Divagações sobre Anna Karienina, Tolstói, Taylor Swift e paquera

Escrita, arte, sentimentos and WHAT IT ALL MEANS

“Por que eu escrevo?”, taí uma pergunta que eu nunca tinha me dado ao trabalho de fazer, muito menos de querer responder. Porque sim, ué. Porque eu quero. Porque isso se tornou meu trabalho. Não é suficiente?

Sim e não. Essa semana, comecei a pensar sobre isso meio que sem querer quando resolvi assistir Anna Karienina (os americanos chamam de Karenina, os editores da Cosac Naify preferem Karienina, escolha o seu lado).

Em 2016 reli o romance depois de alguns anos, e um dos aspectos que mais me impressionou nessa releitura foi perceber como tantas coisas definitivas para a história são firmadas a partir de olhares e coisas que são soltas e pegas no ar. É ainda mais impressionante a capacidade do Tolstói, enquanto escritor, de narrar tudo de modo que a gente sinta esses gestos e esses olhares da mesma forma que os personagens, acreditando, assim como eles, em sua concretude; acreditando que histórias inteiras podem mudar de rumo por conta de um bocado de coisas que nem sequer foram ditas, que ficaram apenas subentendidas. Os personagens, todos eles, possuem uma vida interior muito rica (meio que todo mundo, né) e nós temos um acesso privilegiado — pois muito bem escrito — do mundo que existe dentro de cada um, tão determinante pra tudo que acontece e que dá um novo significado aos fatos.

“Please don’t be in love with someone else” ♫
“Please don’t have somebody waiting on you” ♫

Anna e Vrosnky se apaixonam com um olhar, olhar que Kitty também capta e que foi suficiente pra ela saber que, ainda que um dia ele tivesse tido a intenção de se casar com ela, aquilo acabou no momento em que Vronsky viu Anna no baile. E Anna percebeu o mesmo olhar, e sabia que era pra ela, e sabia que sem dizer ou fazer nada ela havia correspondido, e que aquilo mudava tudo, e que ela nunca mais olharia o marido da mesma forma, e que com isso havia arruinado as coisas para Kitty — que a acusava também com um olhar, não sem uma certa razão. Mas era tarde demais. Eles estavam condenados, e nenhuma palavra foi dita.

♫ “And it was like slow motion, standing there in my party dress, in red lipstick and no one to impress” 

O romance de Anna e Vronsky começa antes de qualquer toque, qualquer declaração, quando eles dançam juntos no baile como se não existisse ninguém no mundo além dos dois. Na última adaptação do livro para o cinema, feita pelo Joe Wright, isso acontece numa cena (que é uma das minhas favoritas) em que todos os outros casais são congelados, e depois desaparecem, para que só restem Anna e Vronsky no salão.

Quando eles conversam um com o outro sobre trivialidades insuspeitas da vida em sociedade, é como se uma legenda paralela acompanhasse o diálogo, revelando tudo que eles não estavam falando, mas que diziam com os olhos, com o corpo inteiro e, sobretudo, com uma troca de energia misteriosa, sentida não apenas por eles, mas por todos ao redor. Karienin, o marido de Anna (ou Karienão, como me acostumei a chamá-lo), tem dificuldades de assumir para si e para os outros que estava sendo traído, mas ele o sabe, antes mesmo de Anna confessar, por causa de um olhar, uma traição que também começou com um olhar — e para sempre todos eles, mas principalmente ela, foram condenados.

O mesmo acontece com Kitty e Liévin, que vivem o amor feliz que faz contraponto à tragédia dos outros dois. Desde a primeira interação deles no livro, Liévin, talvez por ser o maior pisciano da literatura universal, sente a presença de Kitty no ambiente, um momento que Tolstói descreve com a frase que pra mim é a mais bonita do livro:

Reconheceu que ela estava ali pela alegria e pelo terror que se apoderaram do seu coração. Ela estava parada, conversando com uma senhora, na extremidade oposta do rinque. Nada parecia haver de especial em sua vestimenta, nem em sua atitude; mas, para Liévin, foi tão fácil reconhecê-la na multidão, como uma rosa nas urtigas. Por sua causa, tudo se iluminava. Ela era um sorriso que irradiava luz em tudo ao redor. “Será que vou conseguir chegar até lá, sobre o gelo, e aproximar-me dela?”, pensou. O lugar onde estava Kitty lhe parecia um santuário inacessível e houve um momento em que Liévin quase fugiu, tamanho era o seu pavor. Teve de fazer um esforço contra si mesmo e convencer-se de que, em torno dela, havia todo tipo de gente e que também ele poderia ir até lá, para andar de patins. Desceu, evitando por um longo tempo olhar para Kitty, como se evita olhar para o sol, mas a via, como se vê o sol, sem olhar.

