A nostalgia do avesso

Vocês estão entendendo tudo errado.
Não é que as coisas eram mais simples.
É que a gente tinha tantas certezas… A gente sabia que o Brasil era o país do futuro, bastava esperar. Sabia que a direita era ruim, a esquerda era boa, que éramos a pátria do futebol. Sabíamos que Volks fazia carro bom, e a Fiat ruim. Sabíamos que os artistas estavam do nosso lado. A gente sabia que era só ter paciência e esperança. Nossa vez ia chegar.
Não é que éramos mais bonitos.
É que tínhamos menos distrações. Ninguém tinha aparelhos grudados no nariz dentro do ônibus, nas filas de supermercado ou com até no restaurante. Não tinham TVs dentro dos consultórios, do metrô ou dos elevadores. Ou olhávamos para a cidade, ou uns para os outros. Isso nos obrigava reparar mais em nosso redor. Talvez, de tanto tempo que passamos percebendo nossos arredores, é que o passado nos pareça tão vívido.
Não é que as músicas eram melhores.
É que dentro de nossas fitas cassete só cabiam umas 15 músicas. Então a gente escolhia muito o que ia colocar lá dentro. E como dentro dos porta-luvas dos carros cabia no máximo uma meia dúzia de fitas, a gente ouvia música boa o tempo todo. Além disso, os discos eram grandes, caros e davam trabalho para limpar. Ninguém comprava, ou colocava um na vitrola, a não ser que valesse muito a pena.
Não é que a comida tinha mais sabor.
É que antes da gente gourmetizar tudo, a macarronada com carne moída da Tia Maria no domingo era o ápice da cozinha internacional. E na mesa, a gente falava alto e se servia à vontade. Ninguém se preocupava se a receita era a mesma do mês passado, nem se ela tinha saído de um reality show de algum chef celebridade. O sabor da comida vinha misturado com o prazer do contato com as pessoas. Difícil algum restaurante conseguir reproduzir isso em algum prato, por mais caro que seja.
Não é que a gente gostasse mais das pessoas.
É que nossas conversas terminavam. Fosse pessoalmente, via telefone ou carta, existia a hora de finalizar. De por o fone no gancho, de botar o ponto final, de dar um beijo de boa noite, de levar até o ônibus. Era preciso achar uma conclusão. A gente dava tchau, entrava num carro, passava anos sem se ver. A gente vivia com medo desse momento de ruptura chegar, então aproveitava enquanto podia. Era normal sentir saudades . Hoje nossas conversas se estendem num looping infinito de assuntos, e nós achamos que sentimos menos falta das pessoas porque as vemos diariamente nos avatares das redes sociais.
Não é que havia mais tempo.
O que havia era menos para fazer. Tínhamos tão pouca opção, que voltávamos mais cedo para casa. E se cedo estávamos lá, não tinha nada que prestasse na TV. E se tinha alguma coisa, sempre vinha com comercial. E como não havia controle remoto, pelo menos durante os anúncios, a gente percebia que tinha mais gente na sala. As TV’s inclusive, eram pesadas, tinham telas pequenas, pegavam mal e tinham cores todas erradas. Em comparação, a realidade nos parecia em 4k.
As pilhas acabavam rápido, os videos precisavam rebobinar, as pipocas eram feitas numa panela, os livros não se abriam nas páginas que tínhamos parado. Tudo que nos tomava tempo, nos dava minutos que não estavam comprometidos.
Sem smartphone, sem multiplexes, sem TVs interativas, sem mega stores, sem email, sem torpedo, sem Netflix. Tudo isso que hoje nos define. Tudo que a gente ama tanto. Sem tudo isso pra amar, a gente tinha amor sobrando. E então olhávamos, sentíamos, abraçávamos, saíamos, caíamos, nos arriscávamos pelo mundo. E a vida tinha acabava tendo um sabor diferente.
A nostalgia não ajuda em nada. E ninguém quer abrir mão dessas coisas inventadas nos últimos tempos, nem eu. Mas a beleza do passado é saber que ele é real. Ainda que, num tipo de efeito Benjamin Button, quanto mais passa o tempo, mais bonito ele fique, não é uma conjuntura. O que passou, ficou lá, disponível para consulta, e muito útil para corrigir o futuro.