Relações complicadas

Coincidentemente, essa é a tirinha de hoje no meu calendário da Mafalda

Semana passada li um texto muito interessante de Ivana Ebel acerca de uma característica das redes sociais que é muito bacana mas também pode ser um problema: a possibilidade de reencontrar pessoas que não víamos há muito tempo, amizades dos tempos de infância, ex-colegas do colégio etc. Não é exatamente algo “novo”, pois o experimentamos desde 2004 por meio do “falecido” Orkut — graças às saudosas “comunidades” foi possível promover reencontros presenciais de turmas que tinham sido separadas pelo andar da vida. Cinco, dez anos depois, aquele monte de pessoas que há tempos não se falavam tinham a possibilidade de “voltar ao passado”, reviver a sensação de serem vizinhos, colegas de aula etc.

Porém, havia um detalhe importante: não eram mais as mesmas pessoas daquele tempo. Eu não era mais o mesmo.

Serei desonesto se disser que não valeu a pena rever certas pessoas. Teve gente que reencontrei após mais de 10 anos e a sensação era de que não havia se passado tanto tempo, pois muitas coisas ainda nos identificavam além de um mero passado em comum. Em compensação, de outras pessoas me afastei por bem menos tempo e quando voltei a vê-las pareciam ser estranhas que nunca tinham convivido comigo.

Só que hoje em dia, todo mundo é “amigo” no Facebook. Tanto pessoas pelas quais realmente nutro amizade (inclusive algumas que nunca vi “ao vivo”, coisa que a internet nos proporciona atualmente) como aquelas que estão na lista única e exclusivamente por terem sido colegas de colégio, de faculdade, de trabalho; além de certos parentes que nem faço muita questão de encontrar. Algumas destas últimas que “fazem número” nos contatos do Facebook se limitam a apenas figurarem na lista, mas outras se metem a dar pitaco nos posts (nem preciso dizer que são de direita, né?) e me levam a pensar no quanto de gente adicionei sem muito critério.

Assim como algumas velhas amizades e relações de parentesco acabam se tornando complicadas justamente por conta dos posts no Facebook: como já falei lá no começo, não somos mais as mesmas pessoas que éramos quando nos conhecemos, e certos amigos o são justamente porque circunstâncias de época (ser colega de aula ou de trabalho, morar na mesma rua etc.) favoreceram o surgimento de tal sentimento, que se manteve com o passar do tempo e sobreviveu a diversos obstáculos. Nem digo que concordássemos em tudo anos atrás (não há pessoa que seja 100% igual à outra), mas sim que aspectos hoje valorizados não o eram antes: quando criança/adolescente me tornei amigo de pessoas de direita e isso é bem mais difícil de acontecer na atualidade — o que não quer dizer que eu simplesmente vá romper a amizade com elas, pois temos uma trajetória em comum que não vai ser desprezada assim, “do nada”.

Mas já começo a pensar que talvez a melhor maneira de manter a amizade com certas pessoas é não tê-las na lista de contatos do Facebook. Assim se briga menos e se valoriza mais o que há em comum.