imagem do filme “CityZen”, de Guilherme Guimarães

Skate — poesia violenta sobre concreto

… skate, espaço e design.


*o seguinte texto é trecho de matéria escrita para a Revista Clichê

Quem conhece o skate sabe que é quase impossível separá-lo da arte, seja qual for a manifestação artística que tenha em mente. Grande parte desses skatistas, principalmente aqueles mais old school, viveram uma época em que esse esporte sofria uma criminalização que talvez nenhum outro esporte tenha sofrido. Em um contexto onde o skate era, por um lado, marginalizado por ser mais praticado por jovens de guetos e periferias e, por outro lado, criminalizado por uma sociedade que o considerava uma prática invasora do espaço do “cidadão de bem”, os praticantes do esporte eram obrigados a se reinventar, inaugurar possibilidades, subverter conceitos pré-estabelecidos e mostrar que onde existe skate, inevitavelmente, existe muita criatividade.

O que mais acho interessante no skate, e que tem muito a ver com várias das nossas discussões sobre design, é sua relação intrínseca com o espaço. Em um de meus textos para a Revista Clichê (Por um design liberto), coloquei o design como algo que, de certa forma, pode provocar mudanças no espaço que forçariam reflexões sobre o próprio homem e o ambiente onde vive. Nenhum outro esporte tem papel tão similar quanto o skate. Digo isso porque, desde que surgiu, com todas as suas características e nos meios em que se insere, o skate nunca pediu permissão para entrar. Ele forçou sua presença no espaço, provocando alterações bruscas (em vários momentos dolorosas) no que se entende por “espaço”. Houve uma ressignificação poeticamente violenta, e, por isso, mais que genuína. O skate foi para as ruas e praças em um momento em que rua era lugar para as “máquinas de quatro rodas” e praças eram lugares para “cidadãos de bem”, ou seja, o sujeito médio que respeita as leis, vive em conformidade com a ordem, existe em função do patrão e da família e leva uma vida praticamente pasteurizada (toda semelhança com ‘leite com pêra’ não é mera coincidência).

Policial à paisana agredindo skatista na Praça Roosevelt

O skate, nesse sentido, foi responsável importantíssimo pelo travamento de novas discussões sobre o direito ao espaço. No início do ano pude presenciar uma intensa discussão entre skatistas, a Guarda Civil Municipal (CGM) de São Paulo e membros de uma Associação de Moradores dos arredores da Praça Roosevelt, palco sempre lembrado do skate. Os moradores da região exigiam com todas as letras que a CGM proibisse algumas pessoas de frequentar a praça. Os tipos odiados eram os seguintes, e rejeitados em voz alta: “skatistas, viados, maconheiros e travestís”. Um verdadeiro show de horrores, preconceito e conservadorismo. Os tais “skatistas, viados e maconheiros” continuam frequentando a praça pública, para desgosto de alguns que a consideram seu quintal privado. A discussão sobre o direito ao espaço em São Paulo e sobre as novas interpretações desse mesmo espaço continuou e se acentuou com as manifestações de Junho. Assim como o design, que pode projetar novas realidades, o skate foi capaz de abrir os olhos de muitas pessoas para uma realidade com a qual elas não estavam acostumadas, foi capaz de projetar novos olhares e ressignificar aquilo que entendemos como espaço.

[…]

Email me when Rob Batista publishes or recommends stories