Uma III Guerra Mundial?

Guerra civil na Síria gera tensão internacional, mas conflito direto entre EUA e Rússia é bastante duvidoso

Ninguém poderia imaginar que os conflitos internos na Síria, originados pela chamada Primavera Árabe em 2011, iriam se transformar num caldeirão de tensão internacional tão quente como o que temos atualmente. Ao contrário do que aconteceu na Tunísia, Líbia e no Egito, o governo da Síria não caiu totalmente e decidiu usar todos os recursos possíveis para se manter no poder e esmagar os rebeldes, o que resultou numa guerra civil sangrenta que já dura cinco anos, com milhões de refugiados e com vários atores regionais e internacionais procurando garantir a hegemonia na região.

Podemos definir, grosso modo, três grupos protagonistas nesta guerra:

I - O grupo fiel ao governo Sírio comandando por Bashar al-Assad, apoiado diretamente pela Rússia e Irã, além do suporte de grupos xiitas radicais como o Hezbollah.

II - A Coalização Nacional Síria, formada por vários grupos rebeldes contra o governo de Bashar al-Assad e apoiada pelos EUA, França, Reino Unido, Turquia, Alemanha, Arábia Saudita e vários outros países membros da intervenção árabe-ocidental, como o Curdistão Iraquiano.

III - E por último temos o já conhecido Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EI), uma organização jihadista com orientação sunita Wahhabita que demanda um imenso território para a criação de um califado com o objetivo de comandar todo o mundo islâmico; e que não mede esforços para alcançar tamanho objetivo.

Não pretendo discutir aqui os desdobramentos bastante complexos da Guerra Civil Síria, e sim toda a onda de previsões absurdas que cresceu com ela, como a suposta III Guerra Mundial que estaríamos prestes a presenciar envolvendo EUA, Rússia, Irã e grande parte da Europa. Vamos lá:

Os EUA e seus aliados europeus entraram no conflito com o discurso de deter o expansionismo do Estado Islâmico, mas, como dito anteriormente, estes armaram e treinaram rebeldes sírios na esperança de findar com o regime de Bashar al-Assad. A Rússia e o Irã também declararam intervir para deter o Estado Islâmico, mas colocam-se favoráveis a permanência de Bashar al-Assad no poder e atacam rebeldes sírios no intuito de defendê-lo.

Os russos temem perder suas posições estratégicas na Síria se Assad cair, assim como pretendem evitar que o radicalismo jihadista se propague entre a população muçulmana que vive em seu território, o que causaria maior instabilidade em regiões que já são historicamente instáveis (Chechênia, por exemplo). Já o Irã, com um governo oficialmente xiita e com uma população também em sua grande maioria xiita, não vê com bons olhos o crescimento do jihadismo sunita que, direta ou indiretamente, fortalece o seu maior rival regional, a Arábia Saudita.

O Estado Islâmico (EI) é o inimigo em comum tanto da intervenção ocidental como da intervenção russo-iraniana. Fora o aparente consenso em esmagar o EI, as discordâncias sobre o futuro da Síria são enormes, porque nenhum dos lados quer perder seus pontos de influência. Mesmo que ainda sejam a maior potência econômica e militar do mundo, os EUA sentem-se ameaçados frente ao crescimento inevitável de outros polos de poder que vão contra a sua hegemonia: a China com sua economia e a Rússia com seu imenso arsenal nuclear, herança da Guerra Fria. A guerra civil na Síria escancarou essas rivalidades.

Podemos então prever com certeza que esses antagonismos, por enquanto indiretos, se transformarão num embate direto digno de levar o nome de III Guerra Mundial? Ao meu ver, não. O sociólogo Max Weber teria dito que previsões são para demagogos e profetas, e concordo com ele no sentido de que não podemos ter certezas do futuro, porque o futuro ainda não é presente, mas acho que posso correr o risco em apostar na não concretização de uma hecatombe nuclear em nossos tempos por duas razões.

A primeira delas é que não é interessante nem para os EUA e nem para a Rússia entrarem em guerra. Ambos os países possuem armas nucleares em grande escala, o suficiente para se destruírem mutuamente e levarem o mundo junto. Qual o sentido de deflagrar uma guerra que não se pode vencer sem ser igualmente derrotado? Essa inclusive foi uma das razões para que os EUA e a União Soviética não se enfrentassem diretamente durante a Guerra Fria.

A segunda razão é que me parece ser muito mais interessante adotar a mesma tática que foi utilizada durante a Guerra Fria: o embate indireto. Apoia-se um regime ali, arma-se um grupo acolá, realizam-se ciberataques para atrapalhar os serviços de inteligência e espionagem do adversário, financiam-se partidos políticos que endossem suas crenças e lhe apoiem, utiliza-se de manobras financeiras para enfraquecer a economia do oponente etc. Esses são os meios adotados pelas superpotências para disputar a hegemonia global desde findada a II Guerra Mundial em 1945.

Por que? Porque não requer a ocupação militar de um país pelo outro, não é necessário lidar com resistência interna da nação ocupada e nem com a opinião pública do seu país, poupa-se dos holofotes da mídia com as mortes de civis e outros crimes de guerra, não demanda uma reconstrução das áreas destruídas pelos conflitos e nem com os custos gerais de uma guerra como essa. É mais barato, mais seguro, mais discreto e até lucrativo em muitos casos.

Um hipotético conflito mundial me parece se mostrar presente mais no imaginário popular do que no cenário geopolítico dos fatos. Tendemos a supor imensas catástrofes a todo momento pela nossa cultura que alimenta essa sensação de apocalipse eminente. Basta ver como o cinema e a literatura são marcados por essa temática onde toda a espécie humana é ameaçada com o seu fim. Já algumas pessoas tendem a pensar que se houve uma I Guerra Mundial e uma II, o ciclo natural seria de haver uma III e que nós não teríamos nenhum escrúpulo ou receio de começá-la.

Não elimino totalmente um conflito global que possa receber esse nome de batismo no futuro, mas por enquanto parece ser algo bastante improvável.


Para um aprofundamento de algumas das questões abordadas nesse breve texto (e muitas outras), recomendo dois livros do cientista político brasileiro Moniz Bandeira: A Segunda Guerra Fria (2013) e A Desordem Mundial (2016), ambos publicados pela editora Civilização Brasileira.