O dia das felicidades
Felicidade se acha é nas horinhas de descuido — disse Guimarães Rosa. Você me perguntou qual o momento mais feliz da minha vida, e eu não soube responder de imediato. Primeiro: ainda não vivi a vida inteira, então, não tenho como saber se a felicidade ainda não chegou. Por outro lado, você perguntou, na verdade, qual momento mais feliz eu poderia te contar, não o “de toda a vida”, mas um momento feliz qualquer, e isso faz toda diferença. Como nunca sei dizer sim ou não sem ponderar o talvez que há em tudo, achei melhor lidar com o talvez.
O primeiro talvez: talvez não haja felicidade, você já pensou nisso? Eu me lembro de quando tinha seis anos de idade, talvez sete, e meu pai quebrou o presente de Natal que havia acabado de ganhar só porque eu “assustei” a mulher que tinha me dado aquele presente. Era uma dessas armas intergalácticas, com cores e luzes, e ela estava de costas, conversando. Senti que tinha feito algo errado, muito errado, quando ela foi embora e ele deu uma senhora surra, uma surra imensa para uma criança de seis, sete anos numa noite de Natal, e quebrou o encanto, quebrando a arma — talvez tenha havido outros presentes antes desse, mas, depois desse, não me lembro de nenhum. A felicidade não existe, pensei por um bom tempo.

Talvez a felicidade esteja em amar. Também era o período das festas, mas dessa vez era Ano Novo, não Natal. Eu estava apaixonado; doloridamente apaixonado. Uma paixão daquelas que me fazia entender exatamente o que diziam — Aristóteles, não? — que você ama na ausência aquilo que lhe falta. Amar, era, naquele momento, um movimento de buscar a presença, temer a ausência e sofrer a ausência, buscando novamente a presença.
Pois foi uma noite de Ano Novo e ele resolveu sair para a noite, em grupo. Eu não acreditava: finalmente aquele que não gostava, não suportava e não se imaginava saindo, tinha resolvido organizar ele mesmo o programa. E eu estava nesse programa. Que é do amor senão a necessidade de ver e ser visto? Ver o outro sempre, sentir-se visto por ele, ser visto com ele, na troca de cumplicidades de quem tem uma história em comum. Eu e ele, juntos, um casal. Num lugar em que pessoas como eu costumam ser vistas como as pessoas que nunca namorarão ninguém. Aquelas que ficam no canto, olhando para dentro do seu copo, sugando a bebida entre pedras e canudos como se sugassem a coragem líquida que fosse capaz de tornar em aço os ossos, erguendo a cabeça e encarando todos com o ar mais sedutor do mundo. E eu não estava lá buscando coragem, não dessa noite. Eu estava procurando estar exatamente onde estava, com quem estava.
Ao ir embora, de madrugada, bêbado, chorando baixinho, tive que mostrar para o motorista do táxi que eu tinha dinheiro para a corrida. A avenida Paulista, entulhada de sobras da noite, da festa e da vida alheia, preparava-se para mais um dia: estavam regando os canteiros centrais, no alto dos postes, com vasos lembrando aos pedestres que há flores para quem ergue os olhos. Não ergui os olhos, mas o caminhão-pipa me fez acordar um pouco do torpor. A força do jato d’água não deixava de ser um acinte: era cuidado o que faziam, ou era cumprir tabela? Como alguém pode regar uma planta com essa violência? A cidade é gentil, tem horas, e a violência da água não teve a força de arrancar o vaso das minhas mãos. Abracei, enfiei a unha na terra molhada e seca, terra arrasada, e fui para casa, reconciliado com São Paulo.
