Mal da geração ou aos que se foram
Sentado ao pé da cama, os desenhos e quadros na parede clara do quarto meio escuro, cedo ainda; as pessoas íntimas, ou nem tanto, deitadas nos cantos dos cômodos, corpos de alguns, que vindo dividir o vinho de uma noite, a alegria alcoólica, ficaram desabados. Pressente-os todos, sonâmbulo. Levanta, sai do quarto, vai à sala, pula uns montes deitados, a sujeira da vida ainda restando, marcas por aqui e acolá, garrafas, outros receptáculos, vai ao banheiro. No pequeno cômodo, cheiro da noite intensa de fato. Me diverti? Profana. Fecha a porta com cuidado evitando barulho, encosta. Se fita no espelho, ali em pé atravessado pelo sono da noite curta, mal dormida, analisando o rosto sujo no dia raiando. A sensação matinal e soturna, do gozo de ontem ou do nada por vir? Do nada na face do tempo, o vazio a surgir no horizonte da vida. Amanhã é segunda. Nenhum e-mail, nenhum telefonema, as contas, preocupações, inevitáveis banalidades. Vê internamente, súbito, a mãe de novo dizendo, para disso meu preto, menino, deixa disso que vai morrer faminto, minguando vagabundo; abandona, amor, abandona, que não dá futuro, não edifica; veja teu pai, quis ser tudo, ser músico, quis fama, quis mulher, me fez a ti e partiu, caiu no mundo; morreu perdido, comido pela doença, o fígado partido, sozinho numa cama podre; deixa disso menino, vira gente! Ouvia tudo mais uma vez, de si para si, e olhava a face preta no espelho, pobre e transviada, a sombra do pai, o corpo sem certo destino.
Depois do trabalho ela, já no campus da universidade, caminhando sozinha, ninguém conhecido por ali, nenhum afago, todos ocupados com o fim do período, as provas, notas, turbilhão de inutilidades programadas. Cansada. Mais um dia de documentos e papeis, pensando a vida, as escolhas. Por que história? Aulas e depois isso, se podia ter feito coisa outra, amigos melhores e outros, lugares e contatos, já seria doutora ou ganharia bem, talvez, se não fosse isso de ter querido mudar o mundo, fazer algo. Algo por quem? Deveria ter feito por mim, fazer ainda. Acharia as forças, acharia. Agora esse marasmo, essa insensatez, o desprestígio. Sim, puro desprestígio, sem dinheiro, marido bem-sucedido, o tempo se arrastando levando consigo as forças, o fito. Ter de ouvir que tão bonita, tão inteligente, que teria sido tão mais fácil… teria? Não estudar, estudar qualquer coisa. Encarar a burrice e o destino. Não querer nada, cuidar dos filhos, não ambicionar. Caminhava pesada e sonolenta pelos corredores, esperava a aula, o trabalho já feio nos intervalos do trabalho, vagava pensando, um desânimo.
Em algum momento do dia o fatal desligamento. Mil vezes acompanhado, mil vezes só, ausente de si na multidão, sozinho em rebanho, cheio de ditos amigos, nada que baste. Só, com o futuro roubado, com as perspectivas destruídas, sem dinheiro, sem paixão, sem carreira. Aos olhos dos outro o vagabundo, a vagabunda, o que se dedica ao inútil, ao imprestável; o que poderia já ter feito isso, aquilo. A coisa séria, não aquilo, não ser o artista preto metido que dança alegre, luta e sorri; não ser a pobre utópica, não o nada vagando, os cheios de sonhos, os sem rumo.
Ela chega tarde em casa, ele se prepara para sair. Ela entra na ponta dos pés, deixa a bolsa, olha em torno, o silêncio, começa a sentir a náusea, o estranhamento. Ele estaca à porta, um calafrio, o ronco dos outros caídos ainda. Que faço aqui? No fundo. Nesse mundo que não me enxerga, nessa massa de mortos que não me pressentem, nesse prédio que não me acolhe, nessa política que não me alforria. Nós que cavamos esperança, que não deixamos a vida morrer, que nos iludimos, que nos massacramos. O que fazer? O que fazer quando o sono não vem, quando a rua não chama, quando a vida escapa pelos poros e seca e evapora. Deixarão cartas e frases, áudios e vídeos. É preciso explicar para os que ficam, ou os poupar. Deixarão o mistério e o amor doado; deixarão memórias e dúvida. Pois duvidar é melhor que saber, e saber disso é morrer só. Viva. E algum dia entenderá, nos entenderá. Os que se precipitam sem avisar, nós que vagamos ao indefinido e os deixamos. As irmãs, os maridos, os filhos, os amigos. Entendam-nos. Gritem. Ao que fomos, pois não se vai só; aos que viraram memória, aos que, de algum modo, escolheram assim, ou não escolheram, decidimos não tentar mais, que vimos nascer como musgo esse querer intenso, mas paciente que se apoderou de nós, com o qual lutamos sozinhos ou abertos, com ou sem remédios. Nós os deixamos, a vós e esse mundo.
Decide enfim sair, enquanto a outra adentra o pequeno cômodo, o frasco em mãos.
Fecham as portas atrás de si.