Projeto “Corre” — Damn Gang

“É difícil descrever o que a gente faz” me disse Felipe Paku, um dos criadores da Damn Gang sentado na mesa de uma hamburgueria logo após corrermos 5km pelas ruas da Vila Madalena. Não soou arrogante. Era uma dúvida que ele mesmo parecia ter. Ao longo da conversa fomos chegando a algumas conclusões que talvez descrevam melhor o que essa crew criada no final de 2016 faça hoje.

Não é um “corre” popular. É nicho. É underground. É de propósito. Falei com ele sobre as origens da Damn, retomada do espaço público, e a pergunta que não quer calar: existe cena de crews em São Paulo? “Vixe mano, se eu falar tudo o que eu tô pensando…” Então fala aí Paku…

Damn Gang @ Underdogs Racing Society Final

Puxado o corre hoje ein? Muita ladeira…

(risos) foi especial pra você correr com a câmera.

Aliás, obrigado por fazer a minha segurança no percurso…

É perigoso andar por aí com esse equipamento, cê é loco (sic).

Estou acostumado. (risos) Mas vamos começar a conversa: Por que “Damn Gang”?

Ah cara, se eu for falar a real mesmo (risos)… bom, na verdade “Damn” é pelo significado original da palavra no idioma inglês. Além disso tem o lance do branding: éramos quatro pessoas no começo e a palavra tem quatro letras.

E o “Gang”?

O “Gang” foi porque a gente não queria usar “crew”. Pelo que a gente entendia na época, quem se autodenominava crew aqui o Brasil não era de verdade. Eram grupos de corrida que usavam esse termo. Então a gente preferiu usar “Gang” pra se diferenciar do que rolava na cultura de corrida de rua daqui.

Quando vocês começaram?

Organizado mesmo foi quando a gente resolveu correr a prova “Bertioga — Maresias”. Montamos um grupo e precisávamos inscrever o nome da equipe. Mas eu e a Lu (Luciana David, namorada do Paku) corremos na rua desde 2015. Aí em dezembro de 2016 a gente começou a se juntar e fechamos o grupo.

Damn Gang
Damn Gang
Damn Gang
Damn Gang

Muita gente se refere a Damn Gang como sendo um corre mais underground. Vocês sentem isso? É proposital essa imagem ou é algo que vocês fazem sem perceber?

O lance é que correr é um saco (sic). É chato demais. A Lu começou a correr porque tinha que fazer algum esporte aqui em São Paulo. Meu pai é maratonista. Então eu fui meio que junto com eles. Mas você é corredor e sabe, com certeza alguém já chegou e falou: “pô, posso correr com você?” Mesmo num dia que não está na sua planilha você vai e corre. Acontece com todo mundo. A corrida te tira da zona de conforto. E tem corrida de tudo quanto é tipo: na rua, na montanha, corrida longa, curta… enfim.

E porque a Damn Gang se reúne as quintas-feiras?

Porque era um dia que nenhum de nós tinha nada na agenda: nem crossfit, nem treino de planilha, nem aula de porra nenhuma. Aí a gente se reunia pra tomar uma cerveja, trocar uma ideia e correr. Inicialmente a gente não anunciava pra ninguém. Era um lance nosso. Daí a gente começou a postar no nosso Instagram o que a gente estava fazendo e a galera começou a perguntar se poderia colar junto também.

Acho que aí está uma grande diferença na postura de vocês em relação a outros grupos…

Cara, eu acho que o que a gente tem de diferente é que, tudo bem você ser um corredor de performance ou correr só para se manter saudável. Mas de quinta se você vier correr com a gente nenhuma dessas duas características vai fazer diferença, porque a gente usa os nossos encontros como uma ferramenta de integração social. O objetivo não é o corre. É encontrar as pessoas, conversar, tomar uma cerveja e comer um hambúrguer. Correr é só mais uma coisa que a gente faz junto nesse dia.

