Sobre o filme “Que horas ela volta?”

Jéssica, filha da empregada ao sair da piscina.

Até bem pouco tempo atrás, falo em 4 ou 5 anos, os projetos de residências para a classe média-média e até alguns da classe média-baixa, possuíam o famoso quarto de empregada, normalmente localizados nas áreas mais desconfortáveis do imóvel, e nós, arquitetos, fazíamos isso como se fosse a coisa mais natural do mundo, só que não era.

O quarto de empregada era a institucionalização da escravidão moderna, tirávamos o funcionário do seu seio familiar para que pudessem servir, durante 24 horas, quem lhe pagava o salário.
E sobre esse salário, só apenas agora, ano passado, 2015, começou a vigorar a nova lei que equipara os trabalhadores domésticos aos demais, antes disso era um vale tudo, um pouquinho, apenas um pouquinho mais atrás, até o salário mínimo era raridade entre esses profissionais, na maioria dos casos pagava-se menos, sob o argumento de que eles faziam suas refeições na casa do “patrão”, ou porque dormiam lá, ou porque recebiam o transporte, ou seja, para segregar, explorar, qualquer desculpa serve.

E, uma forma de diminuir nossa culpa era dizer, como no filme, ah, “Maria” é como se fosse da família, já está conosco a mais de 20 anos. Por que “Maria” é quase da família? Por conveniência, para diminuir os riscos, tratando-os assim ficariam constrangidos de procurar a justiça para requerer seus direitos sobre sua própria “família”, seria um ato de ingratidão. Só que, essa família só existe enquanto houver o tácito acordo de você não querer ser semelhante, de você saber colocar-se em seu lugar, não invadir o espaço que pertence tão somente a nós, que lhe pagamos, então, não invada nossa zona de conforto, caso contrário iremos colocá-los em seu devido lugar, que é um ser humano em trabalho análogo ao escravo. O bom empregado doméstico tem de ser invisível, não pode atrapalhar a rotina da casa, quando não estiver “produzindo”, deve estar no seu lugar, ou na cozinha nos imóveis mais modernos, ou no quarto dos fundos (quarto de empregada) nos imóveis mais antigos.

Essa lei que regulamenta os direitos dos trabalhadores domésticos veio, e já veio tarde, para trazer dignidade e impulsionar os que foram demitidos a procurarem algo melhor, para não perpetuarem essa herança aos seus filhos, netos, como sempre ocorreu, gerações inteiras de empregados domésticos, não por opção, mas pela falta dela.

Atualmente, muitos dos antigos patrões já não podem pagar o salário com todos os direitos que cabem a esses trabalhadores e também têm medo do passivo jurídico que poderá surgir, logo, essa lei, além de beneficiar diretamente o empregado doméstico, tem a tendência de mudar a cultura de toda a sociedade.

Espero sinceramente, que em um futuro breve, essa realidade do empregado doméstico seja uma raridade, que talvez apenas os verdadeiramente ricos possam contratá-los, pagando salários realmente justos, dando o tratamento digno que todos nós temos o direito de receber ao executarmos qualquer função legal, mas que também as novas gerações, aprendam que o que é seu, é você que tem de cuidar, que o que você sujou, é você que tem de lavar, que não há nada mais particular do que lavar as próprias roupas e arrumar a própria cama.

Este texto foi um comentário feito no artigo original da Carta Capital:
http://www.cartacapital.com.br/revista/882/eu-sou-jessica?utm_content=buffera09f5&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

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