É uma das melhores formas de descrever não só como é gostar de alguém, mas, principalmente, como é sentir atração por alguém: um estado de consciência que aguça nossos sentidos e dobra as leis da física de modo que mesmo em um lugar enorme, no meio de um monte de gente, você vai localizar e sentir a presença daquela única pessoa que te interessa, como se uma linha invisível (uma conexão meio elétrica e magnética) ligasse vocês, e tudo que o outro faz você sente puxar na sua ponta.

Kitty e Liévin também se resolvem com olhares, nessa mesma troca de energias misteriosa. Um mal entendido provocou um desencontro de anos no relacionamento dos dois e tudo foi desatado com olhares e também através de um código que o próprio Liévin inventa na hora para dizer o que sente — o qual Kitty, sem necessidade de glossário, entende imediatamente, porque ela sente o mesmo e quer a mesma coisa. Mas antes de chegarem nesse ponto, lá se vai quase metade do livro (um livro de umas 800 páginas, vale dizer), porque existe um processo interior intenso se operando entre os dois até que eles cheguem nesse momento de descobrir, aceitar, querer e se permitir passar o resto da vida juntos.

- Veja — disse Liévin e escreveu as iniciais: q, a, s, m, n, r, p, s, q, d, n, o, m? Essas letras significavam: “Quando a senhora me respondeu ‘não pode ser’ queria dizer nunca ou naquele momento?’. Não havia a menor probabilidade de que ela conseguisse entender essa frase complexa; mas Liévin fitou-a com tal expressão que sua vida parecia depender da compreensão daquelas palavras. (…)
- Compreendi — respondeu, num sussurro.
Liévin sentou-se para escrever outra frase comprida. Kitty compreendeu tudo e, sem lhe perguntar: é isto?, pegou o giz e respondeu de imediato.
Por um longo tempo, Liévin não conseguiu compreender o que ela havia escrito e mirou os olhos de Kitty muitas vezes. Um estupor de felicidade o havia dominado. Não conseguia de forma alguma restituir as palavras que ela deixara subentendidas; mas nos olhos encantadores de Kitty, que reluziam de felicidade, Liévin compreendeu tudo aquilo que precisava saber. E escreveu três letras. Mas ele não havia terminado de escrever e Kitty já lia, ao mesmo tempo que a mão dele escrevia, e ela mesmo terminou, e escreveu a resposta: sim.
“Is it cool that I said all that? Is it chill that you’re in my head?” ♫

Essa provavelmente é minha declaração de amor favorita na literatura, porque consegue dar forma às subjetividades envolvidas no processo de gostar e de se aproximar de alguém. Aliás, foi assim que o próprio Tolstói pediu a esposa em casamento. Esse também é um dos motivos pelos quais sou fascinada — de forma teórica e filosófica, mas também prática, porque sou filha de Deus— por paquera. Para mim, o mais divertido e intrigante ao flertar com alguém é esse jogo que se constrói em torno do que não está sendo dito diretamente mas que, daquele jeito estranho, mágico, misterioso, com olhares, gestos, tons e um sei lá o quê, você e (espero!) a outra pessoa sabem, sentem, que existe algo ali, e que há muito tempo vocês não estão mais falando sobre um copo de água.

É um jogo minucioso e sofisticado, e que exige coragem, porque se sustenta sobre coisas invisíveis e frágeis; é um salto que se dá no escuro na esperança de que haja lá embaixo uma rede ou um chão que sustente todas aquelas nossas suposições malucas, que prove que o nosso feeling estava certo. Mas às vezes é tudo tão, tão frágil que se dissolve no ar antes mesmo de se tornar sólido, e então nós ficamos presos num quase que nunca saberemos direito se existiu ou se foi tudo coisa da nossa cabeça.

Em Anna Karienina, isso acontece quando Serguei Ivánovitch, irmão de Liévin, se aproxima de Várienka (esses nomes russos, como eu amo), amiga de Kitty, quando os dois vão passar o verão no campo com o casal. À moda de Tolstói, nada é realmente dito, mas ele sabe, e ela sabe, assim como todas as pessoas na casa sabem, que existe algo entre Serguei e Várienka. E como estamos na Rússia rural do século XIX, e porque ele é um viúvo que não está ficando jovem, e porque ela é uma solteirona e o mundo é cruel, o próximo passo mais natural é logo um pedido de casamento. Parece perfeito: eles saem juntos num passeio pelo bosque até que de repente tudo se desmancha no ar.

