Descanse em paz, imortalidade

Aviso: não falo sobre o Grêmio (aliás, nem é sobre futebol)

Já faz muitos anos, provavelmente mais de uma década, que em uma conversa com o meu pai sobre a vida em geral ele falou a seguinte frase:

Aos 35 anos deixamos de ser imortais.

Demorei muito tempo para compreender qual era o real sentido de tal frase. Afinal, desde que tenho noção das coisas sei que uma das características intrínsecas a qualquer forma de vida é a mortalidade. Por mais que seja um assunto incômodo ao ponto de muitas pessoas fugirem ao máximo dele, trata-se de uma das poucas verdades absolutas: todos nós morreremos um dia.

Fui entender o que o meu pai queria dizer mais adiante, usando dados estatísticos aliados a matemática simples.

A expectativa de vida no Brasil, por dados de 2014, é de 75,2 anos — parece muito (e é bem mais em comparação com antigamente), mas em países como o Reino Unido este índice já ultrapassou os 80 anos. Não faz lá tanto tempo assim que a expectativa de vida da população brasileira superou os 70 anos: foi em 2000. E quando eu nasci (1981) era de apenas 63,06 anos.

Já falei dos dados estatísticos, mas e a matemática simples? É que agora, aos 35 anos, estou “a meio caminho” dos 70… Ou seja, metade do caminho entre o nascimento e a morte de acordo com a expectativa de vida em 2000. E já passei tranquilo a metade do tempo estimado para minha existência quando nasci. Só estou ainda “em ascensão” levando em conta os dados de 2014.

Mas o fato principal é: 35 anos é considerada uma idade na qual a pessoa precisa estar “definida na vida”, pois já teria passado da “época de aproveitar”. É aquela convenção: um bom emprego (sendo que “bom” significa “paga bem”), carro do ano, casa própria, casamento, filhos… A famosa vida de “comercial de margarina” (a propósito: manteiga é muito melhor).

Pois eis que chego hoje aos 35 com salário parcelado (e nem tão alto assim, mas nem reclamo pois podia estar em situação pior), sem carro (e ainda que minha renda triplique, dificilmente comprarei um), morando novamente com minha mãe (ainda que temporariamente, pois logo devo voltar a pagar aluguel para morar sozinho), sem a menor preocupação em casar e convicto de que não quero filhos do jeito que as coisas se encaminham (no Brasil do Temer não há nada mais realista do que ser pessimista).

E de forma alguma me sinto “fracassado” por isso, muito menos penso que preciso “correr atrás do prejuízo”. Ao contrário: a “entrada na mortalidade” me dá ainda mais certeza de que não quero saber de me enquadrar a padrões que eu não criei e sobre os quais sequer fui consultado para opinar — embora já seja óbvio que discordo deles.

Saber que a vida é finita deveria ser, creio eu, o principal motivo para as pessoas darem de ombros para quem só sabe mandar contra o que as faz feliz. E acho que nunca é tarde para começar a fazer isso.