experts?

Eleitores anteciparam a dinâmica do 2o turno para o 1o

Estamos em 1 mundo digital, mas utilizando instrumentos analógicos

Pesquisadores precisam se esforçar mais para capturar a realidade

2018 está sendo 1 eleição única. A complexidade da realidade deveria fazer qualquer suposto expert refletir sobre o quanto ela ou ele realmente entende sobre o campo em que escolheu especializar-se.

Na minha visão, mais do que a vitória ou derrota de candidato A ou B, a maior surpresa desse ano até agora foi a disparidade entre os resultados das urnas e os resultados divulgados pelos diversos institutos de pesquisa.

Embora houvessem divergências normais sobre números exatos, as pesquisas do DataPoder360, Datafolha e Ibope contavam a mesma história: Jair Bolsonaro estava estabilizado num patamar alto de votação, seguido por Fernando Haddad, que havia crescido rapidamente, mas havia diminuído seu ritmo de crescimento e assegurado sua vaga no 2o turno. Apesar da movimentação nas redes sociais, Ciro Gomes estava ancorado no 3o lugar.

O diagnóstico geral foi confirmado. Bolsonaro e Haddad avançaram para o 2o turno. Mas a realidade das urnas foi mais dramática do que as pesquisas estavam captando.

Aos números:

Todos os institutos subestimaram os 2 principais candidatos. Os dados apontam que o eleitorado antecipou a dinâmica do 2o turno para o 1o turno. A polarização do cenário desidratou candidatos percebidos como pouco competitivos, levando eleitoras e eleitores a tomar 1 decisão estratégica já no 1o turno de votação.

Tanto Jair Bolsonaro quanto Fernando Haddad obtiveram 1 percentual maior de votos que o previsto pelas pesquisas de opinião pública.

O voto estratégico não é 1 fenômeno novo e ocorre por diversos motivos, não apenas pelo simples fato de o eleitor não querer “desperdiçar o voto”. A real surpresa foi a velocidade e intensidade da mudança de opção dos eleitores.

Todos os institutos publicaram resultados quase similares, porém longe dos números das urnas. Isso pode indicar o equívoco em utilizar as pesquisas quantitativas como único instrumento para mensurar a opinião pública. A realidade é muito mais complexa do que o que é capturado apenas através de percentuais, amostras e margens de erro.

Esse não é 1 fato novo. Praticamente todas as campanhas também utilizam as pesquisas qualitativas para orientar-se no jogo político. Porém raramente vemos os veículos de comunicação falarem de pesquisas qualitativas. Dados qualitativos exigem capacidade de leitura política para entender as sutilezas da opinião pública. Isso demanda mais tempo e mais atenção de leitores e espectadores.

O debate acerca de metodologias de pesquisa merece muito mais espaço que essas poucas linhas e deveria engajar profundamente acadêmicos, jornalistas, analistas e todas as pessoas que desejam entender melhor a realidade.

É fato que hoje vivemos em 1 mundo digital. As pessoas vivem conectadas através da internet e seus smartphones, com acesso instantâneo aos acontecimentos mais recentes e a notícias, sejam elas verdadeiras ou fake news. Pesquisas quantitativas de opinião pública foram desenvolvidas para 1 mundo analógico, onde o ritmo da informação era mais lento e a complexidade dos eventos era menor.

1 ponto essencial para todos que trabalham com política: como adaptar os instrumentos a nossa disposição para compreender de maneira profunda e precisa 1 realidade cada vez mais multifacetada?

A resposta não virá tão cedo. Mas é preciso começar a pontuar essa questão. Por 1 série de razões, realizar pesquisas quantitativas de opinião pública com a mesma precisão que em anos passados será cada vez mais difícil. Porém estudiosos da área têm a chance agora de entender a opinião pública como 1 processo dinâmico, fluído e interativo. Tendências podem ser tão ou mais importantes que números específicos.

2018 também está sendo a eleição onde cada vez mais pesquisas estão sendo divulgadas e isso adiciona complexidade na análise do cenário político. A demanda cada vez maior dos portais de notícias e de consumidores em geral por novidades aumentou substancialmente o mercado para pesquisas de opinião. Avanços tecnológicos e metodológicos tornaram mais fácil a realização de pesquisas eleitorais, porém a qualidade dessas pesquisas varia enormemente.

Mesmo com as facilidades tecnológicas, pesquisas de opinião continuam sendo complexas de ser executadas. Pelo menos as pesquisas realizadas por profissionais e institutos de pesquisa sérios.

O processo envolve 1 série de considerações e escolhas metodológicas, desde a redação do questionário até a ponderação dos dados. São nuances que passam despercebidas pela grande maioria dos leitores. Mas elas importam.

Infelizmente poucos “consumidores de pesquisas” conseguem distinguir institutos sérios dos não sérios. Isso leva as pessoas a acreditar ou desacreditar em todas as pesquisas, ou, mais provavelmente, acreditar apenas nas pesquisas em que os resultados estão alinhados com suas opiniões pessoais ou pontos de vista.

O cenário atual deveria fazer com que todos, de leitores até os jornalistas que cobrem política, buscassem entender mais sobre como pesquisas são realizadas. A melhor compreensão das metodologias de pesquisa certamente fará com que consigam utilizar dados de maneira mais precisa e que consigam analisar a realidade de maneira mais aprofundada.