Problematizações Problemáticas

O famigerado bolo meritocrático opressor (que continuarei comendo, inclusive).

Chega um momento de nossas vidas em que abrimos os olhos para várias coisas que não nos eram imediatamente óbvias antes, em grande parte porque o ser humano é bem seletivo no que se deixa perceber, então coisas que não nos afetam diretamente raramente serão coisas que entendemos como problemas. Dentro dessa premissa, “problematizações” são importantes porque é bem mais difícil não notar um problema quando alguém demonstra com todas as letras, através de sua vivência, que ele existe.

“Porra, Quil, bora problematizar tudo então. Tem tanto problema no mundo, né?”

Calma aí, galera. Tem uma parte muito importante do que eu acabei de dizer que parece que vocês ignoram: “demonstra […] através de sua vivência”. Se você não vive o problema, é bem improvável que você seja uma pessoa qualificada para discutir esse problema. Estudar o problema te dá um pouco mais de base para entender o contexto todo, mas é algo que vai tomar bastante tempo e dedicação de sua parte. Não dá para comparar a leitura de um ou dois artigos — mesmo artigos científicos sumarizando uma área bem específica — com toda a experiência de vida de uma pessoa, afinal. Falar do que você não conhece tem os resultados esperados para qualquer tema, e não é muito diferente com a tal da “problematização”.

“Poxa! Verdade, Quil. O que eu deveria fazer, então?”

Bom, se você realmente está fazendo essa pergunta, a única resposta cabível aqui é: ouça as outras pessoas. Conseguir fazer essa pergunta geralmente indica que qualquer problema que você possa viver não é lá tão importante assim para você, ou não é algo sistemático, do qual você não consegue se livrar independente de onde vá. Dê espaço para as outras pessoas falarem sobre os problemas delas. Você não tem que falar o tempo todo. As atenções não têm que estar voltadas apenas para você — e nem deveriam, aliás.

“Okay, eu vou ouvir mais… Mas olha lá aquela moça está assistindo uma série com mulheres semi-nuas, eu preciso ir lá dizer para ela o quão errado isso é!”

A pessoa pediu sua opinião sobre o que ela está assistindo ou deixa de assistir? Não? Pois é, né. É preciso entender que toda a idéia da “problematização” é expor um problema real, vivido por pessoas reais, e que provavelmente te atinge. Problemas esses que geralmente são institucionais e atingem uma maioria (no sentido matemático) de pessoas de determinado grupo, geralmente minorias (no sentido sociológico). Uma pessoa aleatória gostar de X ou Y, mesmo essa coisa sendo problemática, ou ter sido criada por uma pessoa com um passado problemático, não é, em si, um problema estatísticamente significante. Você não precisa ser fiscal da vida alheia no Facebook.

Hamilton: But, sir!
Washington: We have a war to fight, let’s move along.
 — Stay Alive, from the Hamilton musical.

Quil é uma pessoa genderqueer,
Feminista interseccional, asexual, escritora de AU,
E uma completa negação em poesias.

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