O passado em disputa: reflexões sobre a construção do passado no hoje e seus efeitos nas relações de poder.

Another brick in the wall — Pink Floyd

O passado — matéria prima da ciência História — é um espaço em disputa, constatação inicialmente sem sentido, pois segundo o senso comum a palavra — conceito — de passado evoca o imutável, o já consolidado, quando na verdade o mesmo é um campo de batalha onde se enfrentam diferentes forças sociais opostas com o objetivo de legitimarem um certo passado em nome de um projeto de futuro, por sua vez construído no hoje.

A escolha de uma narrativa sobre o passado incide diretamente numa opção ideológica de interpretação do mesmo, geralmente a interpretação oficial dos fatos — selecionados e narrados como relevantes para a história — é dada pelo grupo social no poder. Lógico que em democracias, outras narrativas são elaboradas passando a lutar pela sua inserção na História oficial.

Há uma dificuldade muito grande da sociedade civil em compreender a ciência histórica enquanto Ciência, o que pressupõem métodos e teorias para a sua efetivação, nenhum historiador redige sua tese sobre o passado sem um embasamento teórico, sem documentos que legitimem sua tese e sem uma proposta metodológica de elaboração da sua pesquisa. Essas formas de se escrever a história chamamos de “Historiografia” e cada contexto histórico e geográfico vai produzir uma historiografia própria que é refutada ou assimilada por outras formas dando origem a novos modelos interpretativos. Além disso as diversas formas de se escrever a história — as historiografias — são manifestações de sistemas ideológicos diversos, portanto toda tese ou escrito referente a história que se pretende ser historiográfico é também um texto ideológico, o grande historiador Carlo Ginzburg evidenciou tal afirmação de forma magistral em seu texto “Feiticeiras e xamãs”, quando afirma que a escolha de seu objeto de estudo e da abordagem dada ao mesmo se relaciona com experiências de ordem pessoal somadas ao interesse científico.

O fato da população — aquela parcela significativa que está distante dos debates acadêmicos e a qual muitas vezes os acadêmicos não prestam a devida atenção — elaborar uma visão “simplista” da história se deve ao sistema educacional ao qual estão imersos durante boa parte de sua formação cidadã. O professor de história da UFOP Valdei Lopez em seu excelente artigo “Aprendendo a ser burguês” escrito para a Revista de História da Biblioteca Nacional (Ano 10, n°120 de setembro de 2015) demonstra com clareza ímpar o quanto o conceito de “educação” se relacionou no século XVIII e XIX com o conceito de “civilização” trazendo como uma “armadilha” a possibilidade de usar a educação como uma ferramenta de conquista de um grupo sobre o outro. No XXI essa armadilha continua ativa na medida em que o sistema educacional serve como forma de manter uma relação de poderes, ou seja, atualmente a educação é uma interpretação ideológica de como os cidadãos devem ser “civilizados” que renega qualquer visão crítica ao próprio sistema. Além disso, como forma de se manter um determinado grupo no poder, são escolhidos fatos e interpretações que não comprometam essa dialética social desigual. A educação portanto, é uma arma poderosa no controle e manutenção das minorias políticas fora do espaço político, não dando a elas um papel enquanto agentes históricos.

Uma consequência nefasta desse sistema educacional é a geração de indivíduos que não sabem ler textos históricos em sua forma correta, ou seja, pegando as informações do texto e relacionando-as com sua experiência prévia e a partir daí elaborar uma narrativa onde os fatos lidos tornam-se relevantes para sua vida. Muitas vezes os textos são lidos no sentindo de se obter uma somatória de informações que não são criticadas frente a luz do real, ficam apenas em seu reino teórico reivindicando para si um status de verdade.

Nesse sentindo vale evocar tanto Benjamim quanto o já citado Ginzburg para legitimar os relatos históricos que dão enfoque nas narrativas obscurecidas pelas “versões oficiais”, como por exemplo o uso do “estranhamento” proposto por Ginzburg como uma forma de descrever um fato histórico colocando como agente um indivíduo ou classe pertencente aos dominados, perdedores, etc. como forma de demonstrar outras leituras dos processos históricos causando no leitor um estranhamento quanto ao que ele acreditava ser “verdadeiro”. Um relato que dá espaço a esses agentes históricos — individuais e coletivos — é fundamental como propôs Benjamim para possibilitar a justiça histórica.
 Os aspectos debatidos no texto acima quando relacionados são elementos importantes no processo de educação que visa o desenvolvimento de cidadãos sensíveis aos interesses públicos de uma democracia, possibilitam o pensamento baseado na alteridade e legitimam uma História nacional mais próxima dos fatos e mais coerente com a situação da sociedade atual.