Sábado de Blues: Os Diferentes Estilos de Blues #2
Vamos continuar mapeando os diferentes estilos de blues?
Desde que comecei a produzir essa coluna, sentia que textos como esse eram bastante necessários, e a resposta dos leitores ao texto anterior (em que abordo os diferentes estilos do blues rural) mostrou que eu estava certo. Na verdade, esses textos deveriam ter sido os primeiros da coluna, por servirem como uma grande introdução ao blues. Mas antes tarde que nunca.
Dessa vez, vou começar a falar sobre os principais estilos de blues que surgiram a partir da metade dos anos 40, após a II Guerra Mundial. Como é comum no blues, a distinção deles é extremamente complicada: em alguns casos trata-se de identidade musical; em outros, a diferença é apenas geográfica, mas ainda merece ser citada.
Isso aconteceu porque, nessa época, houve um enorme êxodo nos Estados Unidos. Milhares de pessoas partiram das áreas rurais para cidades como Chicago (a mais importante aqui), Detroit e Memphis em busca de uma vida mais confortável.
Evidentemente, o mesmo aconteceu com os blueseiros (aquele papo do “artista ter que ir onde o povo está” é verdade), que descobriram que esses grandes centros urbanos possuíam plateias maiores. Além disso, eram lá que estavam as gravadoras que, em busca de novos lançamentos, ajudaram a moldar o blues moderno.
Musicalmente falando, os gêneros abaixo são uma extensão do blues rural pelo motivo lógico de que os blueseiros retratados nos estilos abaixo normalmente nasceram (e começaram a tocar) no campo.
Mas eles logo descobriram que o ambiente era diferente do interior; não bastava tocar o violão e cantar alto para ser ouvido: para vencer o barulho dos bares, era preciso aumentar o volume. Assim, as guitarras se tornaram eletrificadas (e as vozes menos gritadas graças aos microfones). É nesse momento que o blues se assume definitivamente como um dos pais do rock.
Para finalizar: é importante lembrar que as distinções entre os estilos de blues abaixo não são definitivas, apenas uma passada de olhos. Como eu falei no primeiro texto dessa série, existem blueseiros que transitam entre um gênero e outro, e alguns que estão em uma região fazendo o som de outra.
Também como no texto anterior, ao final de cada gênero há o link para uma playlist no Spotify. Elas também não são definitivas (coloco sempre cinco músicas de cinco artistas em cada gênero) e estão ali apenas como amostra do som de cada estilo e região. Caso você seja usuário, aconselho a seguir todas essas listas, pois, com o tempo, eu certamente vou acrescentar mais músicas e artistas a cada uma delas.
Mas chega de enrolação, né? Vamos falar de blues.

I Can’t Be Satisfied: Chicago Blues
Junto com o Delta Blues, é minha grande paixão dentro do blues, a ponto de eu precisar me controlar para não escrever páginas e mais páginas sobre o estilo. É um dos pontos cardeais do gênero, e praticamente todo o blues elétrico feito após os anos 50 bebe — em maior ou menor quantidade — das músicas dessa época. É a época da gravadora Chess e de deuses como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Little Walter e das composições magistrais de Willie Dixon (para mim, o maior poeta do blues).
O som é claramente uma das maiores pontes entre o blues e o rock. Os instrumentos são elétricos, mas o som ainda é distante do rock, sendo mais cru (especialmente nas primeiras músicas de Muddy Waters, quando se trata apenas dele e da guitarra). Porém, é um dos movimentos mais importantes da música pop do século 20 (é tão rico que rendeu até mesmo um subgênero criado no lado Oeste da cidade, que vou abordar em outro texto).
Ouça a playlist aqui.

They Call Me Lazy: Swamp Blues
Foi um dos últimos gêneros do blues que descobri, depois de me apaixonar pela voz anasalada de Slim Harpo e sua magistral (e viciante) King Bee. Como o nome indica, trata-se da música feita nos pântanos do sul dos Estados Unidos. Em muitos momentos, ele se parece com o Delta Blues, mas também tem uma identidade própria, com influências da música cajun e o uso de instrumentos locais.
Mas sua característica mais marcante é a alegria. Suas canções são mais leves (ou menos melancólicas para aquilo que se espera de um blues) e isso é reflexo direto da sociedade do lugar. A vida nos pântanos era difícil, mas havia comida na mesa, o que torna tudo mais otimista. Mas não confunda otimismo com velocidade: talvez seja um dos estilos mais blues preguiçosos do gênero. É a trilha sonora perfeita para uma tarde abafada.
Ouça a playlist aqui.

