A fluidez de gênero de Krazy Kat
Como um autor negro que viveu a vida inteira se passando como branco criou um personagem com uma identidade fluída e ambígua no início do século XX

Este artigo é uma tradução do original “The gender fluidity of Krazy Kat”, de autoria da escritora Gabrielle Bellot, publicado em 19 de janeiro de 2017, na revista The New Yorker. O que segue é uma tradução livre do texto original com o único propósito de divulgação para o público brasileiro. Todos os direitos são reservados à revista The New Yorker.
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Por Gabrielle Bellot
“Krazy Kat”, a exuberante e idiossincrática tirinha de George Herriman publicada em jornais nunca foi amplamente popular. Desde seu início, contudo, teve entre seus fãs escritores e artistas. o escritor inglês P.G. Wodehouse a comparou ao “Parsifal”, de Wagner; Jack Kerouac mais tarde citou-a como influência à geração beat. A tirinha foi publicada de 1913 a 1944, ano de morte de Herriman. Suas histórias se passam em um lugar quase onírico chamado Coconino County, onde um gato preto chamado Krazy vive uma paixão por um rato branco chamado Ignatz, que constantemente joga tijolos em sua direção. O gato, em contrapartida, interpreta os tijolos como “cartas de amor”. Enquanto isso, um cão policial chamado Offisa Pup tenta proteger Krazy, por quem também é apaixonado. A estrutura da tirinha foi construída sobre inversões: um gato ama um rato, um cão protege um felino e, em uma época em que a legislação antimiscigenação estava em vigor em grande parte dos Estados Unidos, um animal negro deseja um animal branco.
Este último detalhe teve uma repercussão adicional em 1971, quando o professor Arthur Asa Berger trouxe à tona a certidão de nascimento de George Herriman. O documento descrevia sua raça como “de cor”, conforme revelou Berger, para a surpresa de muitos leitores da tirinha (entre eles o escritor e crítico Ralph Ellison). Herriman nasceu em New Orleans em 1880, em uma família miscigenada. Seu bisavô, Stephen Herriman, foi um novaiorquino branco que teve filhos com uma “mulher livre de cor”, Justine Olivier: em um acordo social bastante comum na época conhecido em New Orleans como plaçage. George Herriman fazia parte da classe de cidadãos da Louisiana conhecidos como blanc fo’cé: negros de origem Creole que ativamente tentavam se passar por brancos (negros de mesma origem que poderiam se passar por brancos, mas não queriam ou tentavam eram chamados de passé blanc). Durante sua vida adulta, Herriman frequentemente escondeu seu cabelo crespo sob um chapéu e inventou histórias fantasiosas sobre sua origem que atribuíam sua pele morena clara a anos vivendo sob o sol da Grécia. Às vezes ele afirmava que seus antepassados eram franceses ou irlandeses — qualquer coisa que pudesse despertar dúvida sobre suas origens.
Nos anos seguintes à descoberta de Berger, grupos de escritores tentaram lidar com esse aspecto da obra de Herriman. “Na página de quadrinhos — não menos do que na vida social — a oposição entre brancos e negros pode ser redefinida, mas não abolida”, escreveu o jornalista e pesquisador de quadrinhos Jeet Heer. Conforme aponta uma nova biografia chamada Krazy escrita por Michael Tisserand, Herriman poderia ter perdido seu emprego de cartunista caso fosse exposto publicamente como negro. Quando trabalhou na equipe de arte do Los Angeles Examiner, o jornal publicou diversos artigos sobre negros de pele clara que tentaram se passar por brancos e foram consequentemente expostos. Mas Krazy também ajuda a expandir o significado das subversões de identidade propostas pelo quadrinho além do campo da raça. Em uma época em que livros contendo homossexualidade e não-conformidade de gênero poderia levar à denúncias por obscenidade, “Krazy Kat”, como observa Tisserand, tem um protagonista que muda de gênero constantemente e é apaixonado por um personagem masculino.
