A “arte” de dar opinião disfarçada de notícia

Que o Facebook é um “sugador de tempo” e inclusive está fazendo as pessoas lerem menos, não há dúvidas. Eu mesmo sou uma dessas pessoas. Mas ler “Número zero”, de Umberto Eco, fez com que a internet ficasse em segundo plano enquanto eu não terminava o livro — a propósito, Eco disse que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis, e diante de muitos comentários que leio percebo que não tenho como discordar da afirmação dele.

O livro todo é excelente, e não só pela história. É que “Número zero” é também uma espécie de “manual de mau jornalismo”. Como mostra o trecho abaixo (tirei fotos das páginas, pois é longo).

Repare que a estratégia mais eficaz de convencimento não é opinar abertamente sobre os fatos, mas sim “associá-los” a contextos positivos ou negativos. Falar que italianos do sul são violentos é óbvia discriminação mas também um “senso comum” no norte da Itália, então para se reforçar tal imagem o jornal (que seria publicado em Milão) noticia crimes cometidos por sulistas dizendo onde eles nasceram, enquanto os nortistas têm suas origens omitidas.

Sim, o livro é uma obra de ficção (ficção?), que se passa em 1992. Mas com os dois pés inteiramente na realidade. Pois a nossa “gloriosa” imprensa hegemônica mostra que “sem querer querendo” segue à risca o “manual”, como mostram algumas capturas abaixo.

Sobre as duas primeiras não preciso falar muito, pois os comentários feitos no Twitter mostram bem a sacanagem: as denúncias são contra PMDB e PSDB, mas aí é só falar em Dilma e Lula para reforçar o senso comum que vincula “PT” e “corrupção”, associação que norteou os diversos “carnacoxinhas” que aconteceram no país desde março de 2015. Vou falar mais da última, pois considero esta a mais perversa. A (por assim dizer) matéria da Zero Hora é sobre o “assaltante da UFRGS”, que semanas atrás foi flagrado pela câmera de uma equipe do SBT-RS enquanto tentava roubar um estudante no entorno do Campus Central da universidade em Porto Alegre: a reportagem que foi ao ar no telejornal local do SBT era justamente sobre o elevado número de assaltos naquela região, e foi descoberto que o cara flagrado já era de certa forma conhecido por quem circula na área.

A Zero Hora poderia ter feito uma matéria descrevendo os assaltos cometidos pelo cara, tanto no entorno da UFRGS como em outros lugares, mas isso foi pouco explorado. Mais importante para o jornal, como o título e a linha de apoio mostram, é dizer que o assaltante é beneficiário do Bolsa Família: reforça-se assim aquele discurso “meritocrático” de muita gente de classe média (público alvo da ZH) de que o programa social (um dos responsáveis pela diminuição da pobreza no Brasil) serve para “sustentar vagabundos que não se esforçam” e “faz as pessoas perderem o interesse pelo trabalho” (queria ver alguém largar emprego por livre e espontânea vontade para viver com R$ 77 mensais). Sem se posicionar abertamente, mas sim de forma dissimulada e, por isso mesmo, mais eficiente.

Ler “Número zero” me ajudou (ainda mais) a desconfiar de tudo o que leio e vejo na nossa imprensa hegemônica. Por isso, recomendo muito a leitura.

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