#8 — Ilvermorny School of Witchcraft and Wizardry (ou: A Política Como Mágica)

A Escola de Magia Ilvermorny, como mostra a animação no canal Pottermore, no YouTube

Há uma semana — para ser mais exato, no dia 28 de junho — o site Pottermore, já conhecido dos fãs da saga Harry Potter, publicou um conto sobre a história da Escola de Magia e Bruxaria de Ilvermorny, em que J. K. Rowling nos apresenta uma espécie de preâmbulo da história da maior instituição bruxa dos Estados Unidos, que veremos em breve no filme “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, que tem previsão de estreia para o dia 17 de novembro.

Não é um livro, e eu não havia pensado em fazer essa resenha — até porque vai ser uma overdose de J. K. Rowling, já que eu também pretendo falar em breve de “Vocação Para o Mal”, o terceiro livro da saga de Cormoran Strike — mas resolvi falar do conto porque, analisando-o no contexto dos últimos acontecimentos geopolíticos, talvez ele nos dê algumas pistas da mensagem que a nossa querida autora quer passar a seus leitores nesse momento.

Vou tentar ser breve porque esse espaço foi pensado para não conter análises exaustivas, mas adianto que essa análise poderia se estender para muito além disso, e talvez isso possa ser feito nos comentários (só depende dos leitores). O fato é que, apesar de o conto ter sido publicado com a intenção de servir de substrato para a trama que veremos em novembro, seu lançamento coincidiu com um momento político especialmente delicado para a Grã-Bretanha, com o resultado, 4 dias antes, do referendo que oficializava a sua saída da União Europeia. Sobre a decisão, J. K. se manifestou tuitando:

“Não acho que já tenha desejado tanto [que existisse] mágica alguma vez”

Eu imagino que o fato de a autora — bem como outras personalidades britânicas — ter feito uma campanha massiva pela permanência da Grã-Bretanha na União Europeia, afastando as hipóteses do Brexit, possa ter sido um fator determinante para que ela iniciasse o conto da seguinte maneira (em tradução livre):

“Instável e cruel, Gormlaith era fanática de sangue puro que acreditava que a prestatividade de sua irmã em relação aos seus vizinhos trouxas estava colocando Isolt em uma trilha perigosa para um casamento com homem não-mágico. Apenas roubando a criança, assim acreditava, Gormlaith poderia levar a filha deles de volta para o ‘caminho certo’: criada na crença de que, como descendente tanto de Morrigan e de Salazar Sonserina, ela deveria associar-se apenas a puros-sangues.”

A trama conta a história da órfã Isolt Sayre, descendente de Salazar Sonserina, e de sua fuga da Irlanda para os Estados Unidos, a fim de fugir das garras de sua tia maligna (e preconceituosa) Gormlaith Gaunt, e da subsequente criação da renomada Escola de Magia e Bruxaria de Ilvermorny, também conhecida nos tempos atuais como uma das mais democráticas e menos elitistas escolas de magia do mundo, justamente pelas suas origens — para o horror de Gormlaith — também trouxas.

Todos sabemos que a questão do preconceito entre trouxas, puros-sangues e mestiços em Harry Potter sempre existiu, mas as comparações à época da escrita de J. K. eram geralmente feitas a episódios genéricos ou relativamente distantes de seu público, como a ascensão de regimes totalitários como o nazismo ou o fascismo. Ao que tudo indica, o aumento da xenofobia nas nações mais ricas da União Europeia, provocado pela intensificação da migração tanto de imigrantes comuns como de refugiados de guerra ou outras catástrofes, influenciou mais diretamente tanto na decisão de isolamento da Grã-Bretanha (uma bandeira reconhecidamente conservadora) quanto na escrita da autora, que tem sido uma das vozes mais ativas na luta contra a disseminação do ódio disfarçado de nacionalismo.

Se a caneta (ou teclado) é o que mais próximo os escritores têm de uma varinha, foi este o instrumento que J. K. mais uma vez decidiu usar para nos lembrar, com este preâmbulo, que as coisas mais duradouras que temos como sociedade sempre foram feitas em cooperação. Ela está usando o seu próprio modo de fazer mágica para tentar atingir os milhões de trouxas que um dia leram suas histórias e ainda podem ser tocados pela sua mensagem intrinsecamente humanística e conciliatória. Saber que, nos momentos certos, é possível transformar mágica em política (e vice-versa) é, mesmo que num mundo cada vez mais cinza, vagamente alentador.

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