O coração de Várienka batia tanto que ela ouvia as pancadas e sentia que ruborizava, empalidecia e ruborizava outra vez. Ser a esposa de um homem como Kóznichev, depois da posição que ocupara ao lado da senhora Stahl, parecia a ela o máximo da felicidade. Além disso, estava quase convencida de que se apaixonara por ele. E tudo havia de se decidir agora. Ela sentia medo. Medo de ele falar e medo também de ele não falar.
Agora ou nunca, era preciso explicar-se; Serguei Ivánovitch também sentia isso. Nas feições, no rubor, nos olhos baixos de Várienka, tudo indicava uma espera dolorida. Serguei Ivánovitch percebia e tinha pena dela. Sentia até que nada dizer, a essa altura, significaria ofendê-la. Depressa, em pensamento, repetiu para si todos os argumentos a favor de sua decisão. Repetiu consigo mesmo até as palavras com que pretendia formular o seu pedido de casamento; porém, em lugar dessas palavras, por causa de algum pensamento que lhe acudiu de modo inesperado, perguntou de repente:
- Como se podem diferenciar os cogumelos comestíveis dos cogumelos de bétula?
Os lábios de Várienka tremeram de emoção quando respondeu:
- No chapéu, quase não há diferença; mas há na haste.
E, assim que foram pronunciadas essas palavras, ele e ela compreenderam que o assunto estava encerrado, que aquilo que deveria ser dito não o seria, e a emoção de ambos, que a essa altura chegara ao máximo, começou a amainar.
- A haste do cogumelo de bétula lembra a barba de um homem que ficou dois dias sem se barbear — disse Serguei Ivánovitch, já calmo.
- Sim, é verdade — respondeu Várienka, sorrindo, e o rumo do passeio mudou, espontaneamente.

É uma cena quase insuportável de se ler, principalmente se, assim como eu, você coleciona esses pequenos momentos em que você se vê andando com alguém na corda bamba das coisas concretas, tendo tudo e nada ao mesmo tempo, até perceber que o momento passou e você caiu do lado errado, como se aquilo nunca tivesse existido, e se pergunta: Será que foi tudo coisa da minha cabeça? E se não foi, então o que eu fiz de errado? Talvez seja porque Vênus está retrógrado, mas voltei a pensar obsessivamente num desses momentos que vivi há alguns meses. Foi um meet-cute digno de comédia romântica, com trilha sonora e coincidências absurdas que levaram àquele encontro. Seria uma excelente história se realmente tivesse acontecido.

No filme, Joe Wright usa o ambiente do teatro como cenário e também como alegoria para mostrar como os personagens estão sempre interpretando, que a vida em sociedade é uma performance, e quando penso na minha história consigo enxergar a gente ocupando a marcação correta no palco, embaixo da iluminação perfeita, então vem a deixa e… ninguém fala nada. Não há um ponto que nos diga o que dizer, que sopre as palavras certas que vão nos permitir cair do lado certo, amparados por uma rede das coisas concretas, das histórias que existem. Ninguém faz nada, e ainda me pego flutuando no plano da hipótese: se eu tivesse dito, se eu tivesse visto, se eu estivesse sozinha, se eu tivesse ficado, se eu tivesse insistido, se eu estivesse mais calma, se você estivesse menos nervoso, se fosse um outro dia, se não fosse eu e você.

Naquela noite voltei pra casa pensando em tudo que tinha acontecido, e principalmente em tudo que não tinha acontecido, pensando se tinha sido tudo na minha cabeça, se fui a única que sentiu puxar a ponta daquele fio invisível da atração. Sempre me sinto idiota contando sobre esses #momentos para outras pessoas porque é uma história onde não tem história, que se constrói em cima de coisas subjetivas. sentidas, mas não confirmadas. E se é assim, será que ela existe?

Tem essa música da Taylor Swift, “I Almost Do”, em que ela diz que só quer que a outra pessoa saiba que todas as vezes em que ela não vai atrás, ela quase vai — e esse quase muda tudo.

♫ “This hope is treacherous, this daydream is dangerous, this hope is treacherous and I, I, I like it” 

A Clara me escreveu um e-mail, e depois escreveu uma newsletter, se questionando a respeito de como se faz uma ideia:

Comecei a pensar na criação do mundo e em como deus ter criado o mundo se para criar é preciso pensar e se para pensar é preciso a linguagem mas não havia linguagem porque deus ainda tinha que cria-la. Comecei a pensar que a eternidade é o tempo sem conjugação de verbo e cada dia volto a me questionar como deus criou o mundo enquanto encaro deus como uma espécie de primeiro artista e cientista. Eu nem acredito na existência de deus, mas pensar sobre isso, pra mim, é como fazer literatura.

