A pior tragédia.

foto de Milada Vigerova

Estou aqui pensando se a notícia mais importante da vez é o rompimento da barragem sobre o distrito de Bento Rodrigues. O assunto é uma tragédia de todos os lados.

Tragédia humana porque arrasou toda uma comunidade, matou gente, animais, roças.

Econômica e social porque não só não há mais comércio na região como não haverá mais. A lama cobriu quem compra e quem vende. Quem produz e quem consome.

Ambiental porque matou um dos mais importantes rios do país e segue colocando tudo em cheque à medida que a lama lentamente escorre de Minas ao Espírito Santo até desaguar no oceano, onde vai causar danos de proporções ainda não totalmente divisadas.

Política porque nenhum dos dirigentes do país soube ou sabe como proceder. Não se ouviu uma voz com a medida certa de indignação na esfera federal, nem estadual (quando muito, na municipal), nem no governo, nem na oposição. Nem de candidatos que fazem da causa ambiental sua principal bandeira ouviu-se uma declaração realmente contundente.

Por fim é uma tragédia institucional, porque mostra que não temos em quem confiar. Quem terá autoridade para dizer que a água estará boa para ser bebida? Quem confiará primeiro? Em quem? Alguém em sã consciência colocará a vida dos filhos na berlinda quando o barro descer?

Mas talvez a pior tragédia sejam os ataques terroristas na França. E que toma os notíciários do mundo todo. Mobiliza países e líderes de um lado a outro. É a tragédia daqueles que saíram para a balada numa cidade turística e terminaram a noite dentro de um caixão. Gente que não estava na rua por ser muçulmana ou cristã, americana ou francesa, imigrante ou nativa. Gente que não se alistou nem achava que estava numa guerra. Gente que virou mártir de bandeiras que não levantavam.

Sinto que essa tragédia gera tanta comoção porque é aquela que menos entendemos. O vazamento da lama é fruto das boas e velhas ganância, preguiça, corrupção. O velho sentimento tão nacional de empurrar um pouquinho pra frente uma inspeção, fazer as coisas meio nas coxas, esticar o lucro um tantinho mais, porque nunca acontece nada. E quando se pisca o olho, é a lama que desce, é a boate que pega fogo, é presidente da câmara que tem conta na Suíça e não arreda pé. São nossas tragédias diárias.

Já a tragédia francesa é daquelas que se olha por 200 prismas, e não se vê solução. É daquelas que, quem diz que já entendeu é porque não sabe nada.

A grande tragédia então seriam os 136 brasileiros que são assassinados todos os dias aqui, sem Estado Islâmico, sem invasão do oriente médio, sem imigrantes Sírios. Sem causa. Uma Paris, 13 de setembro, todo santo dia.

Ou talvez os 147 que morreram no Quênia, vítimas do mesmo fundamentalismo que atacou a França. Ou as centenas de mulheres que sobrem violência diariamente, só por serem mulheres. Ou os jovens e crianças acampados na porta de suas escolas, brigando pelo direito mais louvável do mundo: estudar. Que aguardam e temem que o governador volte a mostrar sua face truculenta e autoritária.

Eu não sei, honestamente, qual a pior tragédia.

Eu sei que tentar atuar como polícia de desgraça num momento desses é tudo que a gente não precisa. Nos momentos em que se tem a impressão de que o mundo não vai bem é quando mais precisamos de gente pensando. É só tendo consciência dos erros que a gente encontra soluções. É só se incomodando que a gente sai da zona de conforto. É só de mão dadas que a gente forma uma barreira capaz segurar essa lama toda.

A pior tragédia é ficar com os olhos secos, medindo o tamanho das lágrimas alheias.