A ração humana e o primeiro passo de desumanização dos pobres


Essa questão da ração para pobres, criada pelo prefeito da capital mais importante e influente do Brasil, João Doria, ainda não me desceu pela garganta, está aqui entalada, assim como ficou na garganta do secretário municipal de São Paulo ao tentar prová-la.

A justificativa de sua proposição foi que é melhor ter alguma coisa pra comer do que passar fome, afinal “pobre não tem hábito alimentar, mas fome”, segundo o próprio Doria falou em uma entrevista de 2011, uma frase de efeito, mas carregada de preconceito e desumanidade, apenas os desatentos vêem pragmatismo filantropo na mesma, é um pragmatismo capitalista predatório, que é tratar pessoas como objetos, como animais, afinal tudo que conta é a redução dos custos das empresas e a maximização do lucro.

Se essa ração é para atender a quem tem fome, as pessoas e crianças mais vulneráveis socialmente, porque haverá distribuição dessa ração nas escolas públicas? Uma vez que nas escolas, ao menos as públicas, há, ou deveria haver, um cinturão de proteção a nossas crianças, e ali o alimento consumido deve ser o mais saudável possível para se criar um hábito alimentar também saudável, aquele que o Doria disse em 2011 que o pobre não tinha.

Seguindo sua lógica perversa, se o pobre não têm hábito alimentar, vamos perpetuá-lo, acostumando-os desde cedo a alimentar-se tão somente de ração humana, assim não precisam se acostumarem com os prazeres de uma boa comida, que nas escolas nem é tão boa assim, infelizmente, assim ao crescerem não se decepcionarão por não conseguirem manter esse hábito maldoso criado pelas escolas públicas de governos decentes, que é se alimentar com produtos frescos e naturais, uma vez que na vida adulta o que lhes restará? Ração!

Fazer com que as crianças “criem” um hábito desde pequenas de se alimentarem apenas de ração fará com que não precisem de um período de adaptação na vida adulta, isso segundo a mente doentia e psicopata do prefeito de São Paulo, João Doria.

Como as entidades de proteção à vida não se manifestaram ainda sobre o assunto? Isso é um crime, uma aberração, alimentar-se é um direito, é um ato político, tirar esse direito das pessoas é diminuir seu papel na sociedade, é tirar o pouco da dignidade que resta aos pobres e socialmente mais vulneráveis.

E o pior, começará fazendo isso estigmatizando nossas crianças, onde estão as instituições de proteção à criança, se no Brasil as instituições não mais funcionam, onde está a FAO (Food Agriculture Organization), agência da ONU responsável pela área de alimentação e pelo famoso mapa da fome?

Isso é uma realidade distópica, custa-me acreditar ser real, um fato como esse não pode seguir adiante, estamos dando passos para criar indivíduos, formal e legalmente, de segunda categoria, indivíduos que não têm, ao nascer, os mesmos direitos inerentes, que eu achava ser de todos os seres humanos, de toda a humanidade que é o direito à alimentação, ração damos ao gado para engordá-lo e nos servir de alimento, uma objetificação, a que servirá os pobres do Doria?

O direito básico de alimentar-se de forma saudável foi transformado em simples reposição de calorias, mínimas ou máximas, ou alguém duvida que até a ração será racionada?

Na mente invertida e distorcida do prefeito da maior cidade do Brasil ele deve sonhar com prêmio Nobel da paz por “acabar” com a fome no mundo, e de troco ainda ficar multi-bilionário vendendo os direitos da ração humana mundo afora, mas só esqueceram de lhes dizer que a fome maior dos miseráveis, como ele os chamou, é de dignidade, não de calorias.