Sábado de Blues — Son House: O Pregador do Blues


(Todas as músicas citadas no texto estão nesta playlist do Spotify)

O novo fôlego que o blues ganhou nos anos 60 teve (pelo menos) uma consequência maravilhosa para o gênero: o reaparecimento de diversos músicos do passado, que haviam abandonado a carreira musical. Muitos foram reencontrados por fãs e entusiastas que saíam pelos Estados Unidos seguindo pistas de seu paradeiro (falei mais a respeito disso no texto sobre Skip James). 

Foi exatamente o que aconteceu com Son House. Foi localizado morando com sua esposa na pequena Rochester, em Nova York. E, ao abrir a porta do apartamento, não fazia ideia do interesse que sua música despertava nas pessoas. Seus dias de músico haviam ficado para trás e ele acreditava que suas canções tivessem se tornando relíquias do passado, perdidas em alguma estrada do Mississippi.

Seria uma das maiores injustiças da história do blues. Sem Son House, alguns dos maiores clássicos do blues provavelmente não existiram — ou, ao menos, não seriam clássicos. Afinal, estamos falando de um sujeito que foi considerado um mestre por Robert Johnson (eles conviveram no Mississippi e muitas das famosas histórias de Johnson nasceram das narrativas de House) e por Muddy Waters.

Além disso, chega a ser desolador pensar no blues sem uma música como Death Letter, que se tornou a canção assinatura de House.

Death Letter é, de longe, um dos maiores lamentos que o blues já produziu. A letra narra a história de um homem que, logo pela manhã, recebe uma carta informando sobre a morte da mulher que ele ama. Assim, a letra acompanha todo o drama do cantor enquanto ele vê o corpo dela no necrotério, participa do seu enterro e, finalmente, volta para casa.

Para mim, é uma das músicas mais fatalistas do blues. Os romances no blues sempre são conturbados, recheados de mentiras, traições e — muitas vezes — violência física. Em Death Letter, temos um homem completamente apaixonado (“eu não maltrataria você, meu amor, pelo meu peso em ouro”). Mas, diferente da imensa maioria dos blues que existem, ele é correspondido — caso contrário, isso certamente seria citado na letra.

A canção mostra que, no blues, mesmo uma paixão perfeita terminará em lágrimas. Assim, o cantor termina a música de uma forma quase antológica, com o cantor sozinho em seu quarto, no final do dia, devorado pela tristeza.

Se Death Letter diz muito sobre o blues, ela fala muito também sobre Son House. Os muitos elementos religiosos ao longo da letra (o que acho mais impressionante é o final da letra, com o cantor em seu quarto pronto não para beber, mas sim para rezar) refletem sua vida e todos os conflitos que viveu consigo mesmo.

Eu disse acima que, caso Son House tivesse sido esquecido, não teríamos alguns dos maiores clássicos do gênero e isso é verdade. Mas também teríamos ficado sem uma das biografias mais fascinantes de todos os tempos.

Edward James House Jr. nasceu em 1902, perto de Clarksdale, no Mississippi. Seu pai levava uma espécie de vida dupla, dividindo seu tempo entre sua banda (ele tocava tuba) e a igreja. Chegou a abandonar a igreja por um tempo decido aos seus problemas com bebida, mas logo voltou e se tornou um pregador batista.

Assim, Edward seguiu a devoção religiosa de sua família. Frequentava a igreja e sua fé crescia a cada dia — aos quinze anos, começou a dar seus primeiros sermões. Mas o mais surpreendente é que, quando era adolescente, odiava o blues. A música fazia parte de sua vida (bem como de todos os membros de sua família), mas ele gostava apenas de cantar, e não chegava perto do violão. Provavelmente, cantava apenas hinos religiosos. Provavelmente, via o blues como a música do diabo — ou, pelo menos, do pecado.

Vale dizer aqui que a “briga” entre blues e religião era algo muito comum no Mississippi da década e também dentro do próprio blues, com muitos músicos vendo sua alma dividida entre Deus e a música. No caso de House, porém, não havia divisão. Sua rotina era completamente devotada à igreja e foi dentro de uma igreja que se casou com uma mulher mais velha (contra a vontade de sua família).

Foi morar com a esposa na fazenda do sogro, na Louisiana, e passou a ajudar na plantação. Em determinado momento, porém, a religião não o satisfazia mais. Sentia-se triste e desiludido, preso dentro de um casamento que não o fazia feliz e de um trabalho que não oferecia recompensa alguma. Abandonou tudo e começou a tentar outros empregos, e foi até mesmo aceito como pastor em uma igreja.

Mas os mesmos pecados de seu pai viviam dentro dele. Dentro da igreja, recitava sermões. Fora dela, bebia e corria atrás de mulheres. Muitas pessoas teriam vivido sem muito problema dessa forma. Mas House tinha um diferencial: sua fé. Para ele, seus pecados não podiam ser ignorados e passou a viver em conflito consigo mesmo, sem saber que caminho seguir.

Tudo mudou em algum momento de 1927, quando ele tinha 25 anos. Estava bebendo com um de seus amigos e viu o sujeito tocar violão usando a técnica do bottleneck (quando o blueseiro tocava com a boca de uma garrafa no dedo para alcançar notas diferentes). House nunca havia visto aqui e, de repente, seu ódio pelo blues se transformou em paixão. Foi praticamente uma conversão religiosa. Comprou um violão e, poucas semanas depois, estava tocando como profissional.

