Aurora

12/02/2015

Aurora foi o nome que lhe deram. Parecia meio incoerente batizar um pangaré com uma denominação tão positiva, mas aquilo soava mais como um desejo do que uma constatação. Sem raça definida, ela era na verdade um exemplar selvagem, daqueles que se reproduzem livremente na natureza e todos acham lindo de se ver, mas enxergam pouca utilidade na sua existência.

Quando ela foi adquirida pelo circo, causou entre os artistas uma mistura de pena, desprezo e curiosidade. O que teria motivado Boris a investir um centavo que fosse naquele animal deprimente? Os mesquinhos achavam que um custo tão baixo valia o investimento em um burro de carga. Os otimistas preferiam pensar que o líder da trupe conseguia ver potencial muito além das aparências. O fato é que a potranca ficou um bom tempo ali, sem atribuição definida. Apenas comendo, dormindo e vendo o movimento das pessoas e da vida sem necessariamente ter que mover um músculo para participar. Parecia uma isca.

Já tinham se passado alguns meses quando Natasha tomou coragem e foi conversar com o dono da companhia. Ela estava cansada e sem perspectivas. Desenvolvera uma gastrite crônica devido à sua performance como engolidora de facas e espadas. Agora, pedia uma chance de criar um número próprio mais instigante. Estranhamente seu pedido foi atendido de pronto. Isso era um pouco desconcertante, pois ela sabia que aquela aquiescência mansa sinalizava algum tipo de plano secreto que lhe renderia muito trabalho e reflexão. Paciência. Não dava para voltar atrás.

A ansiedade não durou muito. Já no dia seguinte começou o projeto Aurora. As duas fêmeas se encaravam com uma leve desconfiança, vendo o início de uma longa corrida mas sem saber quando iam encontrar a reta de chegada. Ou se ela ao menos existia. A rotina era pesada: além de varrer o picadeiro, cuidar da manutenção dos figurinos, ensaiar seu número e participar das apresentações, Natasha ainda encontrava tempo para dedicar a sua nova parceira. Não sabia ao certo o que fazer. Às vezes somente a observava numa espécie de conversa muda, mas cheia de significados e descobertas. Em outras ocasiões, o cansaço a permitia dedicar-se apenas aos cuidados básicos como banho e escovação. O que acabou lhe revelando a aparência original da égua. Sem dúvida, uma bela criatura.

À medida que o tempo passava, mais indefinido ficava o número. A única certeza que crescia era a compreensão de que aquele não era um animal para exibições. Não combinava com adereços e plumas. Tampouco servia de tração para qualquer veículo ou tinha propensão para correr em círculos. Para montá-la era preciso abrir mão de sela, rédeas ou qualquer instrumento de controle. Sua velocidade só poderia ser usufruída por uma pessoa se fosse permitido a Aurora escolher a direção.

Que dilema! Natasha queria transformar-se numa nova atração para o espetáculo, mas sabia que não seria por meio do enquadramento da sua companheira. Tomou a única decisão sensata diante da situação. Numa certa madrugada, abriu a porta da cocheira e libertou a égua. Antes de ganhar a noite, Aurora olhou-a longamente.

Com o sol e os afazeres, veio também a necessidade de encarar o inevitável. Subiu no trailer principal de cabeça baixa e esperou virar picadinho, sentindo uma forte empatia por Judite, a assistente do mágico que era serrada ao meio todas as noites. Deveria ao menos ter perguntado a ela como fazia para juntar os pedaços. Boris escutou o relato e, com um gesto calculado de irritação, disse que ela teria de trabalhar em dobro até conseguir devolver o valor gasto com o animal. Na saída, um olhar furtivo ainda conseguiu flagrar uma leve pressão nos lábios do chefe. Seria aquilo um sorriso?

Natasha não sentia saudade de Aurora. Elas se encontravam, felizes, todos os dias em seus sonhos. �z�fB��

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