei a noite inteira. Um arrepio fazia com que eu tremesse. Você nunca sentiu isso, e espero que nunca sinta.”
 Aqui temos outro trecho com três canções. O começo (“Now one and one is two / two and two is four”, sem o “now”) é de Sweet Home Chicago; o miolo (“And I rolled and I tumbled and I cried the whole night long”) vem novamente de If I Have Possession over the Judgment Day; e a conclusão reúne três versos de Preachin’ Blues (Up Jumped the Devil): “Is a low-down shakin’ chill / You ain’t never had ’em / I I hope you never will”

4) “Como seis e dois são oito e oito e dois são dez. Agora existem pedras no meu caminho e minha estrada parece escura à noite. Se eu conseguisse mudar meu modo de vida, significaria demais para mim.”
 Mais um trecho com três canções combinadas. Como vocês devem imaginar, o início, semelhante ao do diálogo anterior, também é de Sweet Home Chicago: “Now six and two is eight / eight and two is ten”. As músicas que completam este trecho são Stones on My Passway (“I got stones in my passway / and all my roads seem dark at night”) e Drunken Hearted Man (“And if I could change my way of livin’ / it t’would mean so much to me”).


Página 138
 1)
“Minha alma está penhorada. E eu preciso continuar me movendo.”
 Mais uma vez, dois versos de músicas diferentes parecem combinar quase de propósito. “And a lie on my soul” é de Travelling Riverside Blues. Na verdade, a tradução exata seria diferente, algo como “ela tem um penhor sobre minha alma”, pois ele está falando de uma mulher no verso anterior, então considerei apenas o trecho sobre a alma. Já “I gotta keep movin’” é o verso que abre Hell Hound on My Trail.

2) “Eu acredito… Eu acredito que vou voltar para casa.”
 Apesar de serem duas frases diferentes, é uma tradução exata (inclusive com a pausa que usamos) de “I believe / I believe I’ll go back home”, de I Believe I’ll Dust my Broom.

3) “E agora eu vou dar adeus. Quando eu retornar novamente, você terá uma boa história para contar.”
 Encerrando essa página, três versos seguidos (“I’m ‘onna bid you fare…farewell /And when I return again / you’ll have a great long story to tell”) da mesma canção, From Four Until Late. Foi um dos primeiros que decidi usar, pois serviam como encerramento perfeito para a conversa — tirei apenas o “long” do último verso, por achar que não se encaixava no contexto.


Página 139

1) “Eu não me importo onde você enterrar meu corpo quando eu estiver morto.”
 A frase “Baby, I don’t care where you bury my body when I’m dead and gone”, não é cantada, e sim falada rapidamente no meio de Me and the Devil Blues.


Página 143

1) “Ninguém parece me reconhecer, todos passam por mim. Ninguém parece me reconhecer, todos passam por mim. Parado na encruzilhada…”
 Entre um capítulo e outro, sempre temos uma página de intervalo. Aqui, ela finaliza a participação de Robert Johnson no capítulo, com mais um trecho adaptado de versos de Cross Road Blues (“Didn’t nobody seem to know me babe / Everybody pass me by / Standin at the crossroad babe.”)

Essa foi uma das primeiras cenas que imaginei: o encerramento com a frase “parado na encruzilhada”. Com isso, eu queria mostrar que Robert Johnson, mesmo tendo morrido há quase 80 anos, ainda está parado em uma encruzilhada. Ou seja: basta você passar pela encruzilhada certa na hora certa, que você o verá ali, preso naquele local. Provavelmente procurando sua alma — e a procura pela alma é, na verdade, um dos grandes temas de Terapia.

Como eu disse, costurar essas letras em um diálogo foi um trabalho gigante. E com certeza uma das coisas mais legais que fiz desde que começamos a publicar Terapia. Espero que tenham gostado desse capítulo tanto eu, o Mario e a Marina gostamos de produzi-lo.

E na próxima semana a coluna volta à programação normal.

Em tempo: a coluna de hoje é dedicada, claro, ao Mario e a Marina — e aos leitores de Terapia, fãs de blues ou não.


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