Palafitas, moradia e cidadania

Atualmente a moradia popular está na moda, você abre o jornal e sempre tem alguma reportagem sobre o assunto, mas ponto, fica nisso, apenas reportagens.
Em pleno século XXI ainda produzimos moradias populares que envergonham, que não são dignas de morar, favelizou-se institucionalmente, agora as favelas tem 3, 4 pavimentos, com revestimentos tão finos que ao chover desnudam o tijolo.
Quando teremos vergonha de não ter vegonha disso?
Quando teremos cidadania suficiente para entender que inserção social se faz também com moradia adequada?
E que isso não significa apenas tirar as palafitas, sim, tirar as palafitas, termo bem diferente de: tirar das palafitas.
Nossa preocupação com moradias em palafitas é: poder fazer um passeio de catamarã sem o incômodo daquelas moradias que denigrem a imagem da “nossa” cidade, nossa, não deles, porque eles, aqueles que ali sobrevivem, praticamente são banidos da sociedade. Quando convivem conosco escondem sua origem.
A responsabilidade de mudar isso é de cada um de nós, cidadão comum, governante, Arquitetos, sim, e Urbanistas, afinal, moradia digna, mudança real na vida dessas pessoas só acontecerá quando os projetos elaborados para tirarem essas pessoas dessa subvida, forem projetos para o mesmo bairro em que se encontram, contextualizando com o seu meio, para que não se sintam excluídos, como hoje as prefeituras fazem, criando novos guetos na cidade, colocando-os embaixo do tapete.
Esse contextualismo não significa o uso de materiais nobres, tampouco das tecnologias mais caras, mas sim, necessita de uma criatividade do século XXI, necessita entender que o dinheiro empregado para construir moradias mais dignas a esses excluídos é investimento, os conjuntos de prédios (não posso chamar de conjuntos residenciais, porque não o são) que as prefeituras tem criado para realocar os antigos moradores de palafitas são pobres em projeto de toda a natureza, pobres em tecnologias e completamente ausentes de estudos de impacto na vida dessas pessoas.
Nesse momento onde os protestos viraram rotina no país, não vi um cartaz sequer pedindo moradia digna. Todos nós ganharemos quando as pessoas retiradas das palafitas receberem moradias dignas no próprio bairro de onde foram removidas, com projetos contextualizados com o ambiente ao seu redor, isso é cidadania, isso é dignidade isso é Arquitetura, isso é Urbanismo.