Síndrome

Rodrigo Bueno
Aug 28, 2017 · 3 min read

O quadro parece me observar, como se o olhar me seguisse. Talvez seja só paranoia, mas eu não consigo parar de olhar para o quadro. Os olhos parecem me julgar, indagar o porquê de eu estar aqui. Um olhar com pena e desdém para essa pessoa que acredita ter tanto potencial, que desperdiça a vida querendo ajudar pessoas que não merecem. Pessoas que não querem ser ajudadas. Pessoas cujo valor se resume a massa de trabalho, e às vezes nem isso.

O julgamento pesa sobre meus ombros, parece que vai me derrubar a qualquer momento. O olhar me paralisa no assento, preciso levantar, mas não consigo. Pelo menos a cadeira é confortável.

Por que estou aqui? Por que saí de casa hoje? O que espero alcançar? Que bem pode sair desse compromisso? Parece que tudo o que eu faço está destinado ao fracasso, à derrota. Agora estou aqui ouvindo as batidas do relógio, esperando o tempo passar e torcendo para que a energia acabe, ou algo do tipo.

Não, eu sei por que estou aqui. Eu sei o que preciso fazer. Mas por que preciso fazer? Do que vai adiantar todo o esforço? Parece que estou sempre nadando e morrendo na praia. Estaria eu cego para a realidade? Para o mundo? Essa esperança que eu sinto me leva para frente ou me faz andar em círculos? Será que estou louco?

A melhor coisa a se fazer seria deitar aqui mesmo, no chão talvez, me esconder, fugir. Desaparecer por um tempo. Pensar na vida. Mas não adianta, o tempo continua passando. Logo virão me buscar. Logo será a minha vez. Logo eu terei que enfrentar o meu destino.

Eu não posso ir lá fora, mas tenho que ir lá fora. Eu não estou capacitado o suficiente. Agora eu não consigo nem lembrar as coisas básicas que eu precisava falar, deveria ter estudado mais. Vai ser um massacre. Vão me destruir, vão me desmascarar, vão perceber quem eu sou.

Por que é que me disseram que eu podia fazer isso? Quem é que me disse que eu era capaz? Eu não consigo. Talvez ainda dê tempo de fugir. Tem uma janela que eu consigo alcançar. Não, nem isso eu vou conseguir fazer. Posso dizer que eu não estou me sentindo bem. Será que consigo fingir que vou desmaiar? Não, vai ser ainda mais feio se eu desmaiar. A vergonha é o que mais me assusta, por que sei que as risadas serão justificadas.

Eu posso ser uma farsa, mas a culpa não é só minha, as pessoas me deram a oportunidade. Como eles são idiotas, não veem minha ignorância? Eu devo ser um ótimo mentiroso. Eu não sou capaz, mas as pessoas parecem acreditar que eu sou. A verdade é que eu vou simplesmente me queimar se eu for lá fora. Mas tem muita gente me esperando, eu não posso decepcioná-los. Mas se eu sair eles perceberão que eu sou sim uma decepção, ficará claro que eu não mereço estar aqui, será obvio para todos que foi erro me chamarem. Será que eu corro risco de ser preso? Que bobagem, estupidez não é crime, mas se fosse poderia ter sido evitado que eu enganasse todos que esperam algo de útil de mim. Consigo ouvir as vozes dizendo: “Que perda de tempo” “Quem é esse cara?” “Porque você não vai embora?” “Quem chamou esse idiota?” “Você não sabe nada”.

Ouço uma batida na porta, fato surpreendente porque parecia que só era possível ouvir as batidas do meu coração acelerado.

“Está na hora na hora, professor”.

Sigo a mulher que me chamou. Paro na entrada do campo de batalha comumente chamado de palco. Ouço a apresentação que fazem do orador da noite. Todas essas qualificações listadas são mesmo minhas? Seria eu tão inteligente quanto eles acham? Será que eles não se enganaram de convidado? Bom, agora não tem volta. Ouço os aplausos enquanto caminho pelo palco com um sorriso falso. Ao chegar ao microfone, todo o nervosismo passa:

“Muito boa noite, hoje vamos falar sobre a síndrome do impostor, e como ela é mais comum do que parece”.

)

Rodrigo Bueno

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Um cara que pensa que escreve

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