Não tinha prestado atenção nisso…

Pois é, estava conversando com o Junior da Ghetto (Ghetto Crew, grupo do Rio de Janeiro) e ele me dizia que era muito difícil entender o que a gente faz. Porque na visão dele a gente não tem uma linguagem fechada. E a ideia é essa mesmo. Hoje eu digo que o nosso objetivo é criar um espaço democrático pra galera se empoderar e fazer atividade física.

Damn Gang
Damn Gang
Damn Gang
Damn Gang
Damn Gang
Damn Gang

Em outras conversas que a gente teve antes dessa entrevista, ouvi você citar crews de fora do país. Você trouxe essas influências pra Damn?

Sim. O que eu mais ouço os caras lá de fora falar é que esse tipo de corre é como se fosse uma mesa de jantar da sua casa onde você recebe os amigos. Só que, no caso dos grupos de corrida, a gente recebe as pessoas na rua. A verdade é que a gente prefere muito mais o pré e o pós corre. O durante é só a ferramenta que junta. O legal mesmo é conversar, conhecer novas pessoas, fortalecer os laços, beber, comer, celebrar.

Dá pra dizer então que os corres da Damn Gang são muito mais um lance social do que de perfomance?

Acho que até dá. Tem um outro fator muito importante que é a integração com a cidade. Acredito muito no lance de retomar a cidade pra gente. Porque por muito tempo as pessoas deixaram de circular, conhecer bairros diferentes, lugares em que elas nunca estiveram. Isso pra mim também é fundamental. Tem tanta coisa envolvida, tantas possibilidades que eu acho pouco olhar só para perfomance individual de cada um.

Uma visão mais ampla torna tudo mais interessante…

Claro! É um saco essa “punhetação” de ficar levantando a camisa e mostrando os quadrados na barriga, ficar mostrando que tem pace foda… aqui a gente espera todo mundo… e voltando ao lance de retomar a cidade é por isso também que não temos um local fixo. Antigamente a gente saia do metrô, fazia o percurso e voltava. Chegava no bar e começava a causar problema pela quantidade de gente. Só que começou a aumentar o número de pessoas e daí a gente começou a marcar em lugares que a gente já conhecia e sabia que não teria problema.

Além disso São Paulo é uma cidade chata, cinza, sem graça. As pessoas não se respeitam: o motoqueiro não respeita pedestre, o pedestre não respeita a faixa para atravessar a rua…

Correr na rua ajuda também a reforçar essa apropriação não?

E também ajuda a quebrar o estereótipo de que quem corre tem ficar confinado no Parque do Ibirapuera. Aliás corredor que treina lá segue um estereótipo: meia de compressão, manguito, relógio com gps, tênis de última geração no pé. A gente foge muito disso. A gente quer integração com outro tipo de corredor e até com esse que vai no parque. Mas a gente busca diversidade.

Mudou a relação de vocês com a cidade?

Mudou muito. A gente sente que a cada esquina que a gente passa de carro, quando a gente passa correndo a pé a gente vê coisas que a gente nunca viu. A gente se sente mais parte da cidade. E a gente quer compartilhar isso com mais pessoas. E de certa forma é uma espécie de ativismo sem ser agressivo. Porque o nosso convite é: vamos tomar uma cerveja e comer algo. Na paralela você vai conhecer melhor a sua cidade e aumentar a sua rede conhecendo pessoas.

Damn Gang
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Hoje no começo você avisou todo mundo que o pace de referência seria o da pessoa mais lenta. Era pra deixar claro que ia todo mundo junto?

Exato, não tem essa… as vezes a gente até separa em dois pelotões mas esse formato que a gente faz, bem aberto toda quinta-feira é pra não gerar stress nem preocupação. Todo mundo tem que correr junto e celebrar.

A identidade visual da Damn Gang me chama atenção pelo design. Existe um trabalho em cima disso?

