Melhores Filmes de 2015

2015 foi um ano bom para as mulheres no cinema, tanto que dos 10 filmes da minha lista, 8 são protagonizados por mulheres. Personagens fortes, bens construidos e dos mais variados puderam ser vistos nas telas. Destaco Melissa McCarthy em A Espiã que Sabia de Menos (Spy), Daisy Ridley como Rey em Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens) e Charlize Theron como Imperator Furiosa em Mad Max: A Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road). Com esses filmes sendo sucessos comerciais, talvez a indústria consiga entender que mulheres podem ser heroínas também.
Alguns filmes foram complicados de tirar do top 10: Colina Escarlate é um romance gótico memorável; Divertida Mente parece ser a volta da Pixar aos bons filmes; Goodnight Mommy é um terror bem construido e fotografado, apesar de entregar seu twist na primeira cena; Cássia é um documentário primoroso e sensível; The Walk foi talvez o único filme do ano a usar o 3D de forma apropriada, apesar de o tom sentimental não funcionar em boa parte do filme. Também destaco a produção comercial brasileira que está se aventurando por gêneros e, finalmente, fugindo da formula de globo chanchada, Entre Abelhas, Estrada 47, Ponte Aérea e O Vendedor de Passados são exemplares dessa safra.

10. Éden
Uma mistura eficiente de euforia e melancolia ao retratar o movimento da musica eletrônica em Paris nos anos 90.

9. Corrente do Mal (It Follows)
Filme de terror indie com uma premissa interessante: uma maldição sexualmente transmitida. Leva a outro nível a punição ao sexo característica dos filmes de terror adolescente e brinca com a ideia de um assassino que, não importa o quanto você corra, está sempre, lentamente, te seguindo.

8. Mistress America
Novo filme de Noah Baumbach, Mistress America é praticamente um Frances Ha em cores (isso é um elogio). Gosto dos retratos geracionais do diretor e adoro o roteiro esperto e bem construido da Greta Gerwig (também protagonista do filme).

7. O Sal da Terra
Documentário sobre o fotógrafo Sebastião Salgado dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado (filho do personagem principal). O filme é um retrato muito pessoal e tocante sobre alguém verdadeiramente extraordinário.

6. Tangerine
Rodado com um iPhone 5S, Tangerine é um filme sobre amizade em frente a precariedade. É interessante a justificativa para se fazer uma comédia dramática ao invés de explorar a tristeza da realidade social do grupo retratado. Ganha uma estrelinha a mais por trazer mulheres transexuais interpretando as protagonistas.

5. Que Horas Ela Volta?
Apesar de algumas criticas que podem ser feitas em relação ao filme enquanto instrumento de questionamento social, como o fato de todas as protagonistas serem brancas ou de não atingir o publico da periferia que busca retratar nem fazer mudar de perspectiva o publico intelectualizado que atinge (o que discordo), Que Horas Ela Volta? se mantém como um exercício doce e humano sobre uma situação de vida social extremamente brasileira.

4. Sicario: Terra de Ninguém
Faço essa lista de melhores filmes do ano desde 2013 e Denis Villeneuve está em todas. O diretor canadense consegue, mesmo lançando um filme por ano, se manter interessante, diversificado e consistente em qualidade. Sicario apesar de ter uma protagonista erradica, consegue construir um clima de tensão sólido. O filme não é ingênuo ao tratar a questão do trafico de drogas e violência e consegue fazer refletir sobre o problema sem ser maniqueísta, o diretor gasta tempo de tela para humanizar todos os personagens sem eleger heróis.

3. Mad Max: A Estrada da Fúria
Com protagonistas femininas fortes e com excelência em todos os aspectos técnicos e criativos, o novo Mad Max foi talvez a única vez que sai do cinema extasiado em 2015. O deserto, as tempestades de areia e a trama simples e extremamente visual são um refresco para esse mar de filmes de ação pouco imaginativos.

2. The Duke of Burgundy
Um filme sobre S&M lançado no mesmo ano de 50 Tons de Cinza, mas que, ao contrario do primo rico e hétero, é um bom. Trata da relação de afeto, dominação e submissão entre duas mulheres (em uma sociedade só de mulheres). Nada é muito bem o que parece e se no inicio o filme choca por algumas praticas de suas protagonistas, ao fim fica a estranha sensação de identificação com essa metáfora sobre relações humanas.

- Ex Machina: Instinto Artificial
É curioso reparar as semelhanças entre Ex Machina e Under the Skin, meu filme favorito do ano passado, os dois usam uma trama de ficção científica para refletir sobre o que é ser humano. Under the Skin traz uma alienígena interpretada por Scarlett Johansson que convida o espectador a primeiro assistir a humanidade por uma perspectiva de distanciamento e então explorar em sua metade final as emoções mais extremas como a compaixão, o desejo, a solidão e o medo. Já Ex Machina não se preocupa tanto em observar a humanidade, mas em questionar o que nos torna humanos.
Se em Under the Skin a Mulher se encontra com diversas pessoas e se camufla entre multidões, em Ex Machina a androide Ava fica confinada em um quarto de vidro de onde precisa provar para seus dois captores que é uma inteligência artificial passável como humana. As duas personagens são muito parecidas, mudando apenas o contexto em que os filmes se passam. As duas obras de certa forma se complementam.
Ex Machina retrata de forma visual um método de contenção de uma IA como sugerido por Nick Bostrom em “Superintelligence”, um tratado sobre os caminhos e os perigos que uma ocasional inteligência artificial super desenvolvida poderia causar a humanidade. Porem, o filme não se prende a retratar tratados científicos, ele explora a própria natureza de nossos sentimentos, nossa consciência e como/porque esses estímulos nos transformam em humanos, como somos programados e qual a nossa diferença em relação as maquinas com consciência. Uma reflexão eficiente, interessante e bem fotografada. Um êxito.