Como ser odiado em um dia


Na noite de sábado, de bobeira na internet, resolvi escrever um texto sobre impressões que venho tendo enquanto a molecada tem crises de ansiedade ao ver Han Solo no último trailer de Star Wars. Esse aqui.
Nem é um grande texto. Por isso, nem mesmo compartilhá-lo no Facebook eu fiz. Foi mais para brincar um pouco com essa sensação de envelhecer. Foi sim, um texto nostálgico, em que eu lembrava que ser nerd nem sempre foi tão fácil. Usei um tom meio rabugento, de propósito, fazendo o nerd velho (coisa que o Angeli faz melhor e a bem mais tempo que eu, quando faz tiras do Velho Cartunista). Escolhi um título provocativo, mas hei, quem não tenta provocar um pouco.
É um texto sobre minha relação com a franquia. Brinquei dizendo que nerds velhos deveriam ter prioridade. É uma ideia absurda, lógico. Só queria pontuar, que ter estado lá, no início dos acontecimentos, teve um sabor diferente. Achei que teria 15 visualizações, e 2 comentários do tipo: “Porra, tio, era muito chato, prefiro hoje.”
Um amigo meu se identificou com o texto: e pronto. Soltaram o Kraken sobre mim. O texto viralizou, e neste momento, vários bonecos vudu meus devem estar espetados sobre fogueiras mundo afora.
Confesso, fui pego de surpresa. Não sou nenhum novato na internet. E já vi como haters conseguem ser agressivos em seus comentários lendo gente como o André Forastieri, o Jabor, a Tati Bernardes, que lidam direto, e muito melhor do que eu, com esse tipo de acontecimento. Mas até a gente sentir a fúria de uma horda te odiando porque bem, você errou a frase que o Darth Vader fala pro Luke em Império, não consegue conceber o quanto isso realmente incomoda.
Os comentários mais brandos dizem que eu sou um velho babaca, um recalcado, um nazista que quer coibir o prazer dos outros. Que sou um analfabeto em Star Wars, que sou uma nova categoria de otário. Engraçado que, apesar da brincadeira, não citei ninguém em particular, e nem pensei em ninguém em particular.
Não vou dizer que entendo o prazer nítido que as pessoas têm em deixar um comentário maldoso. É notória a satisfação na agressão. Se era a intenção, parabéns. Não sou feito de pano, portanto posso dizer que os comentários machucam sim, fazem você duvidar de tudo. Comecei a responder à algumas agressões. Depois larguei mão. Vamos aos fatos:
- Não, eu não acho que deveria haver uma fila para nerd velho. Isso foi uma figura de linguagem
- Não eu não me acho o nerd mais foda de todos os tempos. Aliás, sou bem contido. Quem me conhece sabe que não tenho bonecos, camisetas, revistas e não li os livros. Eu apenas gosto dos filmes. Aliás, gosto de FILMES no geral. Star Wars é especial por ter me feito gostar de cinema. Mas não creio que seja o ápice de todo cinema da história. Portanto, se vocês querem o bottom “Maior nerd da história” , ele é todo seu.
- Não, eu não escrevi o texto porque não consegui comprar o ingresso da pré-estreia. Eu não quis comprar mesmo. Quero aproveitar uma sessão mais vazia, é como gosto mais.
- Não, eu não acho que as gerações novas não possam ser fãs. Muito pelo contrário. Se pensasse assim, não assistiria diversas vezes os filmes junto com meu filho adolescente. Como eu disse no texto, nerdice é muito melhor hoje, que tem pra todos.
- Não, eu não sou um sujeito amargo nem mimado (esse xingamento, inclusive, deve causar risos a quem me conhece de verdade). Sou bem pelo contrário, um sujeito bem tranquilo. Tanto é que é minha primeira peleja na internet.
Mas por outro lado, os comentários me deixam cheio de aprendizados. Coisas que descobri na enxurrada de comentários:
a) Você pode falar de política, de comportamento, da apatia dos jovens enquanto o país em que eles vivem pega fogo. Mas não de suas paixões pop. Isso é gravíssimo, punido com a morte.
b) Não seja velho (isso já tinha visto o Chico Buarque falar). Ser velho é o pior pecado que alguém pode cometer na internet. Ninguém quer você aqui, suma.
c) Discordar de alguém na internet significa agressão. Recebi poucos e muito distintos comentários educados discordando de mim. Para esses, tentei explicar minha intenção, e acho que ninguém seguiu me odiando. Mas no geral, não existe cortesia. A net é terra de ninguém. Qualquer comentário começa com “ridículo, idiota, imbecil etc.”. É uma pena. Cinema, enquanto arte, deveria funcionar para as pessoas pensarem. E como é entretenimento, está sujeito a opiniões pessoais. Argumentar com alguém xingando-o, diminuindo, intimidando, especialmente entre grupos que veneram obras de arte, me entristece muito.
d) Opinião, essa danada… esteja livre para tê-las, desde que eu concorde com ela. Senão, lighsaber na sua cabeça.
Por último, quero dizer que não sou adorador de nada, muito menos de franquia cinematográfica. Adoro Star Wars, mas idolatria é justamente o que me afasta das religiões. É o ato de colocar algo, o que quer que seja, acima do bem e do mal. Algo que fica tão sagrado que merece que eu despeje minha fúria com quem mexe com ele. Nada dentro do mundo do entretenimento tem tanta importância assim para mim.
Talvez esse post gere mais uma renca de comentários me odiando. Beleza. Faz parte.