Você quer que seja golpe?
Se você parar para ouvir as pessoas gritando, literal ou metaforicamente, na internet e nas avenidas, você quase tem a impressão que elas sabem do que estão falando. Que elas tem uma saída ou uma resposta.
A narrativa que se formou no senado essa segunda-feira e a não ser que alguém tire um coelho da cartola vai continuar na terça é sobre o que é um impeachment.
Se um impeachment for um voto de não-confiança costurado às pressas em cima de um argumento jurídico qualquer, então os parlamentares não são juízes, mas parlamentares, fazendo o seu papel de parlamentares e tirando do poder alguém que por vários motivos não tem mais condições de conduzir a nação. Mas se o impeachment for um modo de punir uma presidenta por um crime, então os senadores são juízes e deveriam julgar apenas a existência e proporcionalidade do crime para com a pena.
A defesa acirrada do presidencialismo aqui ocorre com o mesmo casuísmo que a defesa acirrada do impeachment. Primeiro você tem uma resposta, aí você caminha para qualquer argumento que consegue desenhar às pressas.
A política tende a ser um espetáculo pós-moderno, não deveria surpreender a ninguém que a ética cristã começa a ser quebrada justamente em um manual para príncipes; ao cidadão da rua, engajado, politizado, que lê os seus jornais todos os dias e discutem os artigos na internet, fica apenas a pergunta: o que você quer que aconteça no final? Me diz o que você quer que aconteça no final e eu acho pra você as publicações que defendem o seu posicionamento, a mídia independente no facebook que infla sua específica indignação, quais protestos você deve participar, de quais piadas você deve rir, com que tipo de gente você deve tomar uma cerveja, quais músicas ouvir, com quem namorar.
Nós temos culturas dentro de culturas e estruturas prontas para absorver qualquer verdade. O mundo de hoje se inicia nas conclusões e parte daí. Você quer que Deus exista? Você quer que a ciência tenha as respostas? Você quer que o keynesianismo tenha as melhores explicações macroeconômicas? Você quer que seja golpe?
O convencimento, se estamos sendo sinceros, raramente se dá por meio das razões. Pior, a capacidade de raciocinar, de pesquisar, de encontrar e desenvolver argumentos, geralmente solidificam posturas qualquer que seja sua validade. A internet terceiriza esse trabalho. O que começa com você copiando e colando seu trabalho sobre a vegetação brasileira termina com você copiando e colando sua opinião sobre operações de crédito com o propósito de financiar o plano Safra. A grande mídia, reza a lenda, dizia para você o que pensar; imagino que, portanto, haja progresso quando falo que hoje você próprio escolhe sua alienação.
“A esta altura”, diz o líder do PT no senado, “acho muito difícil que ainda haja alguém indeciso a ponto de mudar de ideia. Mas a presidente deu um tom político que foi importantíssimo, porque estamos na disputa pela versão dos fatos”.
Ou como disse a mente mais simplória de Cristovam Buarque:
“ É interpretação jurídica. Aí a gente opta por uma.”