A insensatez do cinza

sobre a alegria e o poder das cores

Artistas pela ordem de seus grafites: Binho, Crânio, OsGemeos, Rage, Tikka, Titi Freak e Whip, Alex Senna e Fin Dac (inglês fotografado por Charles Humpreys

Em 10 de maio de 1933 os nazistas queimaram em praça pública os livros dos alemães inconvenientes ao regime. Essa data marcou o iniciou da perseguição aos intelectuais e escritores como forma de limpar o regime desse grupo de ‘subversivos’.

Ao relembrar esse terrível trecho da história da humanidade, é impossível não fazer um paralelo com a São Paulo atual, tudo que remeta ao adversário, na verdade ao inimigo, deve ser exterminado, felizmente não se chegou ao ponto de exterminar o inimigo, mas qualquer coisa que o vincule, ainda que seja benéfico à população, à cidade, ainda que atraia bons olhares. Se foi feito ou apoiado pelo inimigo deve ser destruído.

Essa marcha da insensatez, pelo menos recentemente, só tem paralelo com as ações do governo federal contra o patrimônio dos brasileiros e os seus direitos sociais conquistados a duras penas.

Essa ação é tão absurda que um dos secretários da prefeitura de São Paulo, após tingir todos grafites da 23 de Maio, disse que de fato ficou muito cinza, ironia ou não, talvez fosse o que eles esperavam, que o cinza na verdade não fosse assim, tão cinza, tão sombrio, tão obscuro, tão deprimente, mas é cinza, não é?

Muitos gestores, mesmo no século XXI não perceberam ainda que suas ações na cidade repercutem diretamente no humor e na saúde de seus habitantes, vejamos a cidade de Boston-EUA, era praticamente toda cortada por viadutos, de todos os tipos que você possa imaginar, todas as alturas, tinha viaduto passando na janela do 8º andar de um edifício, e, como nós sabemos, viadutos são estruturas espacialmente pesadas, poluem visualmente e são em sua maioria ‘naturalmente’ cinzas. O que aconteceu com essa Boston ‘moderna’? A cidade se deprimiu, a população adoeceu com a frieza e dureza de suas avenidas, foi então que no início da década de 1990 seus gestores decidiram derrubar esses elevados e substituí-los por túneis, devolvendo às pessoas a escala humana, e na superfície onde ficavam os viadutos implantou-se jardins e passeios.

Montagem do Facebook de Gus Bozzetti

Isso oxigenou as ruas, as pessoas, hoje se respira, você pode ter prazer ao caminhar em um ambiente com vida, de fato, há jardins, sua visão não é interrompida pelo concreto, seu céu não é um bloco de tom escuro, quase preto pela poluição do trânsito. E me digam, olhando a foto de Boston antes e depois, que mais lhe parece a visão do futuro, do século XXI?

São Paulo por muito tempo foi a grande selva de pedras, a cidade que nunca dorme, a cidade onde o carro é o ícone do sucesso, mas era também uma Boston do passado, seus viadutos cinzas e suas empenas cegas combinavam com a frieza de quem tinha pressa e o acinzentado das nuvens da cidade da garoa.

Então um gestor com uma visão mais humanista da cidade decidiu substituir o cinza por multicores, criou o maior mural da América Latina, com grafites de mais de 400 artistas de várias partes do mundo, ampliou essa ação para algumas empenas cegas de prédios, mas, não satisfeito evoluiu em sua proposição e propôs jardins verticais nessas empenas, o que seria uma compensação ambiental para empresas que destruíram áreas verdes ou implantaram projetos de impacto ambiental. Há inúmeras vantagens de um jardim vertical, melhora a paisagem, reduz sensivelmente a poluição sonora e aérea, e humaniza o local onde é instalado.

Grafite de Tinho-Nomura — pintado-no-muro-do-ambulatório-médico-da-Unifae

O grafite atua de forma semelhante, ele em si é humanizador, porque é arte, além de tornar a cidade mais alegre, visualmente mais aprazível para o passear, tanto a pé quanto de bicicleta, até mesmo para os apressados carros.
Os murais de grafite da São Paulo mais humana tinha assinaturas como Kobra, OsGemeos, Titi Freak e outros que também cederam suas obras para visitação a céu aberto como o artista plástico Rui Amaral, sem falar dos diversos artistas grafiteiros estrangeiros que também cobriram o cinza com arte e contribuíram para criar aquele museu democrático e inclusivo, que alegrava o dia de quem viaja diariamente por esses corredores.

Kobra grafita na Zona Sul Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock (Racionais MC’s) no Capão Redondo

Esse museu atraiu turistas, deu a cidade de São Paulo uma maturidade que até então ela não tinha, afinal, o que há de mais infantil do que aquela pessoa que quer a todo tempo parecer séria para mostrar mais maturidade. São Paulo decidiu mostrar que cresceu justamente porque podia ser quem é, mostrar sua vocação, que é ser grande e cosmopolita.

Minhau grafite na Zona Norte — SP

No entanto, não basta uma cidade ser grande, rica e poderosa politicamente para se dizer cosmopolita, ela precisa se diferenciar por aceitar as diferenças, por respeitar não apenas o negócio, mas o pedestre, o ciclista, o motorista, por respeitar a todos, por ser aberta à arte, aos artistas, aos intelectuais, por respirar vida e abraçar a inclusão em todos os seus significados, a São Paulo de 2017 não reúne essas virtudes, ele é tão grande, mas tão pobre de ‘alma’, seus algozes já haviam tentado isso antes, obscurecê-la, o que gerou uma bela música cantada por Marisa Monte, chamada Gentileza, mas agora conseguiram, “apagaram tudo, pintaram tudo de cinza, só restou no muro, tristeza e tinta fresca”.

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