Cadernos dos Veadeiros - VI

Voos de balão acontecem já há centenas de anos. O primeiro, como era de se esperar, não deu muito certo. Em 1722, ele foi realizado em um instrumento chamado passarola e não foi tripulado. Na demonstração, o bicho pegou fogo. Diz que foi o padre português Bartolomeu de Gusmão o responsável.

Anos à frente, em 1783, dois inventivos e precavidos irmãos franceses (Montgolfier) conseguiram permissão do rei para botar dois condenados à prisão perpétua no primeiro voo tripulado do qual se tem registro. Os caras sobreviveram. Aí, Luís V fez aquele brinde com champanhe legal, libertou os dois e lhes deu direito à propriedade onde o balão pousou. Um belo negócio.

Hoje foi nosso dia de explorar os céus. Bem cedo. Todo mundo chegou na hora. Quando o compromisso é muito cedo (5h15), todo mundo chega na hora. Eu, Clarissa e Antonieta nos juntamos a uma família de três e duas mocinhas #gratidao originárias de Santa Catarina, mas residentes no DF.

Felipe — o comandante — recebeu-nos na praça em frente ao Itaú, como combinado. Sua equipe era composta por mais três asseclas.

Helio soltou ao ar o balão de gás hélio (não sabemos se o nome é pré-requisito para o cargo) pra cima a fim de medir a velocidade de subida do nosso balão. O resultado não foi compartilhado conosco no momento. A equipe do balão levou-nos em dois carros para uma área não muito afastada da cidade. E começou a montagem da estrutura. O que leva alguém a criar e tocar um negócio desses ainda me é misterioso.

Felipe nos passa coordenadas à medida que a montagem acontece. O cesto de vime é o mais indicado para ser utilizado como base para pessoas até agora. Faz 2.000 anos que é assim, segundo Felipe. Essa informação contrata com a de que o primeiro voo ocorreu em 1722, mas seguimos em frente. O balão em si é chamado de envelope e sua parte mais baixa é composta por um tecido à prova de fogo. Faz sentido. São 6 mil metros cúbicos de tecido.

Quanto mais pesado é o conteúdo do cesto, mais chama é necessária para levar o balão pra cima. Éramos todos magrinhos neste voo.

Mas, antes de tudo, é preciso inflar o balão. Dois ventiladores (ar frio) são direcionados à parte inferior do envelope. Eu e o pai da família ficamos um de cada lado mantendo o balão “aberto” e facilitando a entrada do ar. Clarissa, Antonieta e as mocinhas #gratidão entraram no balão deitado para tirar fotos. Em pouco tempo, as chamas passaram a inflar o balão. Pulamos pra dentro das 4 seções que nos estavam destinadas. Dois por seção. No meio, o comandante e seus cilindros de gás.

A paisagem lá do alto é linda. As texturas da vegetação e as casinhas são demais. O comandante foi nos guiando pela paisagem, indicando onde ficava cada coisa no vasto terreno lá embaixo. E foi possível nos situarmos em relação a diversos passeios que fizemos. Tentamos descer duas vezes antes de conseguirmos. Como o guia alertou, balões não possuem a possibilidade de controle. É só uma questão de cálculo de direção e velocidade do vento versus altura do balão.

Pegamos ventos de 38 km/h e chegamos a uma altura de 1.035 metros. Nos voos turísticos de balão da Capadócia, não tem vento assim, porque acontecem em vales. Chupa, Turquia!

Pousamos em uma fazenda no rumo de São Jorge. Brindamos quase como Luís V fez naquele primeiro voo oficial com os recém-libertos e fomos metaforicamente libertados pelo guia. Guardar o balão é uma tarefa ingrata, mas a equipe fez um bom trabalho.

Voltamos à cidade pra tomar café na tradicional lanchonete do açaí. O açaí estava congelado ainda e o jeito foi comer tapioca. Encontramos com Denise e Mark e passamos em casa pra tocar de roupa e descarregar a câmera com fotos e vídeos infinitos de paisagens. Optamos por não pegar pesado em cachoeira de trilha complicada, afinal de contas acordamos às 4h30 da manhã. Fomos parar na Cachoeira Cristal, com uma água fria de doer o osso. Ficamos por lá até umas 13h. Tentamos comer um pastel, mas o atendimento não colaborou. Partimos para, obviamente, o Jambalaya. Comemos demais e voltamos pra casa. Denise e Mark rumaram a Brasília enquanto nós descansamos até a noite. Deu até pra pegar um jogo do São Paulo na TV. Amanhã, Brasília novamente. Foi uma ótima viagem.