Memórias póstumas de um velho safado.
Hoje eu acordei mais triste do que nunca, essa droga de doença está me matando aos poucos. Tomar esse coquetel de remédios é praticamente puxar o gatilho pra mim mesmo. A enfermeira me odeia, sou ranzinza o bastante pra deixar seu dia uma droga, porque eu gosto de compartilhar esse tédio chamado “minha vida.”
Um dia eu fui feliz, sabe aquele cara que todos riam do que eu dizia ? Pois bem, eu era essa cara, fazia piada com aqueles espertões do meu colégio na época, aqueles viadinhos mereciam uma surra por ser tão certinho, eu simplesmente odiava isso. Lembro que uma vez eu coloquei o pé na frente de um deles, ele escorregou e caiu no chão, nessa brincadeira ele quebrou um dente, todos riram dele e eu me senti exaltado. Ser o cara da galera me davam regalias que os outros caras não tinham, eu tinha “moral” com as gatas do colégio, isso era muito bom, o lembro que uma vez eu peguei 4 na mesma festa, nesta noite eu fiquei tão bêbado que bati o carro do meu pai na traseira de um velho babaca, não lembro muito dele, só lembro que eu quis o encher de porrada. Foi nessa mesma época que eu conheci uma garota, não quero nomear ela, mas ela foi uma montanha-russa em minha vida, tivemos bons e mals momentos, os bons eu destaco a vez que fomos viajar para as praias, você já deve imaginar o que aconteceu por la. Agora os ruins, PUTS! Me da uma tristeza lembrar, quando começamos a namorar era tudo maravilhoso, mas com o tempo eu passei a não ter mais tanta vontade de ter ela, tu acha que eu terminei? Não, fui babaca o bastante para continuar com ela, pior de tudo eu comecei a trair ela, não queria a deixar, porque no fundo de alguma maneira eu gostava dela. Depois de tanta traição a gente terminou, foi difícil pra mim no começo mas nada que a minha frieza não pudesse superar.
Minha vida começou a entrar em declínio com o fim do ensino médio, passei todo o período escolar levando tudo na boa, sem responsabilidades, meu pai me sustentava e isso era bom, mesmo sabendo que um dia isso ia acabar eu deixava pra pensar nisso depois. Até porque eu era popular, eu achava que essa “popularidade” me ajudaria a ter um bom emprego. Não, isso não aconteceu a porra da realidade veio após o término das aulas, pra mim fazer faculdade era piada de mal gosto, eu achava que um emprego bom já iria me estabilizar financeiramente. Nessa época o máximo que eu consegui foi de garçom em um restaurante, a única parte boa desse emprego era ver aquelas loiras gostosas que eu atendia. Logo sai daquela birosca porque o salário era muito ruim, típico de um operário que se contenta com pouco. Minha segunda tentativa foi trabalhar em uma loja de sapatos, cara era um porre trabalhar lá, eu ficava lá o dia todo e ainda tinha que aturar chulé daquelas pessoas que pareciam que não lavavam o pé de propósito. Vida que segue, trabalhei em vários em empregos até chegar no meu estado deplorável que me encontro deste momento, minha família me chamava de “velho safado”, sabem por que ? Porque eu aproveitava a vida sempre que podia, sexo pra mim era imprescindível, loira,morena,ruiva, era o que for, até porque pra mim o que importava era que era mulher e fazia o que eu queria. Mesmo eu tendo que pagar no fim, isso era deprimente. O velho safado aqui nunca teve uma companheira, pra mim esse droga de amor é tudo uma mentirinha pra fazer a gente sofrer, as garotas da minha época de “o cara da galera” ou “The King" que me falavam “eu te amo” eu só pegava e dispensava, você acha mesmo que o velho safado se apaixonaria por uma garota sendo que tinham outras melhores, essa minha escolha me fudeu completamente, talvez por isso eu não tenha casado, meus namoros eram um caos e eu só pensava naquilo. Talvez porque meu pai era mais safado do que eu, até admirava a maneira como ela conquistava as mulheres até a cama, mas eu o odeio até hoje por ter traído minha mãe.
Agora voltamos no ponto inicial, estou no hospital a quase um mês, PQP! Eu odeio com todas as minhas forças esse lugar. Como eu cheguei aqui? Pois bem, sabe aquelas doenças de velho? Sim, é o meu caso. O pior de tudo é não ter ninguém pra compartilhar minhas dores, meu único companheiro de prosa é um faxineiro aqui do hospital que só sabe falar de política, ele tem 35 anos e está mais gagá do que eu. Não sei se vou voltar mais pra “casa”, acho que meu destino é esse morrer na maca de um hospital público ao lado de um cara que passa o dia olhando pra mim como se eu tivesse a cura pra droga da doença dele. Antes de terminar meus devaneios, só queria pedir uma coisa, nada mais. Nem é bem um pedido, mas é quase um conselho. CARA! Não seja a porra de um cuzão, senão você terminar igual eu. Agora eu vou voltar a dormir que essa porra de remédio me dá muito sono e eu preciso dormir pra acordar disposto pra viver uma vida que eu certamente poderia ter feito diferente.
#A.R.