Cara, todos nós pensamos nisso. No começo éramos mais eu e a Lu que olhávamos pra essa coisa estética. Mas foi legal você ter perguntado isso porque essa coisa do design conta um pouco de como a gente funciona. Se você for em uma reunião nossa vai ver que começa todo mundo sorrindo, em seguida rola uma briga feia e no final sai todo mundo se amando. E a gente chega em um ponto comum e já parte pra ação sem muita enrolação. Acho que essa coisa do design foi fruto disso.

Você teve a experiência de viver fora do país. Acha que isso influencia?

Acho que tem muito de mim em tudo o que a Damn Gang faz porque eu vivi a cultura de corrida de rua fora do Brasil. Então eu sempre tento puxar para a minha experiência. Mas é só uma parte porque eu trago essas ideias e tudo se mistura com o que galera que não teve a mesma experiência e acaba virando uma tradução para o que a gente faz aqui.

Damn Gang
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O público de vocês não é tão diverso. Tenho a sensação de que são jovens até 30 anos no máximo. Por que você acha que isso acontece?

Quando a gente começou nunca teve isso de definir um público. Por exemplo: no começo que aparecia era só gente muito próxima de nós que gostava do que estávamos fazendo. Quando a gente passou a fazer alguns treinos com a Nike apareceu várias outras pessoas que vinham só por conta do envolvimento com a marca. Só que a gente continuou fazendo a mesma coisa de sempre. A partir do momento que esses treinos diminuíram uma boa parte dessas pessoas pararam de vir, e aí estão inclusos as pessoas mais velhas por exemplo.

O pessoal acabou chegando mais achando que vocês poderiam ser uma extensão da marca e não o lance de vocês mesmos.

A gente sempre fez o que a gente acha melhor pra gente. Nunca mudamos a nossa essência. Por exemplo, nosso treino sempre teve muita subida. Teve uma parte desse pessoal que chegava e reclamava. O que eu sempre fiz foi dizer: “olha, vou te indicar então outros grupos que fazem treinos sem muita subida”. Não vamos mudar o que nós fazemos porque uma galera não gosta. Tem um monte de outros grupos por aí. Várias opções. Nós somos fiéis a nós mesmos. E eu acho bom, porque isso foi filtrando o tipo de gente que ficou conosco até hoje.

Mas você não se preocupa com o número de pessoas que frequenta?

Não porque a galera que cola com a gente entendeu a proposta e acaba indicando outras que já vem sabendo e isso vai fortalecendo. Não estamos preocupados em juntar multidões. Isso é consequência. Vamos seguir o nosso curso natural sem preocupações com número. A gente sabe que tem “crews” entre aspas que se preocupam com isso e respeitamos. Cada um com seu foco. Tem espaço pra todo mundo.

Pra encerrar: existe cena de crews na cidade de São Paulo hoje?

Aí vai depender do que a gente entende o que é uma crew. Pelo que eu entendo da coisa, eu acho que não. Eu acho que tem gente fazendo coisas, aproveitando essa atração que as marcas criaram em torno dos corres e sairam se autodenominado como “crew”. Não sei se pelos motivos certos ou pelos motivos errados, mas é assim que eu vejo. Eu sou liberal nesse sentido. Quer montar um grupo de corrida pra ajudar as pessoas a correrem? Legal, você está fazendo uma coisa bacana, mas você não faz parte de uma cena de crew.

Pra mim crew não é correr com roupinha colorida, com camiseta cheia de patrocínio parecendo macacão de formula 1. Não é ficar fazendo merchan, ficar mostrando toda hora vídeo seu na academia treinando. Tem o lance da sub cultura e do propósito que uma crew faz que nem cabe esse tipo de coisa. Eu acho positivo porque tem mais gente na rua e correndo. Tem bastante gente montando grupos. Mas cena de crew igual existe lá fora aqui em São Paulo não tem.

Damn Gang
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