O gênero de Krazy, para a consternação de muitos leitores, nunca foi estável. Herriman trocava os pronomes utilizados para se referir ao gato com frequência, às vezes dentro de um mesmo quadrinho. Em uma tirinha de 1921, Krazy muda de gênero quatro vezes em uma única frase. Quando Krazy é retratado pelo gênero masculino, o quadrinho se torna a história de um personagem masculino abertamente desejando outro — em algumas cenas tocantes, os personagens até se aconchegam juntos para dormir. Por toda sua perseguição e punição à Krazy, Ignatz no fundo parece ter uma simpatia pelo gato; quando Krazy beija Ignatz enquanto ele dorme em uma das tirinhas, os sonhos do rato (visíveis para o leitor) são preenchidos por pequenos cupidos e corações. Em duas tirinhas de 1915, Krazy se pergunta em voz alta se deveria finalmente tomar para si uma “esposa ou esposo”. Em uma tirinha de 1922, uma coruja tenta descobrir o gênero de Krazy batendo na porta de sua casa e perguntando pelo senhor ou senhora da casa — até descobrir, eventualmente, que Krazy responde pelos dois títulos. Ao fim do diálogo, Krazy charmosamente identifica a si mesmo simplesmente como “eu”.
Alguns fãs de “Krazy Kat” ficam perplexos por tudo isso. Em sua autobiografia, o diretor Frank Capra descreve uma conversa que teve com Herriman sobre o assunto. “Perguntei a ele se Krazy Kat era um ‘ele’ ou uma ‘ela’, ele escreve. Herriman, diz Capra, acendeu seu cachimbo antes de responder. “Eu recebo dezenas de cartas me fazendo a mesma pergunta”, Herriman contou a Capra. “Eu não sei. Eu brinquei com isso uma vez; comecei a pensar que Kat é uma garota — até desenhei algumas tirinhas com ela estando grávida. Mas ela não era mais Kat; muito preocupada com seus próprios problemas — isso se tornou uma novela. Então eu me dei conta de que Krazy era algo como um querubim ou um elfo”, ele continuou, de acordo com Capra. “Eles não fazem sexo. Então Kat não pode ser um ‘ele’ ou ‘ela’. Kat é um espírito, um duende, livre para fazer o que quiser com quem quiser.” Capra, atônito pela resposta, comentou: “Se há algum duende por aqui, ele está fumando um cachimbo.”
Nos anos 1960, o animador americano Gene Deitch, conhecido por seu trabalho em Popeye e muitos outros desenhos animados, foi chamado para adaptar “Krazy Kat” para a televisão. Mas, como escreve Tisserand, “havia o problema do gênero ambíguo de Krazy Kat.” Deitch mesmo se lembra que “naquela época, qualquer sugestão de um relacionamento homossexual entre Krazy e Ignatz (obviamente um rato do gênero masculino) era melhor ser evitado. Então nós decidimos que Krazy era uma gata e foi isso” (em adaptações cinematográficas feitas décadas depois, Krazy era definido como “um personagem masculino, e Ignatz, inexplicavelmente, como um rato preto”, escreve Tisserand). Considerar Krazy como um personagem exclusivamente feminino era uma resposta comum. Em uma reflexão de 1946 sobre o quadrinho, o poeta E.E. Cummings reconheceu que o gênero de Krazy era fluído, mas ainda identificou o felino de maneira feminina, chamando “nossa heroína” Krazy de “a adorável e desamparada encarnação de uma santidade”.
Obviamente, alguns leitores abraçaram esse aspecto da personagem. Um bar boêmio de Washington D.C., conhecido pela sua receptividade ao público queer, parecia reconhecer a não-conformidade anárquica do quadrinho se nomeando de “Krazy Kat” (seu letreiro trazia um gato preto parecido com Krazy sendo atingido por um tijolo). Quando me correspondi com Tisserand recentemente e perguntei a ele sobre o legado da tirinha nesse sentido, ele comentou que Michael Stipe, cantor da banda R.E.M., e que já escreveu sobre sua própria sexualidade fluida, é um grande fã da tirinha (ele tem duas tatuagens do quadrinho). Em um ensaio para o The Guardian de 2014, Stipe escreveu “O século 21 forneceu a todos, sobretudo às gerações mais jovens, uma ideia mais clara da abrangência e fluidez com a qual a sexualidade e identidade se apresentam em cada indivíduo.” No trabalho de Herriman, Tisserand, sugere, Stipe pode ter encontrado um “precursor para essa ideia”.
