A princípio, lento, a princípio

A Via Láctea, galáxia na qual reside nosso Sistema Solar, possui um núcleo composto por um buraco negro com uma massa 4 milhões de vezes maior que a do nosso sol. O Sistema Solar gira em torno desse núcleo a uma velocidade (inimaginável para mim) de 220km/s. Dadas as dimensões impressionantes e considerando o tempo de vida de nossa galáxia, o Sistema Solar está dando apenas a sua volta número 50 ao redor do buracão negro. Essas informações dão uma nova dimensão a minha forma de enxergar a realidade e o tempo.

À medida que fui crescendo, eu me acostumei a resolver problemas rápido. Agora racionalizo que essa foi uma forma de lidar com minha ansiedade. Eu nunca fui muito fã de esperar as coisas acontecerem.

Uma das lições que aprendi com a Clarissa é que não dá pra resolver os problemas todos de uma vez. Há coisas que precisam de tempo e, às vezes, o tempo resolve. As 50 voltas do Sistema Solar não me deixam mentir.

O primeiro dia do ano amanheceu nublado por aqui. Meu egocentrismo velado vislumbrou considerar que essa era uma forma de Los Órganos me poupar de mais um dia de sol arrasador, mas eu não caí nessa. O vento bom do Pacífico logo arrastou as nuvens para longe e revelou o céu azul.

Está tudo meio parado por aqui. A festa da noite durou até umas 4h por essas bandas e, tirando uma senhora que saiu pelas ruas do condomínio, às 8h, falando alto com os trabalhadores do local, o som que mais se destaca é o das ondas do mar.

Há uma desaceleração muito conveniente no início do ano. Alguns anos atrás, isso me incomodaria. Não me incomoda tanto assim agora.

Tomamos café da manhã tranquilos, conversando sobre a noite de ontem. O desejo é não fazer nada. Só.

Eu me resguardei do sol. Fiquei lendo, ouvindo música e observando o pouco movimento do condomínio. Uma parte do pessoal foi à piscina, outra à praia, outros ficaram lendo também. O dia passou lento. Dormi à tarde, enquanto Clarissa foi dar um pulo no mar. Acordei pelas 17h30. Um pouco depois, almoçamos. Essas liberdades de horário são coisas das férias.

A Érika fez uma macarronada profissional, enquanto Denise salvou um vinho ruim com uma técnica alquimista de drinks. Tomamos sorvete pra ajudar a descer um biscoito artesanal peruano sem graça que compramos, seduzidos por sua imagem apelativa. Cássio fez uma calda de chocolate matadora.

Decidimos o futuro próximo. Amanhã, devemos parar por alguma praia para fazer aula de surf. Depois de amanhã, devemos fazer um passeio que irá durar 9h, entre banho de lama, restaurante e outras atrações locais. O dia seguinte ainda não tem programação.

Na volta a Lima, no dia 5, vamos ficar pela cidade e empreender a última jornada em busca de las artesanias. Já no dia 6, rumamos para uma pequena aventura por cidades próximas. Devemos estar de volta a Lima no dia 7 para pegar nosso voo a São Paulo e o seguinte a Brasília.

Nessa suspensão do tempo que foi o dia de hoje, eu encontrei um conforto muito agradável e necessário, mas sei que não vou mudar o ritmo quando voltar pra casa. 2016 deve ser um ano de aceleração, postura que tanto me entretém como me alimenta. As energias estão sendo recarregadas e vai ter eletricidade de sobra pela frente. A maturidade e Clarissa trazem mais serenidade à velocidade e ajudam a equilibrar as coisas. Mas a velocidade não irá diminuir.

Contem comigo para o que der e vier. Inclusive, o Sistema Solar, que pode até girar sozinho, mas não seria bobo de dispensar toda energia que puder usar para chegar firme e forte na volta 51.