Não pode mais ser da favela!

Há uns 4 anos, conversava com uma universitária, jovem, seus 23 anos, havia mais algumas pessoas na conversa, o assunto era desigualdades sociais, estávamos em época de eleição do DCE da minha universidade, e dessas desigualdades o assunto chegou na favela.

Ao ouvir a palavra favela, esta garota comentou que nunca havia visto, exceto pela televisão, uma favela. Todos ao redor pararam e começaram a ouvir o relato dela, afinal, como no meio daqueles alunos de uma universidade pública, muitos cotistas, havia uma colega que não tinha pisado em uma favela?

Preciso fazer uma pausa e contar o porque deste assunto…

Quem veio para o ABC Paulista, onde vivo, na década de 70, este foi o caso dos meus pais, motivados pelos empregos na indústria automotiva, passou a conviver desde muito cedo com o crescimento desordenado dos bairros, em minha rua, em seus poucos mais de 500 metros, havia pelo menos duas favelas.

Na década de 80, a gente saia de casa cedinho para ir à escola, um avental branco, uma havaianas no pé, em uma época que elas não custavam um décimo do que custa. Quando a “havaiana” quebrava a gente pedia um grampo de uma menina e consertava o chinelo, sem problemas. Hora do recreio, a gente achava no lixo um saquinho de pipoca, daqueles rosa, enchia de papel, amarrava e tínhamos uma bola, jogávamos no pátio, por alguns minutos, até aparecer a inspetora.

Fazer educação física, naquela época era daqueles raros momentos em que você se sentia bem na escola, melhor que isto, só quando tinha arroz doce na merenda. Na educação física, você podia não saber jogar, podia ser o último a ser escolhido, era o meu caso, toda a vez! O que importava era que você estava lá, e naquele momento você podia ser ruim em algo, você estava ali para se exercitar, ser bom não era necessário. Uma vez minha sala ganhou um campeonato de queima, foi a única medalha que ganhei na vida, e eu a perdi tempos depois. Teve um troféu, mas a história deste fica pra outra hora. Noutra situação decidimos criar um campeonato de basquete, de homens contra mulheres, em 3 jogos, o resultado total foi 64 a 2 e eu fui o culpado pelos dois pontos das meninas.

A inspetora quando tomava nossa bola rosa, nos tratava como se fossemos favelados, alguns eram, mas isto pra gente não fazia a menor diferença. A gente frequentava os mesmos lugares, morávamos no mesmo bairro, mesma rua, uns, como eu, em uma casa de blocos, outros em uma casa de madeira, só isto.

Mas a educação física sempre concorreu com o trabalho infantil, é isso mesmo, quando se mora na periferia, a gente começa a trabalhar cedo, eu me recordo de exercer algumas atividades, por volta de uns 5 anos que certamente poderiam ser classificadas como trabalho, algumas com hora extra, não só com adicional, como em turno noturno. Mas a vida era assim, a favela era só um conjunto de casas na mesma rua e o trabalho naquela época era a gente obedecendo os pais.

Não estou aqui fazendo apologia ao trabalho infantil, só citando que os fatos tinham naquela época uma outra dimensão, os problemas da família eram resolvidos pela família e se as coisas estavam difíceis, a gente não podia ter tempo para brincar.

Eram tempos difíceis, se você ganhasse alguns cruzeiros era correr para a barraquinha do seu Manoel comprar doce, porque poucas horas depois o mesmo dinheiro já não comprava mais as balinhas pretas.

Tendo que trabalhar, a educação física ficava prejudicada, você começava a faltar e sua nota começava a cair. Sobravam, entre as contas e os verbos intransitivos, as aulas de educação artística.

Nas aulas de educação artística você se dava conta, ou não, de que você podia criar. Clóvis de Barros Filho, escritor, doutor em ciência da comunicação, diz que a criança nasce criativa e a escola a desestimula a ser assim. As aulas de educação artística sempre foram o contraponto a esta realidade, nelas você podia desenhar mal, não saber colar o papel crepom direito, fazer uma maquete que não parava em pé, o importante era a sua descoberta de que você podia criar, e enquanto alguns colegas criavam dribles e sempre testavam em mim, eu podia criar formas e figuras, mesmo que elas fossem cópias de uma dobradura, elas eram minhas.

Voltando a minha colega que não tinha visto a favela, ela é como qualquer pessoa, que não viveu a realidade de uma periferia e decide como devem ser as políticas que afetam quem lá vive.

A reforma da educação proposta recentemente, não leva em conta quem vive nas periferias, não leva em conta que enquanto em uma escola particular você tem inglês desde muito cedo, na periferia você vê a partir da quinta série, todos os anos, o mesmo verbo to be e depois de 4 anos não fala mais inglês que um papagaio. Retirar educação artística e educação física, não é só retirar dos alunos matérias que são ditas menos importantes que as demais, é retirar o respiro dentre tantas incoerências desta fase da vida. Também é retirar dos professores seus empregos. Pior que isto, só mesmo tirar a filosofia e a sociologia, que são motores para que o aprendiz reflita sobre a sociedade em que vive. E se digne a mudá-la.

Ao andar na minha rua, você não vai ver favelas, elas viraram casas de blocos, mas a gente sabe que aquele corredor era uma viela, que aquelas casas eram barracos, que aquele menino que ali morava e brincava com você antes da inspetora aparecer morreu baleado pela polícia.

Hoje, estão retirando da gente o pouquinho de favela que ainda existia, tiram nossa bola rosa, tiram nossa dobradura. Tiram da gente a ideia de que educação é um investimento, nossa arte, nosso esporte, virou uma despesa, que pode ser cortada, afinal, de onde olham os que decidem, não se vê a escola, não se vê o professor, não se vê o aluno, e muito menos a favela.

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