Mais um — ou Woman in the Sun, de Edward Hopper

A Woman in the Sun, 1961 by Edward Hopper

Ela pensou: “ mais um”.

Tudo o que conseguia passar por sua cabeça era esse pensamento. “Mais um”. Mais um o que? Ela não sabia.

Ela se levanta. Pega o isqueiro. Olha atentamente para o seu cigarro e se pergunta se o mais um se refere ao cigarro. Provavelmente não. Deveria parar de fumar, mas ela se importava muito pouco com o próprio bem estar para fazer esse esforço. Acende o cigarro e deixa o isqueiro aceso mais tempo que o necessário. Queima o dedo, apenas para sentir alguma coisa.

Seu isqueiro bate no livro abandonado no canto da mesa de cabeceira. Tira o lençol de cima de seu corpo, senta na beirada da cama, apoia a cabeça nas mãos e tenta pensar de novo o que aquele “mais um” flutuando em sua mente significava. O relógio aponta as horas, mas ela prefere não saber. Junta toda sua coragem e levanta de sua cama. Sua coragem esgotada não é suficiente para que ela se vista. A cortina balança com o vento da janela aberta. Espia a cama desarrumada com o canto dos olhos. Pensa que deveria vestir algo, mas só consegue olhar através da janela e pensar “mais um”. Nem as cinzas do cigarro caindo em seus pés descalços fazem com que ela mude de posição.

“O tempo está mudando lá fora, mas aqui dentro continua a mesma coisa. Se alguém me olhasse agora, veria somente meu corpo desnudo banhado pela luz do sol, mas não seria capaz de enxergar exatamente o que estou sentindo. Eu não enxergaria. Nem eu entendo. ‘Mais um’. O que isso significa?”

O cigarro continua queimando. Ela olha pela janela. As cortinas balançam. O sol brilha. Uma porta se abre. Provavelmente a do banheiro. Provavelmente não, ela tem certeza que é a do banheiro. Passos se aproximando, passos que querem passar despercebidos. Passos entram no quarto e hesitam por vê-la de pé. “Pode ir” ela diz. Ele pega as roupas e sai, sem se despedir, sem agradecer, sem se referir a ela.

Mais um. Mais um dia, mais um cara, mais um desencanto. Mais um dissabor em uma vida já insossa o suficiente.

Quando a porta abre e fecha ao longe, dessa vez ela sabendo que é a porta de entrada/saída do apartamento, ela finalmente respira fundo, se move, arruma os sapatos que estavam caídos sob a cama. Pensa em vestir uma roupa, mas decide que mais um cigarro talvez faça bem. Procura o isqueiro, acende o último cigarro e volta a contemplar a janela, já que a experiência já garantiu que ela acenda o cigarro sem olhar. O tempo está mudando, pensa ela de novo, mas parece que agora o sol não está incomodando-a, agora parece que ela vê seu corpo desnudo banhado pelo sol como uma cena linda. Seus quadros na parede só parecem melhores, até o cigarro parece ter um gosto ruim melhor. Ela até tem vontade de fazer um café.

A porta se abre e se fecha ao longe.

Confusa ela se vira para a porta e a frase retorna a sua mente, agora em forma de pergunta:

“Mais um?”


[Eu resolvi pegar imagens (quadros e fotos) e criar uma história a partir do que eu sentir. Estou começando através da obra do Edward Hopper, porque os temas principais dele são a solidão no mundo moderno e a melancolia da condição humana. Esse quadro não é o meu favorito dele, mas foi um que me chamo atenção para começar]