Afinal, o que é cultura?
Parece óbvio, mas é necessário fugir dela para aprender o que realmente significa.
Duas memórias surgem à minha mente quando falo sobre cultura. A primeira delas é no Ensino Fundamental, quando aprendemos que o Brasil é um país multi-cultural. A segunda memória é atual, quase diária, quando falo para algum estrangeiro a mesma mensagem que decorei ainda na escola.
É quase inevitável dizer isso. Talvez, no início, fosse a melhor forma que encontrava de “vender”o Brasil, enquanto muitos de nós brasileiros apenas disseminamos o quanto nosso país é violento, pobre, ruim… Depois disso, o marketing patriota começou a ter um pesar na fala. Quase um grito de saudade.
Dizer que o Brasil é um país cultural é tão óbvio quanto dizer que ele habita quase 200 milhões de pessoas. É quase um dado estatístico, é quase uma informação básica, do quão isto está enraizado no nosso sangue. No entanto, apenas agora eu entendi o significado. E eu tive que me despedir da cultura para poder conhecê-la de verdade.
Comida é um dos principais pontos de uma cultura, mas eu pretendo fugir dela neste texto. Afinal, quase todo dia ainda como o sagrado arroz com feijão e, na medida do possível, trago o Brasil à mesa. Vários temperos fazem falta, mas esse não é o problema.
A cultura também é representada pelos gostos de um povo. Logo me lembro do futebol. Ainda bato uma bolinha de vez em quando e com frequência acompanho jogos do campeonato nacional. No entanto, não é a mesma coisa.
As festas também deixam um ar de saudade. Confesso que não gosto do Carnaval, mas não resisto a uma Festa Junina. Sempre as comunidades brasileiras no exterior tentam representar essas festas pelo mundo à fora, mas quase nunca é igual. É sempre a mesma micareta.
E qual é o problema envolta disso tudo? Pessoas do meu povo. De verdade. A falta delas.
Descobri que a cultura não é feita de datas, de festas, de roupas ou de qualquer outra coisa. É feita do povo, do jeito que ele é na essência. Longe daqueles que travestem a roupa e trejeitos de estrangeiro, distante daqueles que fazem de morar fora do país a capa da riqueza virtual. Está perto, cada vez mais perto, do brasileiro mais estereotipado que imaginas.
Sinto falta de comer empada, mas sinto muito mais falta das padarias de São Paulo. Aquele lugar aconchegante, nunca vazio de comida e quase sempre lotado de gente. Daquele cara que divide a bancada contigo até aquele outro que você tenta imaginar a vida, apenas observando o semblante e tipo de bebida alcoólica que pediu. É ver o balconista fazendo a comanda apenas escrevendo os valores daquilo que pediu. É a certeza do chapeiro fazer qualquer lanche inimaginável que venha à sua mente.
Pensando nas festividades, você quer festa maior do que um dia de calor? Não precisa ser nenhum feriado: basta ser um sábado de calor, por exemplo. Você verá pessoas sentadas na calçada, bebendo alguma coisa. Sentirá aquele cheiro de churrasco vindo de algum quintal. Se bater vento, é dia de pipa no céu. É acordar levando o carro para um posto de gasolina, aproveitando aquela promoção de uma ducha de graça. É saber que a noite, pelo menos, pede um açaí. É dormir sabendo que ainda tem o domingo. Quer festa maior que essa? Eu sei que agora estamos rodeados de lugares com food truck, rooftops e outras coisas “made in exterior”, mas isso não combina com a gente. É frio, é caro, é cheio de filas.
E o futebol? Ele não é o mesmo sem ser naquela praça, campo de várzea ou society. Não é o mesmo sem esperar aqueles amigos atrasados e sempre torcer para ter o número suficiente para “dar time”. Aliás, como é horrível jogar bola sem essas expressões! Como eu vou traduzir um “pisa”, quando eu quero vir chutando de trás? Vou ter que gritar “thief” quando alguém vai roubar a bola de um companheiro de time? Você pode ver o nosso futebol, ao vivo, de qualquer lugar do mundo, mas nunca será a mesma coisa se não for domingo às 16h ou quarta-feira às 21h45. Você pode achar péssimo os horários, mas isso é quase uma entidade do nosso futebol.
Isso não significa que somos melhores que os estrangeiros ou vice-versa. Aliás, existem dezenas de países que são imersos em cultura e eu amaria conhecê-los. No entanto, vivendo em um país com menos de 120 anos de história e com uma população consideravelmente imigrante e não-residente permanente, é como eu me sinto.
É maravilhoso morar em um lugar com estrutura. Trabalhar e receber em uma moeda com poder de compra. Ter áreas verdes e segurança para aproveitar a vida. É tão incrível quanto indignante por não termos isso no Brasil. Até porque estrutura, emprego, segurança e qualidade de vida não deveriam ser nada mais do que obrigação do país com a população. A cereja do bolo seria a cultura e isso não há dinheiro que confeite.
Se já somos reconhecidos internacionalmente por nossa hospitalidade e felicidade, imagina se as cidades não nos agredissem o tempo todo com seus problemas? Só não dominaríamos o mundo se não quiséssemos!
Agora, voltando à realidade, sinto que não ter essa qualidade de vida foi muito importante para a nossa criação. Somos uma sociedade coletiva. Gente que já precisou do vizinho pra açucarar o café, de um povo que se revesa ao “bater a lage”. É inimaginável ligar para a seguradora se você tem um conhecido com o cabo de força para dar uma energia na bateria do carro! A gente precisa um do outro. A gente gosta de ter um ao outro.
Imagino que alguém pense: “Ah, falar destas saudades é fácil? Quero ver falar que sente falta dos flanelinhas!”. Continuo odiando os pontos ruins da nossa cultura, mas eles, por exemplo, fazem o reverso do coletivo. Pegam algo de bem comum e o transformam em um bem individual. Ou seja, nada daquilo que é a cultura da coletividade.
Somos um país de esperançosos. Por dias melhores, por condições melhores, pelo fim daquele boleto bancário. Nossa virada de ano não é para celebrar o que passou, mas para acreditar fielmente que ano que vem será melhor. E, se for ou não, no próximo ano estaremos fazendo a mesma coisa. Tudo com muito sorriso no rosto, churrasco na brasa e superstições.
Essa semana um conhecido dos Emirados Árabes Unidos me disse que o país dele foi o primeiro do mundo a ter um Ministro da Felicidade. Achei interessante, mas com a certeza que isso nunca seria preciso no Brasil. Como já diz o ditado: “A vingança do pobre é a felicidade”.
