De volta a Porto Alegre

E a inevitável comparação com a vida em Ijuí

Ao embarcar para Ijuí em 26 de janeiro de 2015, pensei que era o início de pelo menos três anos morando lá. Não imaginava que já em 22 de agosto de 2016 estaria de volta a Porto Alegre, novamente morando com a minha mãe — ainda que temporariamente, enquanto não encontro um apartamento bom, barato e bem localizado (leia-se “perto do trabalho”), tarefa que certamente não será nada fácil.

A perspectiva de um período mais longo morando longe de Porto Alegre foi muito importante. Embora tivesse pretensões de “mudar de ares” antes mesmo de ser nomeado, minha ideia era de ir para uma cidade interiorana mas ao mesmo tempo próxima, que me permitisse vir à capital aos finais de semana para visitar família e amigos sempre que quisesse. Morando em Ijuí isso era mais complicado, pois além da viagem ser demorada ela também era cara. Por isso vinha a Porto Alegre no máximo uma vez ao mês, e cheguei até mesmo a ficar três meses sem vir.

Dessa forma, tive de me adaptar a uma nova rotina, o que talvez não acontecesse morando em cidades como Santa Cruz do Sul ou Lajeado, relativamente próximas de Porto Alegre. Em Ijuí, procurei “viver como um ijuiense”, ainda que continuasse muito ligado à capital. Pela manhã, escutava a Rádio Progresso para saber a temperatura e também de acontecimentos locais, dos quais não ouviria falar se optasse por continuar escutando as rádios de Porto Alegre mediante aplicativos. Acompanhei o São Luiz em duas temporadas na Divisão de Acesso do Gauchão (pena que não tenha subido nem mesmo com o reforço de Paulo Baier em 2016), comprei a camisa do clube e fui a jogos no Estádio 19 de Outubro, pouco me importando com adversidades. Fui “explorando” a cidade e descobrindo lugares interessantes para ir: o melhor xis da cidade (bem perto de onde eu morava), a melhor pizzaria, bares para assistir aos jogos do Grêmio… Até hospitais (embora não sejam exatamente “lugares interessantes”): Ijuí tem três e estive em dois deles, felizmente faltou um.

A cidade também tem uma topografia peculiar. Embora Porto Alegre também tenha morros e ladeiras que dão aquele suador até mesmo no inverno, há muitas ruas planas. Em Ijuí isso é praticamente inexistente: a cidade toda é ondulada e não lembro de ter encontrado alguma rua totalmente plana, no máximo alguns trechos. Ainda que dê um certo cansaço quando se está com pressa, por outro lado isso faz a paisagem urbana ijuiense ser bastante interessante: em várias ruas se tem uma vista muito bacana.

Fato a se destacar é que as fotos acima foram todas batidas no verão. Sim, em Ijuí faz calor, com temperaturas semelhantes às de Porto Alegre, mas sem a sensação tão desagradável que se tem por aqui, fruto da menor umidade do ar e também de se ter menos concreto. Assim, mesmo em dias com mais de 35°C era possível dar uma caminhada no final da tarde, quando o sol já estava mais baixo — o que em Porto Alegre é complicado mesmo à noite, ainda mais com os atuais níveis de insegurança.

Aliás, outra inevitável comparação. Escutando o noticiário da Rádio Progresso eu ficava sabendo da violência urbana, existente em Ijuí mas que nem se compara a Porto Alegre. Por lá eu me cuidava bastante, ainda que não fosse tão necessário: era fruto de mais de 30 anos morando na capital. Manter tal hábito faz com que retornar a Porto Alegre não seja impactante neste aspecto: apenas os cuidados voltam a ser muito necessários, ainda mais que os níveis de insegurança cresceram a ponto de se tornarem alarmantes.

Enquanto andar a pé em Porto Alegre está cada vez mais complicado (muito por causa da insegurança), em Ijuí era a forma pela qual eu realizava quase todos os meus deslocamentos. Afinal, tendo tudo por perto, raríssimas vezes precisei usar ônibus. Para trabalhar, a caminhada era inferior a 15 minutos, enquanto na capital terei de garimpar muito para encontrar um apartamento que me permita ir a pé para o trabalho em tempo tão curto.


Pelas comparações que fiz, posso dizer sem dúvida alguma: em Ijuí eu tinha muito mais qualidade de vida. A ponto de inclusive afirmar que dentro de alguns anos pretendo novamente morar no interior, em uma cidade como Santa Cruz do Sul ou Lajeado — relativamente próximas a Porto Alegre.

Mas, se em Ijuí eu vivia melhor, quem lê estes parágrafos certamente pergunta por que raios de motivos eu voltei. E a resposta é simples: mesmo com mais qualidade de vida lá, o que pesou foi a distância da família (mãe, pai, irmão e avó). Pretendia ficar mais perto, ainda mais depois de minha vinda às pressas em setembro do ano passado, quando minha avó ficou doente e faltei três dias ao trabalho: compensei as muitas horas com o maior prazer, só que ao mesmo tempo percebi que morar em Porto Alegre ou numa cidade próxima facilitaria muito a minha vida neste aspecto. Tal episódio foi decisivo para a decisão de solicitar remoção.

Embora pretenda futuramente voltar a viver no interior, não estabeleço um prazo para tal. Até porque podem acontecer coisas que me levem a mudar de ideia — aliás, da mesma forma que decidi voltar a Porto Alegre.