#3 — Alguma Poesia

Tenho lido muitas coisas ao mesmo tempo, e em ritmo lento. Portanto, apesar de inciado há algumas semanas, apenas ontem terminei Alguma Poesia, o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, quando tinha 28 anos. Obviamente já me eram conhecidos vários dos poemas contidos no livro — bem como são conhecidos de todos. Mas como continuar a conhecer apenas alguma poesia deste livro não era meu objetivo, o li na íntegra, procurando pela poesia dos outros poemas, e analisando-o como um todo.

Alguém já disse alguma vez que o primeiro livro do poeta geralmente é tudo o que ele fez de bom na sua vida até aquele momento, o que costuma me assustar, principalmente por ser aterradoramente verdadeiro. “Quer dizer que meu lifetime achievement é só isso?”, costumo pensar sobre o que eu escrevi até hoje (porque sim, eu escrevo; quem não escreve, afinal?), e foi essa a pergunta óbvia e incômoda que eu fui calar, procurando saber se Drummond já era Drummond desde o início e, com isso, considerando se eu ainda podia manter as esperanças de me tornar Drummond, assim, de repente.

A resposta a que chego é que, em Alguma Poesia (lido em Carlos Drummond de Andrade — Poesia Completa, Nova Fronteira, 1599 páginas, mas que também está em catálogo, numa edição isolada, pela Companhia das Letras, cuja capa ilustra esse post), Drummond ainda não era Drummond, mas certamente era Drummond. Seus clássicos já estavam ali, sua serenidade e sua observação ímpar da vida cotidiana, sempre entre o rebelde e o conformado, um distanciamento sereno, de quem se sabe, no fundo, parte daquilo tudo. Há, certamente, alguns poemas pouco dignos dos seus anos mais maduros, pois o tempo certamente nos torna mais rigorosos, ainda mais para quem sempre teve um nível absolutamente incomum. O interessante em ver as poesias menos inspiradas, pelo menos para mim, é ter o conforto de poder dizer “eu acho que já fiz coisa melhor”, ainda que sem qualquer convicção disso — na verdade meu primeiro pensamento é “eu não devo ter entendido isso”

Deixando de lado os possíveis e isolados poemas menores na obra, destaco o melhor poema não-tão-conhecido do livro (e, ainda assim, bastante conhecido) que mostra a maturidade precoce do poeta e o quão extraordinário foi seu início:

Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro

moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Like what you read? Give Diário de Leituras a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.