É aqui que a gente joga todos as inseguranças que nos ameaçam no dia a dia?

texto de desabafo, sem nenhuma outra pretensão!

A JAPONESA DO OGRO — TUMBLR

Recentemente inicie uma nova fase na minha vida acadêmica, finalmente cheguei ao curso que sempre sonhei. Sim!!! Umas das poucas satisfações que tive nos últimos tempos. Entretanto, hoje, especialmente hoje, esse processo intensifica todas as minhas inseguranças e todos os medos que já eram monstruosamente grandes em mim.

Iniciei minha vida acadêmica no último ano, desde então tenho passado por uma série de crises pertinentes a forma de me portar diante de inúmeras situações que são inevitáveis no meu dia a dia. Entrei na famigerada Universidade Federal de Santa Maria no ano de 2016, e ainda tento decidir se foi o pior ou o melhor ano da minha vida. O pior ano no âmbito acadêmico, foi um sofrimento inexplicável, mas também foi um ano que me inseri em espaços de debate politizados que me agregaram muito conhecimento. Mas todo esse conhecimento ainda não me foi o suficiente diante da carga de insegurança que eu trazia da minha coleção de anos vividos.

Um das coisas que sempre me fez “tremer na base” foi ter que me expor/falar/questionar, principalmente para um grande grupo, sempre tive muito medo de tudo isso, cresci com isso. Cresci recebendo ordens e as seguindo, fui constituído assim, mesmo entendendo os meus privilégios por ser um homem num sistema social que me beneficia, sempre fui muito inerte em minhas relações pessoais. Passei por processos complicados para me entender no mundo. Hoje, consigo detectar essas mazelas, mas AINDA não consigo freá-las.

O que mais me marcou no ano de 2016 foi justamente algo relacionado a essas mazelas. Passei os dois semestres do ano ouvindo coisas que me machucaram, coisas racistas, homofóbicas, discurso de ódio contra os “subalternos” (no caso, eu mesmo.), somando isso a toda a carga que eu já trazia da minha vida me fez sucumbir. Sucumbir e não ter forças de levantar no dia seguinte, sucumbir ao ponto de não ter mais vontade de fazer refeições, socializar com amigos, nesses momentos eu tinha um único desejo: chorar; mas infelizmente não conseguia também. Causa-me espanto a forma com que a Universidade age e intensifica nossos medos e inseguranças, do modo com que a saúde mental dos/das estudantes não é relevante, tornando-os vulneráveis além de todas as suas questões fora da universidade.

Fica esse vídeo incrível do murilo araújo que fala com bastante propriedade sobre a questão da saúde mental.

Mas, hoje, escrevendo esse texto, meses depois de todos os acontecimentos e com um pouco mais de sanidade, consigo entender todo o processo em que esse meu “calcanhar de aquiles” se evidencia. Aprendi que esses espaços, como a exemplo a Universidade, em nenhum momento foram pensados pra mim. São espaços essencialmente brancos e de classe média alta e no momento que os privilégios desses indivíduos são questionados o ambiente se torna hostil e muito mais competitivo que o normal. Não querem perdê-los, não é mesmo?! Compreendi nesse ano que o sistema que amplifica as minhas inseguranças é o mesmo que dá o alicerce para a manutenção desses privilégios. O sistema que faz eu me questionar sobre a minha presença na Universidade é o mesmo que faz eles entenderem o espaço universitário como deles e me veem como um invasor. Mesmo eu não estando preparado para essa “disputa”. As palavras ficam presas e se perdem, os sentimentos ruins entram e corroem. Pois mesmo que eu compreenda tudo isso ainda tem dias que sinto medo, ainda vejo no espelho uma imagem deformada do que é a realidade. Mesmo que acima do espelho que me vejo há um frase com os dizeres “Não acredite em espelhos”, não consigo não me ver em pura decadência.

São momentos estranhos que presencio no meu dia a dia, ora me vejo deslocado de tudo e de todos, ora me sinto presente, mas invisível aos olhos dos que estão próximos. Tenho vivido assim.

Mas, mesmo com todos esses altos e baixos ainda espero que em algum momento eu encontre forças suficientes para me encontrar comigo mesmo, e apagar a imagem de ser incapaz que criei de mim mesmo, ou que fui levado acreditar que eu era. Enquanto isso, ainda resisto, mas resisto com todas as minhas complicações.