São questionamentos complexos que eu nem saberia começar a responder, mas fiquei pensando que o que os livros do Tolstói e as músicas da Taylor Swift fazem (sim, estou colocando os dois no mesmo balaio, fight me) é materializar, concretizar pela linguagem, essas realidades intangíveis que existem como dimensões paralelas antes dos fatos, uma nuvem formada por sentimentos e gestos subjetivos que significam tudo e nada.

O que mais gosto nas letras da Taylor é a forma como ela capta justamente esses #momentos e sensações e os transforma em histórias. Ela é igualmente obcecada por pequenos detalhes, pequenos encontros, e tem uma percepção aguçada de como as coisas podem acontecer em intensidades diferentes na vida real e na nossa cabeça — e ela considera as duas como válidas. Sério, você já ouviu “Enchanted”? Enquanto escrevia esse texto encontrei a versão completa de um texto em que a Tavi Gevinson fala sobre a Taylor Swift, um texto que tem literalmente quatro anos que quero ler e finalmente alguém escaneou todas as páginas. Nele, a Tavi escreve que a música da Taylor Swift, principalmente nos três primeiros discos, permitiu que ela se conectasse de outra forma com seus sentimentos, porque são expressões muito honestas de amor e desejo onde não há ironia alguma, só sinceridade e experiências compartilhadas.

But one thing you become shockingly ok with when you reach this scarier understanding of the music of Taylor Swift is these dumb, real feelings. You start to see each one, no matter how painful, as just another layer of your emotional spectrum, another experience,another circumstance valuable in itself because it’s another thing you get to feel. It is suggested, perhaps, that her music is less about being in love or mourning the loss of thereof, but how incredible it is that we can know what is like to have these emotions at all.

De forma parecida, o Tolstói possui uma sensibilidade absurda ao conseguir captar, e depois descrever, as formas subjetivas pelas quais agimos e interagimos, como tomamos decisões e criamos percepções a partir desses modos tão ambíguos e enevoados de perceber as coisas, como existem multidões dentro da gente que ninguém vê, mas que influencia tudo que somos e fazemos. E ele enxerga isso, e escreve, de uma forma que quem lê adquire um entendimento mais profundo não só da vida interior daqueles personagens, mas também da sua própria, porque todas as histórias são sobre nós.

Tudo isso foi o que escrevi enquanto pensava na resposta para a pergunta “por que eu escrevo?”. Acho que é porque eu também preciso transformar essas coisas em realidade, na minha realidade. Comecei a escrever há mais de 10 anos e era sempre sobre minha vida, isso partia de um desejo de documentar as coisas pra que eu pudesse, primeiro, me lembrar delas e, depois, entendê-las um pouco melhor. Durante esse tempo, tive fases de querer registrar tudo, fases de extrapolar a realidade, fase de ficar obcecada por momentos perfeitos, em que tudo parece certo, com estética e trilha sonora, como num filme. Até hoje tenho um fraco por eles, os quais chamo, não por acaso, de strange magic.

Mas eu também tive fases de não escrever. Viver mais, escrever menos, essas bobagens. Mas mesmo esses dias perfeitos ou trágicos que nunca ganharam o papel foram escritos na minha cabeça, porque eu tenho essa mania de pensar de forma narrativa, e às vezes, antes de dormir, eu me conto as minhas próprias histórias e nelas eu conjuro as palavras pra dar forma no que aconteceu, no que eu senti, no que quase foi, no que poderia ter sido, no tipo do sorriso, na música de fundo, na cor do céu. E então sei que eles existem, e vão existir pra sempre, pra mim.

Porque eu tenho que me certificar de que se uma coisa está na minha cabeça, não quer dizer que ela não seja real. Porque sentimentos são os únicos fatos e é mais fácil acreditar neles quando se tem uma boa história, menos assustador também. Lidar com sentimentos e com a intensidade da nossa vida interior não é fácil, e pra mim é especialmente difícil, mas escrever sobre essas coisas também me abriu mais para senti-las de forma mais honesta, numa simbiose meio doida. Escrever, e principalmente escrever e publicar, é um exercício de sobrepor vulnerabilidade e racionalidade, mas vivo umas catarses emocionais muito loucas no processo que genuinamente contribuem para minha saúde mental e autoconhecimento.

Pode parecer uma motivação egoísta ou narcisista, e talvez seja, mas existem também aqueles momentos perfeitos de conexão, pequenos milagres que permitem que outra pessoa leia todas essas coisas e pense: é isso. Também é a história dela. E a minha. E a do Tolstói. E a da Taylor Swift. É como um super-poder que sempre me salva no final do dia, essa coisa de fazer, sentir, apreciar e me conectar com a arte.

Então é por isso que eu escrevo.


Texto publicado originalmente em março de 2017 na newsletter No Recreio.