Ilha Solteira, domingo 17 de abril de 2016

Tenho acompanhado a maioria dos protestos de rua que acontecem na cidade de São Paulo desde junho de 2013. De 2015 para cá com a polarização que se intensificou após as eleições de 2014, fotografo as manifestações de ambos os lados sempre que posso.

O ápice desses movimentos aconteceria no dia 17 de abril, data marcada para a votação na Câmara dos Deputados sobre o processo de impeachment. Na praça da Sé, movimentos pró governo. Na avenida Paulista, os opositores a favor da mudança no governo.

Quis o destino que eu não estivesse na cidade justamente nesse dia. Eu estava do outro lado do estado na cidade de Ilha Solteira, município com cerca de 25 mil habitantes onde fui dar uma palestra e cumprir atividades do meu trabalho na USP.

Decidi então que eu iria fotografar a cidade no mesmo momento em que as manifestações estivesse acontecendo em São Paulo. Eu não sabia o que aconteceria lá: se haveria algum ato/passeata pró ou contra o governo. Escolhi usar a câmera do meu celular para fazer as imagens e fui me deixando levar pelo que via pela frente.

Ilha Solteira é uma cidade jovem. Criada em 1968, ela surgiu do acampamento construído para os funcionários da Companhia de Energia do Estado de São Paulo (CESP) que iam construir a barragem que existe até hoje. A versão que mais ouvi por lá diz que a cidade foi administrada durante anos pela empresa e que, ao final da obra o acampamento seria desmontado mas trabalhadores decidiram ficar no local dando origem a um distrito de Pereira Barreto, cidade vizinha. Em 1991, Ilha Solteira foi emancipada e se tornou município.

Naquele domingo, a cidade estava muito calma. Nas ruas, poucas pessoas comentavam sobre a votação iminente. Nenhuma passeata ou movimentação de apoio ou contra o governo aconteceu. Perguntei em três lugares diferentes (um posto de gasolina, uma sorveteria e uma lan house) se a cidade era sempre daquele jeito. Em todos os lugares me disseram que sim. Em geral as pessoas ficam em casa ou vão até a prainha para se refrescar do calor de quase 40 graus que geralmente faz naquela cidade, independente da época do ano.

As poucas pessoas que encontrei na rua estavam andando calmamente de bicicleta ou conversando na porta de casa tomando o "tereré", bebida gelada típica da região.

Para quem mora nas grandes capitais ou metrópoles, é quase comum pensar na vida em cidades menores como bucólicas ou com clima idílico. Pode ser diferente em outros dias do ano mas naquele domingo Ilha Solteira correspondeu exatamente esse imaginário: ruas vazias e silenciosas. Raramente um veículo passava para quebrar a tranquilidade ou interromper o som dos pássaros.