‘Die Orden der Nacht’, de Anselm Kiefer/Reprodução

Corpo entre girassóis

Nove e cinquenta e quatro reluz no visor do celular. A claridade rebenta no rosto deslavado da mulher. Ela procura as horas pela terceira vez neste minuto. No fundo de tela, sob os números fosforescentes, uma fotografia resgata no quarto escuro do cérebro dias mais azuis: a viagem a Maceió; a filha tomando um picolé de uva, com respingo roxo no vestidinho rosa; o marido escondendo com um panamá a calvície proeminente; ela sorrindo a boca de dentes tortos — “um charme”, ele sempre elogiava. Aquela foi a última vez que viu o mar. Ela toma o uísque que ele guardava para ocasiões especiais — ocasiões que nunca chegavam. Esta noite, para a mulher-natureza-morta, é uma delas. Está sentada na poltrona que era dele, roçando os pés descalços no tapete felpudo que ele odiava, mas comprara apenas para agradá-la. O marido tinha essa mania de mimá-la com presentes fora de época: há três novembros deu o colar de safira que ela usa nesta noite; há cinco fevereiros trouxe-lhe um poodle — que morreu dois janeiros depois — ; em junho retrasado comprou a viagem dos sonhos dela: road trip pela costa do Tirreno, de Nápoles até a riviera italiana. “Será inesquecível”, ele sussurrou, beijando seu pescoço enquanto as mãos — muitas mãos, uma dúzia de mãos — dançavam gentis pelo quadril da mulher. Ainda são nove e cinquenta e quatro. Há dias são nove e cinquenta e quatro. A mulher aconchega-se com o tempo em suspensão: nada medra ou definha, e o que há de ser morto morto está. Prostrada naquele canto da sala, cercava-se por objetos que traziam os fantasmas do marido e da filha — o porta-retrato com a foto da apresentação de balé da pequena, os discos de Nelson Gonçalves que ele havia herdado do pai e nunca ouvia, um abajur de porcelana que a sogra trouxe da Espanha, o cacto-bola que a menina batizou de Chico, a banqueta de cabiúna que ficava no escritório, na qual a garota subia para, em seguida, se jogar nos braços do pai, desvairada e feliz. As coisas todas se dissipariam no breu, não fosse um vestígio de luz que brota da cozinha acesa. Além do colar, usa uma blusa branca de decote que revela sardas perto dos seios — ele costumava beijar cada uma delas, uma brincadeira de liga-pontos com a língua morna. Veste a saia grafite que o marido adorava, com um corte na lateral, deixando exposta parte da coxa, visíveis os pelos eriçados pelo toque do pano frio na carne quente. Em outros tempos, se enfiaria num quarto ou no banheiro, longe dos olhos curiosos da garotinha, e meteria a mão na fenda até encontrar sua boceta. Tinha o hábito de se tocar a qualquer hora — às vezes acompanhada pelo marido. Mas não mais nos últimos meses e, sobretudo, nesta noite.

Antes de dar nove e cinquenta e cinco, um som agudo irrompe da cozinha. Ela beberica o uísque. O interfone toca de novo. A mulher repousa o copo na mesa de centro — o batom marca o vidro — e dá passos zonzos até o aparelho na parede. Não atende; apenas aperta o botão que abre o portão do sobrado. Há mais de um ano não recebe visitas masculinas, mas sabe que há um homem do lado de lá da linha. Logo ouve os passos que ecoam do pátio. A campainha toca. À porta está um homem com uma década a menos e meio metro a mais do que ela. Era um rapaz de queixo quadrado e barba escanhoada, olhos de azeviche, baixos como os de um cão mendigo. “Entre.” Ele não entra. Olha para um lado e outro. “Tá tudo bem. Não há câmeras aqui.” “Deixe a chave na porta e o portão aberto”. Ele tem hálito de maçã e voz de confessionário. “Fica mais fácil para eu sair depois.” Ela volta à poltrona, ao uísque, ao quase negrume. Ele a segue em pisadas mansas. “Quer alguma coisa para beber?” A mão toca o cabelo; o dedo contorce os fios. “Eu não bebo em serviço.” Os olhos avistam as sardas e quase se perdem nelas. “Pelo menos me acompanhe neste copo.” Ele não responde. “Tudo bem, você nem parece ter idade para beber, mesmo.” A mulher morde os lábios sem querer. “Onde você quer? Aqui mesmo?” Ela percebe o movimento incessante das pernas do rapaz a poucos metros das suas, a eletricidade que faísca na espinha e se alastra pelos membros. “Está nervoso, garoto?” “Não.” “Eu sou sua primeira…?” Quietos, fitam-se um ao outro, iluminados apenas pelo feixe âmbar que vem da cozinha. Luz que se refrata nos cristais do lustre, arco-irizando pequenos pontos na parede de um branco virginal. Os dois desconhecidos não percebem as manchas multicoloridas; no lusco-fusco, deixam-se no namoro de momento. Nada há a ser dito, pois qualquer palavra delataria a traição do corpo, que deseja, mas tem de repelir.