A felicidade está por todos os lados, para muita gente. Muita gente precisa de muita gente para ser feliz. Mas, tem gente que não precisa de gente para ser feliz, não. A felicidade talvez esteja no momento em que você percebe (e sente) de que tipo de madeira é feita sua árvore. A felicidade talvez esteja em perceber que você é todo uma árvore, seja do tamanho que for, e que tem raízes, tem tronco, tem caules, tem folhas, e que precisa do mundo para fazer a fotossíntese que mantém circulando em seu interior a seiva que constrói e cria e use o verbo que quiser cada nó da madeira que você é. A felicidade, então, é estar em pé, ou tombado, se árvore tombada for a sua, mas ser todo essa árvore, única no mundo, mais uma, mas no mundo.
Andando na avenida Paulista, sozinho, saindo do cinema às duas horas da manhã, senti o barulho dos meus passos enquanto andava pela calçada. Estava frio: talvez por isso as pessoas estivessem em casa. Era sábado, as pessoas sozinhas estavam sozinhas em seus cantos, as que estavm juntas, juntas ficaram. E eu apenas estava ali, naquela calçada. Nenhum carro: só havia garoa e vento, e eu queria chegar em casa. Os passos ecoando no calçamento dos passos perdidos da multidão ausente só fazia lembrar que eu era adulto, estava sozinho, na principal avenida da principal metrópole da América Latina e que, se morresse ali, naquele momento, levaria um tempo até que alguém desse conta que eu estaria morto. Não havia ninguém me esperando em casa, mandando mensagens perguntando que horas chegaria, eu não ligaria para minha mãe, para que ela dormisse tranquila sabendo que havia chegado, já que desde muito falo cada vez menos e o essencial com ela, silenciosa que é, fechada em suas próprias questões, e tampouco haveria alguém esperando um “boa noite, amor” vindo de mim.
Não estou falando de infelicidades, mas de felicidade, talvez. Momento feliz, ou felicidade verdadeira, com certeza, só lembro de um: aos cinco anos. Meu aniversário é em junho, o que faz com que esteja sempre atrasado ou adiantado àqueles que chegaram em janeiro ou dezembro, e que são a maioria no mundo, parece — um cálculo mental interessante é descontar nove meses e pensar qual a situação que levou à concepção. Jesus é de março, primaveril, cálido — o Espírito Santo parece gostar mais de vir à Terra em dias mornos; eu sou de setembro, uns dias a mais que a primavera.
A felicidade, com certeza, sem talvez: eu tinha cinco anos e, pela primeira vez na vida, consegui ler uma frase inteira, sozinho, sem que ninguém tivesse me ensinado a ler. Não que eu fosse nenhum prodígio, bem pelo contrário, mas sem aviso prévio, e pela primeira vez, as palavras fizeram sentido para além do B da Bola, do Caminho Suave. Uma palavra estava conectada à outra, em uma linha reta, e eu conseguia repetir o que via escrito, por impulso próprio, por vontade de ver chegar o final, de descobrir o que aquela sequência de B+A=BA dizia. “O tempo passa, o tempo voa, mas a poupança Bamerindus continua numa boa”: era isso que estava escrito nas páginas daquela propaganda em letras brancas contra o fundo verde e o olhar da tia Claudete, que chamou uma outra tia da escola e pediu para eu repetir, de novo, e mais uma vez, e perguntou se eu entendia o que estava escrito em outros lugares.
A felicidade de achar sentido em coisas que pareciam sem sentido! Um momento de felicidade que se tornou, para mim, uma vida inteira: as palavras abriram um mundo em que tudo acontecia o tempo todo, seja nos romances, seja nas páginas da História. As palavras me garantem o sustento, e fazem com que eu queira entender o que as pessoas dizem, mesmo quando elas não dizem. As palavras me fizeram companhia quando me sentia sozinho, e escrevia para mim mesmo bilhetes de amor imaginários, criando coisas que eu imaginava que alguém me diria um dia. As palavras ganharam tamanho, juntaram-se a muitas outras e foram tecendo redes, aranhas que são dos meus sentimentos.
A felicidade, um momento de felicidade, você pergunta. As palavras respondem:
Um riso se alarga em mim,
um riso, um riso enorme,
eu que não sei rir.
(Wisława Szymborska)
