Sobre Educação

O debate sobre se cabe ao mercado ou ao Estado dirigir a educação é sempre popular, mas pouco relevante, pois apesar da vaidade dos que defendem um ou outro “ismo”, o que importa é a vida de uma criança dentro da escola e, portanto, o que importa é o debate acima.

Minha atual opinião sobre o ensino fundamental é que ele é a instituição mais bela que a humanidade teve a força de criar e nós desperdiçamos esta instituição ao forçar as pessoas a passar por essa maratona que dura anos em um momento arbitrariamente específico da vida dela. Não consigo entender exatamente o que há entre as idades de 15 e 18 anos que faz com que esta seja a primeira e última oportunidade que um cidadão tem de poder frequentar um estabelecimento dedicado ao ensino fundamental do conhecimento humano. Ainda mais, é uma porta que só abre em uma direção.

O indivíduo entra no colégio por nenhum outro motivo que coincide ser este o período de sua vida em que ele acabou de passar pelo ginásio e então ele passa por uma provação brutal e cruel de tentar enfiar milhares de anos de conhecimento na cabeça de uma vez e, então, ele é chutado pela porta, para nunca mais voltar, tendo que escolher esquecer tudo que aprendeu e ter um subemprego ou esquecer a maior parte do que aprendeu para se especializar em uma única área, daí onde ele escolhe a profissão ou a pesquisa.

Pensemos em utopias por um momento: o cidadão passa pelo ginásio e sabe, embora não muito bem, mas o bastante para sobreviver, como ler, escrever e fazer conta de matemática para comprar pão na padaria e conseguir conferir o troco. A partir daí, o colégio está lá para quando ele quiser, sem cobrança, sem provas, sem lição de casa, sem lista de chamada, sem nenhum do entulho criado para garantir que, aos 18 anos, você tenha na sua cabeça uma quantidade incrível e sobre-humana de conhecimento que você deverá, por obrigação não só do mercado e da vida civil, como da boa saúde, esquecer em sua maioria. Uma sala de aula, um horário específico, carteiras e um professor que passou por um curso de especialização ditando o conhecimento.

Qual o motivo de frequentar essa aula? Se preparar para o vestibular (outra instituição insana e irracional, mas esse é outro tópico)? Saber mais do mundo? Um reforço caso já esteja na faculdade e tenha dificuldade em acompanhar a matéria? A resposta é que não importa; pois deveria ser o privilégio e a responsabilidade de cada cidadão decidir se, quando e por qual motivo deve aprender biologia.

É fácil prever a primeira crítica a minha pequena utopia educacional: “mas sem uma aula de biologia, como a pessoa sabe se ela realmente quer estudar biologia?”

E a resposta é vivendo. Você vê médicos, você pensa que quer ser um médico, para isso deve saber biologia, portanto, tenha você 15, 25, 35 ou 45 anos, lá deveria estar para você o colégio. O mesmo pode ser aplicado para a maioria das matérias, imagino. Lembro que na faculdade havia o debate sobre a obrigatoriedade da filosofia no ensino médio e, mesmo em uma faculdade de filosofia, o centro das mentes jovens e criativas, havia no ar o cheiro da desistência em relação às alternativas: ora, se o adolescente não fosse forçado, pelo poder do Estado, a ter aulas de filosofia, como ele teria contato com a filosofia? É um bom questionamento, dado que o ensino fundamental é algo feito para ser uma etapa (um desafio ou uma provação) a ser superada uma única vez na vida. Eis então que o questionamento sobre a obrigatoriedade desta ou daquela matéria me parece superficial, pois a pedagogia é, fundamentalmente, uma crítica do ser humano. Qual o limite do ser humano? Qual seu potencial? Como lidar com esses limites e alcançar esse potencial?

O ensino, tal como ele existe hoje, como empresa que um jovem ser humano passa trancafiado dos 5 aos 18 anos antes de decidir o que fazer com a vida, é uma visão cínica, imoral eu diria, daquilo que é um ser humano. É dizer, de forma ingênua e perigosa, que ele não possui limites desde que adolescente, pois ele é perfeitamente capaz de se tornar um pequeno especialista em todas as áreas do conhecimento. Por outro lado, dizemos que o seu potencial é, então, cada vez mais limitado pela idade, pois então ele deve se especializar cada vez mais até ser reduzido à uma soma entre profissão e lazer. A pessoa é o que faz enquanto trabalha somado ao que faz fora do trabalho. Não há crescimento após ter crescido, só um equilíbrio entre ganhar e gastar, seja tempo ou dinheiro.

A visão pedagógica atual, ou seja, a visão crítica do ser humano atual, é a de que ele é infinito enquanto jovem e patético depois de adulto. Me parece duas proposições extremistas e falsas.