Aprendendo a caminhar

Uma coisa que meu pai costuma me falar quando discutimos sobre a vida, ele diz: “A vida esta organizada de tal forma para quebrar as suas pernas!” E realmente com muita frequência parece ser verdade, passamos por decepções, perdas das mais variadas e em doses cavalares que parece que depois de um tempo nos deixa em estado de letargia para que consigamos passar por mais um dia sem ficarmos emocionalmente e fisicamente devastados com os horrores do mundo. Questões como o fato de termos criado uma sociedade onde é normal humanos morrerem de fome, a desigualdade social e a violência que andam de mãos dadas e parece não ter solução, os jogos de poder entre políticos que jogam uma nação inteira na miséria, regimes autoritários que subjugam povos com seu poderio militar e econômico.

O mundo, com muita frequência, quebra minhas esperanças de que é possível construirmos uma sociedade melhor para todos. Todos mesmo animal, mineral e vegetal. Com frequência acredito que minhas pernas estão realmente quebradas.

Mas de vez em quando a vida surpreendentemente presenteia, com o mais puro ar de esperança em forma de pessoas inspiradoras que são um exemplo da maior demonstração de felicidade e alegria, o que me faz a princípio. questionar: “Como isso é possível? Será que ela ignora todo o horror que é essa vida? Não vê que estamos perdidos e longe de qualquer tipo de salvação?” Não, não é que elas não percebem essas questões que me pergunto diariamente, me parece que na verdade elas escolhem ressignificar esses obstáculos não como algo permanente, mas sim como algo transitório, já que são capazes de continuar caminhando e não se deixam ficar estáticas no chão apenas contemplando a pedra no caminho. Não me entendam mal, essas pessoas não são perfeitas, elas também choram, sentem-se tristes, coisas ruins também acontecem em suas vidas, muitas vezes sem explicação aparente, que mais parece fruto de uma grande injustiça do mundo. Atrevo-me a dizer que a vida já tentou tantas vezes quebrar as pernas dessas pessoas, que já ficaram de joelhos, mas levantam-se e continuam a caminhar, talvez guiadas por alguma força que ainda me é desconhecida. Mesmo com as pernas cobertas de roxos, caminham.

Vão além, além de conseguirem caminhar, por onde passam sua presença cura as pernas daqueles que estão em sua volta e estes recobram a capacidade de caminhar. Essas pessoas fazem isso de forma natural, simplesmente sendo quem são.

Devo, acredito eu, quando essa oportunidade de conhecer pessoas assim, que iluminam os lugares com seus sorrisos, espero ser capaz de aprender a me levantar, mesmo que com pernas bambas a princípio, e caminhar. Para que mais tarde, se assim for necessário, possa retribuir o favor, e multiplicar esse aprendizado com outros.

Quem sabe esse não é o caminho para construir o mundo que sonho.