Meus preconceitos impublicáveis

Tem coisas que a gente passa a vida sentindo, mas raramente confessa a alguém. No máximo aquele grande amigo, na mesa de algum bar, falando bem baixo pra ninguém ouvir e te interpretar mal. Todo mundo tem um preconceito, uma pinta num lugar estranho, um vício secreto.

Vou logo confessar o meu: eu (pré)julgo pessoas por determinados atos delas. Vou fazer o que, gente. Acontece. É mais forte que eu.

Ontem, na academia (e que lugar é melhor pra isso?), eu topei com um sujeito que ostenta uma dessas atitudes que eu detesto, e quer saber? Eu acho que tem mais gente aí que compartilha dessas minhas opiniões, e resolvi abrir para todos me julgarem…

Talvez eu seja apenas meio fresco, mas tem certas atitudes que incitam o preconceito. Bom, primeiro temos que pontuar o que é de verdade, um preconceito.

Preconceito é uma ideia que você faz de algo antes de conhecer esse algo. E pensando dessa forma, nem todo preconceito é ruim. Você pode ter uma imagem extremamente positiva de alguém, e quando realmente o conhece, percebe que ele não vale nada. Seu preconceito era melhor do que a realidade.

Não é o caso aqui. Percebi que pequenos gestos me deixam com uma má vontade quase insuperável com determinadas pessoas. Por mais que elas se esforcem, aquele comichão vai voltar a mim cada vez que elas repetirem aqueles gestos. Não é nada demais. Mas alguns são totalmente irritantes. Outros, simplesmente desconfiáveis…

Mas eu sempre digo: o primeiro passo pra vencer um problema é admitir que você o tem. Hora de confessar. Se você se encaixar em alguma das modalidades abaixo, releve. Se continuamos a nos falar, pode ser que você já tenha desfeito esse meu preconceito. Ou pode ser que eu esteja fingindo, vai saber.

  • Não confio em quem me aperta a mão de forma frouxa: Sabe quando você está com toda boa vontade ao conhecer uma pessoa, ela estende a mão, e parece que você está apertando um pacote de manteiga deixada ao sol? Pois é. Meu nível de boa vontade com a pessoa vai de 10 a menos três em menos de 1 segundo. Pode ser homem ou mulher. Um aperto de mão firme mostra presença, interesse, personalidade. Quando faço pressão naquela mão-meleca, me parece que a pessoa está com o saco tão cheio de estar ali, que não trouxe nem a força de casa. É terrível.
  • Tenho sérios problemas com que não olha nos olhos: Esse foi o problema do sujeito na academia. Ele repete a mesma rotina todos os dias. Aparece todo sorrisos, estende a mão para dizer “opa, e aí?”, e bem na hora do contato, desvia o olhar para outro lugar, além de mim. Pode não ser nada. Mas o que eu penso é que ela não está nem aí para minha pessoa, ou que tem medo que eu descubra algo sobre ele só de olhar em seus olhos. E essa primeira impressão é dura de ser revista.
  • Não entendo quem não tem um lado ruim: Isso parece (na verdade não parece, é exatamente) uma frase do Tony Stark para o Steve Rogers, mas eu já pensava isso antes. Gente tão boa, tão fofinha, tão certinha, tão ursinho carinhoso, em vidas em que tudo dá certo, não tem um amarrotado na roupa e está sempre de bom humor me deixam com todas as pulgas atrás da orelha de prontidão. Claro que tudo pode ser uma mera impressão da minha parte, mas eu sempre fico pensando se não tem um cadáver apodrecendo no porão desse povo. Ou um quarto secreto pintado de preto, com brinquedos medievais e consolos de 52 cm.
  • Não sei como algumas pessoas conseguem não ter um hobby: Todo mundo tem alguma coisa que gosta de fazer à toa. Algo que não está inserido no binômio trabalho/ família. Que agrada única e exclusivamente a si próprio. Eu tenho vários. Quadrinhos/ Livros/ Filmes/ Música e tome uma pá de etcs. Alguma coisa deve ser sagrado pra pessoa. Seja tricô, coleção de pedra, sacanagem oriental ou se vestir de pelúcia, sei lá. Mas daí eu conheço algumas pessoas que dizem que não gostam de nada. Você pergunta: você viu isso? Fez isso? Sabe aquilo? E a pessoa fica só no “ah, eu não vi, não gosto, não tenho tempo”. Eu hein, eu fico meio com pena dessas. Viver tem que ser algo mais complexo. Eu me ferro todo e acordo cheio de sono só pra poder ver um filme que me intrigou, ou terminar um capítulo de um livro, ou fazer um desenho que ninguém me pediu. Queria ter mais tempo, não pra trabalhar mais, mas pra me dedicar mais a esses prazeres do ócio.
  • Não tenho saco pra quem só conta problema: Millôr Fernandes dizia que o chato era alguém que você pergunta “Como vai?”, e ele responde. Ter um amigo em que você confia, e que pode entender seus problemas e te dar uma opinião sincera faz toda a diferença. Eu me orgulho de ter alguns amigos assim, e de poder ser este amigo para outros. Mas tem gente que só sabe falar de problema. Você acorda de bem com a vida, com a chama do otimismo brilhando nos olhos, com a águia da atitude positiva pousada nos ombros, encontra a pessoa, e em meia hora o brilho virou uma lâmpada de 30 watts queimada, e a águia um urubu cagando nas suas costas. Tem pessoas que conseguem sugar a vitalidade de qualquer um, que conseguem fazer os Backyardigans dançarem marcha fúnebre. Claro que a depressão é uma doença terrível, mas minha experiência diz que geralmente você precisa arrancar à força confissões de um depressivo. Já para um pessimista contumaz, basta um telefonema. Um WhatsApp. Você baixa a guarda um minuto, e acaba ouvindo horas de doença, gente que morreu, problema de família e comida que queimou. É um inferno.

Esses são somente aqueles que eu me lembro de bate-pronto. Claro que tem muitos mais. Provavelmente você, leitor, tem os seus também. Eu achei muito terapêutico por pra fora, confessar meus preconceitos. Assim, se eu for descortês com alguém, a pessoa já vai saber porque, e portanto, não será preconceito. Vai ser conceito mesmo.

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