Uma sirene de camburão que passa na rua desperta mulher e rapaz do transe. Ela se levanta. Tropeça nas sílabas. “Vamos… Vamos lá para cima, para o quarto.” Ela segue à frente. Sua saia ondeia a cada degrau, revelando o hiato côncavo entre as coxas, a calcinha branca. Nas paredes do corredor do andar de cima esparramam-se retratos do marido agachado perto do jacaré que ele matara às margens do rio Purus, da mulher sentada na soleira de uma casa em Paraty, da filhinha numa piscina de bolinhas de plástico. O caminho termina na suíte: a cama de cobertas reviradas, um travesseiro no chão, roupas jogadas perto do criado-mudo, caixas de remédios vazias, um quadro com girassóis colossais e um corpo ao chão. “É Die Orden der Nacht. Anselm Kiefer”. A mulher ignora o som gutural do cê-agá. “Uma réplica menor, claro. Gostou?” Ele se emperra diante da obra e espreme a vista para contar quantos dedos tem o pé do sujeito caído entre as flores. “Quando a gente terminar você pode levar embora, se quiser.” A mulher larga-se na cama, ajeita a saia e estica o braço para acender o abajur. “Pode apagar a luz?” O rapaz senta-se à beira. Estala os dedos um a um. Para no anelar esquerdo, quando ouve um zum-zum a invadir o quarto. Pela janela, vê uma massa descendo a rua. Os pontinhos amarelos vão ganham contorno de homens e mulheres; o som aumenta a cada passo do grupo. Eles tocam corneta, entoam palavras de ordem. “Deve ser gente voltando da manifestação na avenida.” “Vamos ter de esperar eles passarem.” “Por quê?” “Estão perto. Podem ouvir o barulho, ver o clarão.” A mulher bufa de tédio. Recosta-se na cabeceira. O rapaz junta-se a ela; senta-se no lado que era do marido. A balbúrdia aumenta e profana a calada do quarto. “Lula ladrão, seu lugar é na prisão” reverbera pelo cômodo. “Você votaria nele?” Ela picota uma das caixas vazias de remédio. O rapaz ajeita o pau na calça. “Você não fala muito, né?” “Não falo sobre política.” “E sobre o que quer conversar? Olha, vamos ter de esperar pelo menos uns cinco minutos até todo esse povo ir embora…” “Vamos ficar em silêncio.” “Não. Acho constrangedor. Somos estranhos: silêncio confortável é algo íntimo demais para nós. E tem outra coisa: eu te contratei. Sou sua patroa e cliente. Quero conversar até essa gente sair daqui.” “E sobre o que quer conversar?” “Não sei. Qualquer coisa. Me fale sobre você. Você é casado? Tem filhos?” “Não falo sobre mim.” “Eu tinha uma filha, mas ela morreu.” A mulher apanha outra caixa para destruir. “Ela estava cochilando no divã do escritório, aqui em cima.” Descola as beiradas da embalagem de diazepam. “Eu e meu marido viemos para o quarto. A gente não ia demorar.” Desdobra o papel cartão. “Mas aí ouvimos um barulho estranho, oco, e paramos.” Retalha com as unhas um coração. “Quando chegamos no escritório, vi o banquinho encostado na parede, perto da janela. Olhei para o chão…” Divide o coração em duas metades desiguais. O restante da frase é inaudível — não porque a algazarra está em frente ao sobrado, em seu ápice: a fala pranteada sai em solavancos silábicos, em murmúrios entrecortados por soluços. Chora o mesmo choro dos últimos meses, um eterno retorno de angústia que exaure o corpo e não limpa a alma. “Eu lamento por isso.” Ele já viu expurgação de culpa noutras gentes condenadas, como se o corpo não bastasse à alma e, dele, quisesse se despojar com fúria. Sempre diz lamentar. Faz parte do ofício. “O casamento desandou depois disso. Meu marido me culpou pelo acidente, a família dele me chamava de assassina… Aí eu pulei da janela.” Ela sente o sal na boca. “Mas só tive fratura exposta no braço e alguns machucados internos. Daí essa cicatriz medonha, que me lembra todos os dias de ter deixado minha menina morrer.” A mulher mostra o antebraço e passa os dedos no risco terracota cravado na pele. “Depois tentei remédios, mas isso não funcionou. Tinha pouca coisa em casa. Misturei com uísque para ver o que acontecia. Só dormi dois dias seguidos. Foi por isso que contratei seu serviço.” “Calma. Vai ficar tudo bem.” A mulher toma ar. Alcança o criado-mudo e abre a gaveta: papéis avulsos, uma caneta preta e um envelope marrom. “Aliás, aí estão os vinte mil que combinamos. E outra coisa…” Ela estica o pescoço e arranca o colar no segundo puxão. “Leve isso e as outras joias que estão no closet. Assim vai parecer que foi roubo.” As cornetas e os gritos estão calados, e não há alma viva em frente ao sobrado. “Como você quer fazer?” “Você me diz. Você é o profissional.” “De bruços é melhor.” Ela se vira. O rapaz joga a perna por sobre o corpo da mulher, como se ela fosse um animal dócil prestes a ser cavalgado. O calor dos sexos vaza pelos poucos panos que os separavam. Ela deita os braços para trás. “Poético isso, né? Meus instantes finais serão com um desconhecido que está sentado em mim, com um pau roçando na minha bunda, e foi justamente esta posição que me trouxe até este momento com você, estranho. Percebe a ironia?” Ele saca uma nove milímetros das costas e pega um travesseiro. “Vou colocar na sua cabeça para abafar um pouco o som do disparo, ok?” A mulher ronrona qualquer coisa enquanto seus olhos estão perdidos no corpo entre girassóis.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Rodolfo Viana’s story.