Que feministão da porra!

Oi gente, vim aqui cagar umas regras!

Primeiro por motivos de "atire a primeira pedra quem nunca cagou regras", segundo porque sinto que tenho me feito incompreendida pelos seres humanos do sexo masculino que insistem em tomar o lugar de fala das mulheres pra se mostrarem desconstruidões da porra®. Então senti que precisava fazer um textão pra tentar me explicar melhor. E, por favor, se alguém ainda se sentir ofendido ou sentir que eu não me expliquei bem, POR FAVOR, me chame nas mensagens, me liga, me manda um telegrama, uma carta de amor… que eu faço questão de deixar tudo claro como a luz do dia.

Veja bem, pessoal: não tem nada de errado em ser favorável ao movimento feminista, em apoiar a causa, etc. Mas por favor, nunca, nunquinha, nem quando estiverem dormindo tentem se apropriar do lugar de fala de uma mulher. Porque vocês não sabem o que é ser mulher. Assim como eu não sei o que é ser mulher negra, homossexual, trans ou homem homo, hetero ou trans.

Da mesma maneira que eu não sei o que é ser um homem e sofrer os machismos de cada dia na pele de vocês ("homem não chora", "vira homem", "nossa, que roupa de viado" e por aí vai), vocês não sabem e nunca vão saber o que é ser mulher e sair na rua com medo de ser violentada, o que é receber 30% a menos em cargos iguais, o que é ter jornada dupla porque "cuidar dos filhos é obrigação da mãe", o que é não ser promovida/contratada por ser mulher, o que é vivenciar os micro-machismos que estão incrustrados na nossa sociedade e em atitudes que todos nós (mulheres também) temos a cada minuto.

"Ah, mas então eu não posso ser a favor do respeito?". Amigo, você pode ser a favor até do Temer se você quiser (mentira, não pode não). Mas não vá lá tomar o lugar de fala dele quando ele estiver falando sobre o que é ser um senhor de 76 anos casado com uma mulher de 33 anos e que deu um golpe institucional para se apossar da cadeira da presidência da república. Porque você nunca viveu essa situação. Você não sabe o que é ser o Michel Miguel Elias Temer Lulia. Assim como você não sabe o que é ser uma mulher.

É igual ser um peixe, gente. Não dá pra saber como é se não for um. Então eu não posso falar por ele. E quando ele estiver falando, eu deixo ele falar. Eu escuto. Eu não falo por ele. Eu deixo ele ser o protagonista daquele momento, daquela fala, daquele movimento que ele faz reivindicando algo para si, expressando suas lutas.

A Joice Berth, ativista negra, disse uma frase muito boa numa entrevista para o Nexo: lugar de fala é o limite que mostra que, por mais que eu tenha consciência das opressões que não são minhas, as minhas experiências não são suficientes para falar por outros. Se você não dá espaço para as pessoas contarem como é sua vida a partir da experiência de vida delas, a experiência vai ser a do homem branco, que é o privilegiado da sociedade.

O lugar de fala é algo muito caro a quem é oprimido. Porque desde que o mundo é mundo, só se ouvem homens heterossexuais patriarcas falarem alto, se fazerem ser ouvidos. As mulheres nunca foram ouvidas. Outras minorias nunca foram ouvidas. Sempre foram reprimidas. Então, é importante, quando a gente começa a ter um lugar de fala e começa a poder ter voz, que a nossa voz seja ouvida. Que as nossas queixas e lutas sejam expressas através das nossas próprias vozes.

Ninguém está proibindo ninguém de ser a favor do feminismo. Aliás, que bom que temos tantos homens interessados em nos apoiar atualmente! Rodrigo Hilbert, Justin Trudeau e mais um monte de amigo meu no Facebook. Mas pelo amor de qualquer que seja o seu deus, deixe as mulheres falarem. Não se apropriem de movimentos e lugares de fala que não são de vocês.

Entendam a importância que existe em usar nossas próprias vozes para expressar nossas próprias lutas.

A tal da empatia é muito bonita na teoria. Tá na moda falar de empatia, assim como tá na moda falar que é feminista. Pode falar, pode falar. Mas saiba ouvir. Saiba quando você deve apenas calar a boquinha e ouvir — e saiba quando deve falar. Quer se demonstrar a favor do movimento? Aqui vai uma lista com algumas sugestões:

  • repreenda aquele brother que compartilha nudes que recebeu de uma mulher;
  • dê aquela chamada de atenção quando um cara fizer uma piada machista perto de você;
  • morda a língua quando vier aquela vontade de falar "ah, mas tinha que ser mulher" quando alguém fizer algo errado no trânsito;
  • questione seus chefes sobre o motivo de não existirem mais mulheres em cargos de gestão/direção (falar "ah, mas 99% do departamento de atendimento da agência é mulher" não vale, ta? — pq a gente sabe bem que muitos dos donos de agência exigem que essas mulheres sejam bonitas, magras, bem vestidas e por aí vai);
  • divida as tarefas da casa e a responsabilidade na criação dos seus filhos;
  • não interrompa aquela mina que ta dando uma opinião ou dividindo uma ideia durante uma reunião;
  • não fale/pense que "aquela mulher não se dá ao respeito" apenas pela escolha de vocabulário/figurino que ela faz;
  • não chame uma mulher de louca;
  • NUNCA use a frase "é falta de rola" ou "tá de TPM" ao se referir ao humor de uma mulher;
  • NUNCA, nem nessa nem em outras vidas, use o termo FEMINAZI. Nem de brincadeira compare um movimento que luta por igualdade entre os sexos a um dos maiores movimentos de assassinato em massa da humanidade;
  • se uma mulher se sentir ofendida por alguma atitude sua, procure analisar se ela não tem razão antes de iniciar uma discussão para se defender (não tem problema nenhum a gente assumir que erra, viu! #pas);
  • não use a justificativa do José Mayer para justificar um assédio (ou seja, não diga que é brincadeira — assédio nenhum é brincadeira, assédio nenhum tem justificativa);
  • não diga que o mundo está ficando chato — não está — a diferença é que as pessoas que se sentem incomodadas agora exigem ter seu espaço de fala para se mostrarem indignadas com as tais "brincadeiras";
  • ouça as mulheres, principalmente quando o assunto for mulher e tudo que está envolvido no universo feminino;
  • não poste coisas sobre o movimento nas suas redes sociais apenas para ganhar biscoitinho e aplauso;
  • não pague de feministão do cacete, desconstruidão da estrela, porque tudo que você vai parecer é um homem chato da porra;
  • se por acaso você fizer isso, ouça quando uma mulher vier te questionar: ela provavelmente tem alguma razão em se sentir incomodada por você se apropriar de uma causa dela

A lista poderia seguir por kms, mas vou deixar aqui alguns links bacanudos que podem ajudar vocês a nos ajudar:

E sim, eu posso falar sobre isso tudo aí. Porque estou falando sobre opressões que eu, como mulher, sofro. Quando a gente entrar no tema "opressões que a mulher negra sofre" ou "opressões que a mulher sem instrução/de classes pobres sofre", eu me calo e ouço. Assim como me calarei quando entrarmos em temas como "opressões sofridas pelas mulheres e homens trans, por homossexuais, por heterossexuais" e assim por diante.

Combinado então que cada um fala sobre a própria dor e a própria opressão e não toma o lugar de fala do outro? Então tá bom!

Um beijo com amor,

Rita

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