Perguntei a Tisserand se ele achava que a experiência pessoal de Herriman de sua identidade racial estava ligada à maneira como gênero era representado no quadrinho. Tisserand me apontou para uma tirinha de 1914 em que Ignatz pergunta a Krazy sobre ser chamado às vezes de “senhor” e às vezes de “senhora”. “É uma história triste que vai te fazer chorar, Ignatz”, responde Krazy. “Quando nós mulheres ganhamos o direito ao voto, eu fui à uma cabine eleitoral para votar. O homem disse para mim ‘você é uma senhorita, uma senhora ou um senhor’? Para não ofendê-lo, eu disse ‘qualquer um que você preferir, senhor, ou ainda os três caso prefira assim’. Bem, foi aqui que minha tristeza começou”, conclui Krazy. Tisserand disse “Herriman não teria tido uma experiência como essa, mas teria tido de escolher sua própria designação racial pela primeira vez na vida aos dezenove anos de idade, quando vivia em Coney Island”. Herriman, como Krazy, pode ter escolhido “o que quer que não ofenda aos outros”, Tisserand propôs. Em um mundo que exigia demarcações rígidas, ser alguém que não se encaixava perfeitamente poderia ser perigoso e ameaçador.
Quase um século depois, parece que muito mudou, assim como não mudou. “Herriman conversa muito urgentemente com o nosso tempo, em um trabalho que relembra tanto os grandes momentos de dor em nosso país quanto os rompantes inesperados de beleza que surgiram ao longo da história”, escreveu Tisserand em um email, quando perguntei sobre o significado de “Krazy Kat” diante do governo de Donald Trump. Ele trouxe à tona a célebre luta de boxe de 1910 entre o lutador afro-americano Jack Johnson e seu rival caucasiano James Jeffries; quando Johnson nocauteou Jeffries, manifestações violentas de cunho racial se iniciaram. Herriman cobriu a luta através de quadrinhos no jornal. “A emergência de ‘Krazy Kat’ durante as os horríveis distúrbios civis que se seguiram àquela luta me parece ser um pequeno milagre de criação artística”, escreveu Tisserand.
Ler “Krazy Kat” à luz das lutas silenciosas de Herriman com sua própria identidade traz novas camadas à história de um gato, um cachorro e um rato. Como uma mulher trans que, como Herriman, é multiracial, a tirinha me tocou de maneiras inesperadas. “Linguagem é o que usamos para mal interpretar uns aos outros”, Krazy diz à Ignatz em uma tirinha popularmente citada. Fazer a transição para um gênero ao qual você sabe que pertence pode muitas vezes assemelhar-se a aprender um idioma de que você se lembra de um sonho distante — uma língua materna de uma terra nebulosa, uma língua ao mesmo tempo fácil e completamente estranha. Identidade não é algo que você repentinamente traz pronta; você gradualmente aprende o léxico da multitude que você pode conter, quer você queira conhecê-la ou não. Os contos vaudevillianos da Coconino County de Heriman nos mostram não apenas como continuamente falhamos em entender-nos uns aos outros, mas também como, de uma forma ou de outra, nós também encontramos sentido em uns aos outros. “Toda a complexidade da vida me parece tão absurda que eu simplesmente desenho o que vejo”, Herriman disse uma vez. Seu gato queer é tolo e trágico, um Dom e Dona Quixote do século 20. Que Krazy continue sonhando com amor, mesmo quando diante de um mundo cruel e absurdo, é reconfortante. Mas, como Sancho Pança, Krazy também pode ser sábio e admirável.
Krazy é o tipo de símbolo whitmanesco da maleabilidade do ser, que com certeza se mostrou um escape para Herriman. Se Herriman teve de esconder quem era, pelo menos seu gato charmoso poderia ser a si mesmo livremente, publicamente. Ao buscar um mundo que representava a liberdade a que foi negado, Herriman criou uma poderosa (e pouco reconhecida) adição ao cânone da literatura queer norteamericana.
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Tradução: Rodolfo Almeida
