A natureza das flores

Durante algum tempo estive às voltas com reflexões sobre a relação humano-natureza. Em parte isso estava relacionado com uma necessidade acadêmica — minha pesquisa de mestrado tem a ver com o tema —, mas também sempre houve algo de pessoal na dedicação às leituras do tópico. Entre os textos que mais me impactaram no período em que li bastante sobre o assunto está um livro chamado "O homem e o mundo natural", do historiador Keith Thomas. A proposta do livro é explorar as transformações da relação dos humanos com a natureza tomando com referência um amplo arco de tempo, entre os séculos XVII e XX. O argumento essencial não chega a surpreender: nossa relação com a natureza é um produto histórico e, por isso, transformou-se drasticamente com o tempo. Um bom exemplo é o modo pelo qual nos relacionamos com paisagens montanhosas. Por um longo período montanhas foram percebidas como lugares feios, descritos como "furúnclos da natureza”. Caminhar pelas montanhas era algo desprezível, sem nenhum apreço estético e tarefa de empregados. Algum tempo depois, nas crônicas do século XVIII, as montanhas passaram a ser narradas como lugares encantadores, plenas de uma natureza que merece ser vista e, por isso mesmo, lugares privilegiados para as caminhadas de aristocratas. Transformações na apreciação da beleza da natureza também afetaram o modo como os jardins foram pensados. Nos palácios franceses do século XVII, por exemplo, era a natureza controlada a que interessava. Decorre disso aquelas paisagens de caminhos feitos arbustos, seguidos por largos que dão centralidade a esculturas. Tempos depois a natureza selvagem entrou em cena. Eram os bosques densos, intocados, "salvos dos humanos", mas, ao mesmo tempo, próximos das cidades que interessavam — em alguma medida o central park e o parque trianon são heranças dessa estética. Tratam-se de zonas para a natureza selvagem, embora, curiosamente, com os limites bem definidos.

Escrevo tudo isso porque do lado de cá do Equador a primavera está chegando e com ela — não poderia ser diferente no país das tulipas — as flores estão aparecendo. Introduzi o tema do livro do Keith Thomas porque tem me chamado muito atenção como essas flores aparecem na paisagem. Elas não estão em canteiros ou em lugares marcados nas praças, mas são "meticulosamente" espalhadas para parecerem espontâneas, dispersas, obra de pura realização da natureza. Assim é a primavera holandesa, semaeada como "se não fosse". Ver a primavera aqui, aparecendo em todos os cantos, plantada para mostrar a força incontrolável na natureza, capaz de ocupar qualquer espaço verde, por menor que seja, dos canteiros da cidade, fez pensar em como a primavera aparece aí. Assim me dou conta de uma obviedade não tao óbvia: nem todas as primaveras são iguais.

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