Tudo que você deveria ser sem medo

A grupo sectário pseudoconservador, protofascista, inteligência-limítrofe autoentitulado MBL, cujo fetichismo sado-masoquista com o conceito de “esquerda” norteia até a escolha do próprio nome (corruptela de MPL — Movimento Passe Livre — à época do surgimento do MBL bastante em evidência, o que ressalta as tendências mitomaníacas e oportunistas dos ditos “direitistas” apartidários) prolifera no vácuo intelectual e moral de uma República sem representatividade, sem legitimidade política, sem instituições verdadeiramente democráticas, sem conceito social de dignidade, enfim, sem o sufixo publica da res-publica.

A torpe ascensão do MBL, assim como das "bancadas" da bíblia, da bala e do boi>índio, na verdade é apenas mais um capítulo na interminável sopa de letrinhas de movimentos sectários que poluem indistintamente todo o espectro político brasileiro. A influência exercida por esses grupos beligerantes, eternos arautos da ignorância política, é um fenômeno análogo à tomada das funções do Estado pelas organizações criminosas nas áreas onde não há organização social e governamental efetiva — “já que só tem tu, vai tu mesmo“ — quem gritar mais alto e prometer mais ilusões ganha o povo e o poder. Mas nesse caso em particular, a êmese de violência gratuita vem uma camada adicional de perversão, como que um grito dos excluídos virado pelo avesso, um urro bovino de desespero dado por aqueles que sem dúvida já estão inclusos, mas esperneiam e estrebucham ao mínimo sinal de uma oscilação no status quo — pressuposto perfeitamente natural no contexto de um estado democrático de direito.

Manipulam e intimidam sistematicamente no melhor estilo da dinastia narcisista patológica militaróide da família Bolsolini, ou Mussonaro, como preferirem, evolução atualizada mas não menos patética do finado integralismo: aguardo ansiosamente para conhecer as estilosas fardas e o remake do “anauê”, certamente em processo minucioso de elaboração por essas (de)mentes de sofisticação invejável, a fim de tentar dar um fiapo de coesão que seja a um grupo de pessoas tão desorientadas no espaço/tempo histórico e em tão delirante negação da realidade que daqui a pouco lançarão um boicote à igualitária-portanto-de-esquerda Lei da Gravidade (claramente um projeto doutrinário petista) e acusarão Adam Smith de ser comunista por defender que as pessoas deveriam no mínimo ter direito de aprender a ler, a escrever e a fazer contas.

Obviamente, esse projeto de conversão/oligofrenização em massa possui um objetivo, o qual não visa o benefício de absolutamente ninguém, exceto àqueles por trás das cortinas da tosca tragicomédia, dando continuidade às práticas supostamente esquerdistas, direitistas e centristas em vigor desde que nosso querido Brasil deixou de ser território para virar país. País que n’est pas serieux mas ao mesmo tempo não é para amadores. Onde, como afirmou o sábio Tim Maia, “pobre é de direita e puta se apaixona pelo cliente”, onde o positivismo científico virou religião (o Brasil é o único país onde ainda existem Igrejas Positivistas) e onde escolher a bunda mais bonita do carnaval é um processo mais socialmente relevante, além de institucionalmente confiável e transparente, do que votar para os membros do parlamento.

Difícil encontrar um tijolinho de coerência nesse mar de lama burra e raivosa, vorazmente amplificada e normalizada pelas mídias oficiais e oficiosas, até cobrir nossos olhos, narinas, bocas e orelhas, soterrando o fato frio e iniludível de que, especialmente no momento em que vivemos, a única certeza é que não existem certezas.

Mas o que fazer? Ficar em casa criando raízes entre o sofá e a Netflix? Apostando com um sorriso sardônico no bolão de quem será o próximo sociopata engravatado a cair de quatro ao sentir as presas da Lava Jato nos calcanhares? Sentar sozinho entre livros, cigarros, vinhos ou cerveja e apenas pensar sobre tudo isso? Como sublimemente canta outro gênio tupiniquim, Milton Bituca Nascimento: não importa, não faz mal, você ainda pensa e é melhor do que nada. E aí? Você ao menos ainda pensa? Você é tudo que consegue ser? Ou nada?

Perdoem-me o excesso logorreico do desabafo. Não é em tom de convencimento ou argumentação que o expeli. Meramente entrei em uma erupção espontânea de cutucadas e provocações. De preferência, deixem-me pra lá, com minha bile negra e meu sarcasmo. Mas por favor, já que estão aqui, terminem de ler e deglutam o poema abaixo. Quem sabe nos surgirá em todos um mesmo pensamento, um sentimento ressonante, um achar ou querer ou poder compartilhado. Pois seja lá o que for, não será só meu ou seu, nosso ou deles: apenas será. E é melhor do que nada.

"Pusher"

Cautela com quem busca discípulos.

O missionário,

o iniciador,

todos os proselitistas,

todos que clamam ter descoberto

o caminho do céu.

Pois o som de suas palavras

é o silêncio de sua dúvida.

A alegoria da conversão

sustenta-o através de sua incerteza.

Persuadindo você, eles lutam

para persuadirem a si mesmos.

Eles precisam de você

tanto quanto dizem que você precisa deles:

há uma simetria que não mencionam

no sermão

ou no encontro,

perto da porta secreta.

E suspeitando de cada um deles,

cuide-se também destas palavras,

pois eu, dissuadindo você,

obtenho nova evidência

de que não há atalho,

não existe caminho,

nem destino.

— Peter Goblen