Mas o mais importante é que ele não começou apenas a tocar blues, ele se tornou o blues. Passou a viver entregue totalmente à música, à bebida, às paixões.

Mas o mais fascinante é que a religião nunca o abandonou. Se não se comportava mais como um pastor, levava seus dias de igreja para sua música, cantando muitas vezes sobre o que havia aprendido na igreja e como quem executava um hino religioso. Não é de se espantar que uma das primeiras músicas que aprendeu — e que o acompanharia a vida inteira se chamaria “Pregando o Blues”.

Mas a vida de Son House ainda não estava resolvida. Cerca de dois ou três anos depois, ele estava se apresentando em um pequeno bar do Mississippi quando um sujeito entrou no local atirando para todos os lados. House foi ferido na perna, mas ainda assim conseguiu reagir e atirou no agressor, que caiu morto no bar.

Legítima defesa? Para um negro no Mississippi da época, isso não fazia diferença. Son House foi jogado na cadeia, condenado a quinze anos por homicídio. Dois anos depois, estava solto, graças aos pedidos de sua família e — mais importante — do fazendeiro branco para quem eles trabalhavam. Porém, ficou claro que não seria seguro permanecer em Clarksdale e ele se mudou para uma pequena cidade chamada Lula, mais ao Norte.

Charley Patton

E foi lá que começou um dos períodos mais férteis de sua vida musical. Afinal, quem estava numa espécie de autoexílio em Lula era Charley Patton, ninguém menos que o pai do delta blues. Nesse ponto, as biografias se contradizem. Alguns estudiosos dizem que House e Patton (e Willie Brown, outro blueseiro gigante) iniciariam uma enorme parceria na cidade; outros dizem que a história é um pouco diferente: eles teriam se tornado amigos, sim, mas não se apresentavam juntos.

Seja como for, a amizade existiu, pois, em 1930, quando um executivo da Paramount convenceu Patton a gravar algumas faixas, House, Brown e a pianista Louise Johnson foram juntos. House gravou nove músicas, entre elas Walking Blues, que ficou perdida até ser reencontrada em 1985 (a música fazia parte do repertório de Johnson, mas é da autoria de House).

As nove músicas foram enormes fracassos — estávamos no começo da Depressão e discos não estavam entre as prioridades de pessoas que não tinham dinheiro para comer. Mas House continuou tocando blues e dirigindo tratores em fazendas da região.

Em 1941, Alan Lomax, que percorria o Sul dos Estados Unidos gravando canções folk para a Biblioteca do Congresso fez uma sessão com House. No ano seguinte, Lomax reencontrou House e fez uma nova sessão. E pouco depois disso, Son House desapareceu do Mississippi.

Passou mais de vinte anos desaparecido até ser redescoberto em Nova York. O pastor que havia parado na cadeia por matar um homem e vivia em conflito com seus pecados havia passado décadas trabalhando em companhias ferroviárias ou como cozinheiro, sem fazer ideia de que toda uma geração de jovens (brancos e urbanos) estava ouvindo suas gravações e o reverenciando como um gênero.

A partir daí, sua carreira deslanchou. Assim como muitos blueseiros redescobertos na época, fez diversos shows nos Estados Unidos e na Europa e voltou a entrar em estúdios. Mas depois de décadas sem segurar um violão, House havia esquecido tudo e o jovem guitarrista Alan Wilson (que depois integraria a banda Canned Heat) precisou ensinar “Son House a tocar novamente com Son House” e o álbum Pai do Delta Blues — As Sessões de 1965 foram o resultado, com ambos tocando juntos (ignore o título do vídeo: o correto é “Levee Camp Moan”,e não “Roan”).

O sucesso o acompanhou até ficar doente, em meados dos anos 60. Não conseguia tocar devido ao mal de Parkinson, e o Alzheimer o impedia de lembrar as letras. Assim, em 1976 saiu novamente dos holofotes e mudou-se com sua quinta esposa para Detroit, desaparecendo novamente da vista do público.

Em 1988, um câncer na laringe calou a voz de um deus do Mississippi. Dessa vez, Son House não voltaria mais.

Dessa vez, Son House não seria esquecido. 


Clique e Ouça — Músicas para Conhecer:

John the Revelator — Aqui, Son House literalmente abre mão do violão e canta como um hino religioso, numa canção que o acompanharia a vida inteira (no começo do vídeo, ele fala sobre a Bíblia, mas de forma quase ininteligível).

Pearline — Com uma letra quase inexistente (ela é quase instrumental e tem apenas poucas frases em que o cantor reclama que a mulher que ele ama não se importa com o que ele faz), Pearline mostra com perfeição todo o talento de House ao violão. Mais que isso, é praticamente uma aula de como o instrumento soa no blues do delta.

My Black Mama — Part II — Uma das canções presentes nas primeiras gravações de House, My Black Mama — Part II serviu como base para Death Letter, ao menos na estrutura, com trechos muito semelhantes na letra. E um dos versos define o blues de forma genial: “algumas pessoas me disseram que o blues não é tão ruim, mas é a pior sensação que eu tive na vida”. (Aqui você pode ouvir a canção My Black Mama — Part I).


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