How Blue Can You Get?: Electric Memphis Blues
Diferente da sua fase acústica (que abordei no primeiro texto) Memphis entra, aqui, por sua característica regional. Seu som é muito, muito parecido com o de Chicago (na minha opinião, com alguma influência da guitarra mais melódica do Texas). Algumas listas até mesmo colocam B. B. King dentro de Chicago por questões musicais, e o próprio Howlin’ Wolf fez suas primeiras gravações na região, antes de partir para Chicago.
Mas é impossível deixar de mencionar Memphis como um polo de blues, já que pelo menos dois gênios vieram de lá (além de B.B., temos também Albert King, que gravou suas principais faixas na cidade). Além disso, só a existência da Sun Records, uma das gravadoras mais importantes da história do blues, já faria a cidade merecer destaque no mapa do blues.
Ouça a playlist aqui.

Me and My Guitar: Electric Texas Blues
Como eu disse no texto anterior sobre os estilos de blues, o blues do Texas é o único que se manteve musical e geograficamente ao longo dos séculos. Na verdade, ele até poderia ter ficado de fora desse texto, já que sua música na fase elétrica é apenas uma extensão do que se fazia no tempo da guitarra acústica. Por outro lado, porém, não há como relevar a importância do blues elétrico do Texas tem para o blues (e para o rock).
Aqui, temos um dos grandes berços dos guitarristas virtuosos do blues — herança do começo do século, quando o som da guitarra era mais trabalhado e com mais swing que nos outros estilos rurais de blues. Os solos de guitarra, tão aplaudidos no rock, se tornam aqui parte importante da música. E isso parece uma regra que vai de Freddie King (que apesar de ter mudado para Chicago ainda jovem permaneceu fazendo blues do Texas) ao mais recente Stevie Ray Vaughan, que praticamente fez o blues ressurgir nos anos 80.
Ouça a playlist aqui.

Thinking and Drinking: West Coast Blues
A Costa Oeste tem uma relação única com o blues, sendo a única região a ter uma escola de blues elétrico sem ter passado por uma fase acústica ou rural. Isso porque o blues só desembarcou na Califórnia nos anos 40, com a chegada de inúmeros músicos do Texas que migraram para lá em busca de uma vida melhor — caso do mago T-Bone Walker, que, mesmo nascido no Texas, é um dos líderes do movimento.
Entretanto, essa falta de base de blues ajudou a criar um som inovador. O virtuosismo da guitarra texana ainda está ali, mas a música é diferente. É claramente urbana, mais sofisticada e suave, que se aproxima bastante do jazz da época, inclusive no uso de metais. Parece ser um blues feito para uma plateia mais elitizada (tanto financeira como intelectualmente), mas não se engane: é blues de primeiríssima qualidade.
Ouça a playlist aqui.

It Serves You Right to Suffer: Detroit Blues
Se Memphis entra na lista mais por uma questão geográfica que musical, isso aumenta ainda mais quando pensamos em Detroit. Como toda cidade industrial, o blues sempre esteve em suas ruas e bares, desde a década de 20. Mas aqui existe algo curioso. O blues de Detroit pode ser dividido em dois grupos: de um lado, temos todos os artistas da cidade; do outro, temos John Lee Hooker.
Afinal, o blues de Detroit viveu uma febre nos anos 50, mas nenhum músico conseguiu projeção fora da região, enquanto John Lee Hooker conquistou fama mundial. Assim como acontece em Memphis, tem um som muito parecido com Chicago… Mas John Lee Hooker consegue ser diferente, especialmente pelo seu estilo de praticamente falar a letra da música. No me texto sobre John Lee Hooker, eu escrevi que, para mim, ele sozinho é um gênero inteiro do blues. Acredito cada vez mais nisso.
Ouça a playlist aqui.

Let the Good Times Roll: Jump Blues
É um dos estilos menos conhecidos de blues e talvez o que mais se aproxima do jazz — mais até que o blues da Costa Oeste. Trata-se de um fenômeno curioso, que mistura as big bands do jazz executando músicas aceleradas e feitas para dançar. Mas, diferente das grandes bandas de jazz, temos aqui um cantor de blues (chamado de “shouter”, ou o gritador) à frente da banda.
É uma música alegre e animada, que parece ser feita para clubes e bares maiores. E é um dos grandes pilares da história do rock (basta ouvir Shake, Rattle and Roll de um dos mestres do gênero, Big Joe Turner, para entender isso) e também teve um papel crucial no desenvolvimento do rhythm and blues. É um dos estilos de blues mais diferentes que existem, e um dos maiores festejados por sua riqueza musical.
Ouça a playlist aqui.
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