É melhor quem julga primeiro?
A internet é um meio fantástico, possibilita uma infinidade de recursos de comunicação, de desenvolvimento pessoal, de avanços tecnológicos, de redução de distâncias e disseminação de ideias, no entanto o que serve ao bem, também serve ao mal, cada vez mais tem sido comum a destruição de reputações, simplesmente pelo fato de não aguardarem o posicionamento do alvo do dia ou por não averiguarem a fidelidade daquela notícia.
Tem uma entrevista muito legal do Denzel Washington em que ele está meio chateado com a mídia porque distorceram ou inventaram algo sobre seu posicionamento político na última eleição americana, e ele diz algo muito interessante que cabe bem como analogia para esse recente caso que motivou esse texto, ele diz:
“- se você não lê as notícias é desinformado, se as lê é mal informado…
- essa é a grande questão, qual o maior objetivo da informação?
- um dos grandes objetivos é chegar primeiro, já não se trata mais em ser o mais verdadeiro.”
Com isso chegamos ao caso atual da miss África do Sul que apareceu em uma foto numa creche, alimentando crianças vestindo luvas cirúrgicas, e essa foto viralizou como um ato de racismo da jovem, eu vi essa foto e os comentários ontem, hoje sai uma declaração da assessoria da miss e também da creche, informando que é norma da creche que ao manipular alimentos para as crianças deve-se colocar luvas para a segurança sanitária das crianças, não dos voluntários.
Essa informação fornecida pela creche e pela assessoria de imprensa da miss pode ser falsa? Óbvio, pode sim!
Mas porque não gastar alguns minutos pesquisando a veracidade da informação, ou aguardar mais alguns dias por mais esclarecimentos, antes de simplesmente partir para destruir a reputação de mais uma pessoa na internet?
Essa atitude já seria questionável mesmo tendo a confirmação das suas convicções, imagina agir de forma arbitrária baseando-se apenas em uma imagem sem considerar o contexto daquela situação?
As novas tecnologias de comunicação podem ser uma dádiva ou uma maldição, depende de como a usamos, as fake news (notícias falsas), pós-verdade, têm transformado o mundo em um lugar pior, e muitas vezes as notícias falsas começam com um boato, que faz com que nós, na boa intenção de mostrar que somos seres engajados e desejamos transformar o mundo em um lugar melhor, compartilhamos aquele boato como sendo a mais absoluta verdade, mas sem conferir a fonte, sem considerar o contexto, sem ouvir o outro lado, porque hoje, tudo urge, tudo tem de ser agora, se deixar para amanhã, já é descartável, o assunto já é outro e estaremos desatualizados.
Será que realmente essa atitude é a mais coerente de quem se preocupa com o próximo? Duvido bastante, às vezes perder algum tempo para uma pequena investigação pessoal, ou aguardar o dia seguinte para ver o que aquilo de fato é, pode fazer você proteger um inocente, não atirar uma pedra que irá ferir e deixar cicatrizes permanentes, e o histórico da internet está recheado de injustiças dessa natureza, onde a reputação da pessoa foi destruída, e o motivo pelo qual a atacaram era falso ou mesmo inexistente.
Muitas vezes nossas boas intenções podem estar gerando exatamente aquilo que mais estamos combatendo, o pré-julgamento, o preconceito e o ódio. É muito legal ter uma opinião sobre os fatos relevantes da vida real, da internet, mas precisamos mesmo ter uma opinião imediata, sem reflexão?
E ao emitir uma opinião, mesmo que todos os cuidados acima tenham sido tomados, mesmo que a afobação não tenha sido o guia de nossa ação, temos que nos questionar, se atacar, muitas vezes de forma desproporcional, a pessoa que errou ou deliberadamente agiu de forma inadequada, se essa é a melhor forma de transformarmos o mundo num lugar melhor para se viver.
Agindo assim, será que não estamos tão somente amplificando essa onda de julgamento sem direito à defesa, réplica ou explicação? Nesse grande tribunal informal, não poderíamos ser taxados como muito mais cruéis e correndo o risco de sermos banidos da sociedade, do mundo, assim como esses eventuais réus? Essa não lhe parece uma pena cruel demais para a maior parte dos casos julgados nesse ágil e sumário tribunal virtual?
Acredito que apontar o dedo e julgar por meio de agressão, jamais seja, sob hipótese alguma, um caminho para uma sociedade melhor, não se consegue mais tolerância, menos preconceito, mais amor e diversidade, disseminando o ódio, isso só se consegue exatamente com mais tolerância, menos preconceito, mais amor, mais diversidade, e muito, muito menos ódio em nossas mentes e corações.
