Chega de saudosismo

Hoje é quase tudo melhor do que "naquela época"

por Rodrigo Cunha


Vamos lá, eu preciso falar sobre isso com cuidado. Nasci em 76, então você já sabe a minha idade. E sabe também que quando teve início a década de 80, eu tinha meus 4 anos de idade. Ao final da década eu já tinha sido influenciado por muita coisa que hoje chamamos de clássicos:

Indiana Jones, E.T., Duran Duran, Banco Imobiliário, Pula Pirata, Gênius, RPM, Rambo, Ultraje a Rigor, Pegasus, Michael Jackson, De Volta para o Futuro, Maximus, Exterminador do Futuro, A-HA, só pra citar alguns.

Ah, economicamente essa foi a famosa década perdida. Mas eu, com meus quase 15 anos ao final da década, não me importava com isso. Mal entendia o que significava, pra falar a verdade. No máximo, eu lembro do dia da morte do Tancredo Neves, em 85. Eu até fiquei feliz, porque não tive aula nesse dia. Estava na cama, deitado no meio dos meus pais. Foi um dia estranho aquele.

Mas pode ficar tranquilo que aqui eu não vou soltar a famosa pérola tiozão "naquela época era melhor" ou a infame e infinitamente pior "Na minha época". Isso é saudosismo irracional e romântico. Se paramos pra pensar só um pouquinho, hoje quase tudo é infinitamente melhor.

Eu parei pra pensar novamente nisso quando saiu o trailer do novo Star Wars, que levou o mundo ao orgasmo em seus últimos segundos com a frase "Chewie, nós estamos em casa". A frase proferida por um sorridente e satisfeito Han Solo, fez com que o mundo do entretenimento só fosse capaz de falar sobre aquilo naquelas próximas horas.

Na agência de publicidade onde trabalho, as máquinas pararam de trabalhar por alguns bons minutos. Gritos orgásmicos surgiam a todo momento. Eu mesmo fiquei tão empolgado com a aparição de Han Solo que o chamei de Luke, pagando um baita mico perante hipsters, geeks, nerds.

Quando saiu o novo trailer de Batman v Superman, algo parecido aconteceu, muito embora em escala menor. O trailer novo de Jurassic World trouxe o mesmo sentimento. O mundo inteiro assistiu junto.

Grandes acontecimentos são comunicados em tempo real. A vida está acontecendo por streaming (Periscope, Meerkat…). Vídeos incríveis são postados no YouTube, Vimeo. Histórias e textos mirabolantes são publicados no Medium.

O bacana aí é aproveitar essa matéria prima pra construirmos alguma coisa, melhorando o mundo de alguma forma ou simplesmente a própria vida. É muita gente na "mesma página". Vem comigo que o papo vai ser meio longo ☺

Informação não falta, certo? Então o grande lance passa a ser ter insights. E para tê-los é preciso parar. Pensar, organizar as ideias e informações. É muita informação e não estamos conseguindo dar conta de tanta coisa boa que chega até nós. O legal aqui é processar tudo pra criar um bom texto, um projeto interessante, uma música, um quadro, um app. Olha como é mais fácil até criar. A meu ver há até mais inspiração. O insight pra escrever esse texto veio de uma conversa em um grupo de Whatsapp.

Não é preciso ir tão longe pra conseguir provar que hoje vivemos em um mundo melhor em vários aspectos, principalmente quando comparamos o mundo do entretenimento de hoje com aquele que existia na década de 80.

Sempre gostei muito de filmes, música e games. Na realidade, o gosto por música veio na primeira metade da década de 90. Foi onde consumi muita coisa feita durante a década de 80.

Filmes e games eu praticamente consumia logo que eram lançados. E geralmente eram lançados muito tempo depois da data de lançamento gringa. Na verdade não dava muito pra saber e demorava ou não, porque não tinha internet.

Não sabíamos o que as pessoas "lá fora" estavam assistindo, jogando ou ouvindo. Tudo chegava aqui, mas com um certo "delay". E a galerinha descolada eram aqueles caras que iam pra fora e vinham cheios de discos.

Fãs de artistas internacionais, eram realmente fãs, pois precisavam frequentar lojas de discos que trabalhavam com importação pra poder ouvir material que não era lançado por aqui. Pior ainda era querer assistir a videoclipes. Dependíamos quase que exclusivamente do Fantástico, que geralmente lançava em primeira mão os clipes do Michael Jackson.

A MTV só deu o ar de sua graça por aqui no início da década de 90. Dali em diante passamos a ter uma janela escancarada que mostrava o que estavam ouvindo "la fora". E quem gostava de games na década de 80 também sofria. Quando o Atari 2600 fez sucesso por aqui ele já estava em queda livre nos EUA, principalmente depois do lançamento do fracassado game do E.T..

Eu fui um rato de locadoras e bancas. Pra saber quando um game seria lançado, eu dependia se screens publicadas em revistas importadas que custavam muito, mas muito caro. Ver aquelas screens — as vezes era só uma — era quase como contemplar um quadro de Picasso.

Eu observava os gráficos e ficava imaginando como seria o resto do game. A música, a jogabilidade, a capa. Nada de YouTube. Nada de Twitch, onde hoje podemos ver verdadeiras maratonas de games em real time pra, só depois, decidir se vale ou não a pena comprar.

Esses dias o novo disco do Faith No More — banda que admito muito — "vazou" nas interwebs. E eu e milhares de pessoas ouvimos o disco praticamente juntos. O disco será lançado apenas em meados do próximo mês. Que chance teria de isso acontecer na década de 80, tirando o fato de seu pai ser o engenheiro de som do estúdio onde o A-HA gravava seu novo disco? Nem assim.

Com tanta coisa ao alcance do teclado do seu tablet/smartphone/notebook/smartTV (Deus abençoe o Streaming), ainda há quem reclame de não ter o que fazer. Eu nunca consegui entender essas pessoas. Há tanta coisa interessante na sua frente, que ficar sem opção só pode ser sintoma de alguma outra coisa. Na realidade ~esses tempos~ trazem um outro mal, que é a falta de tempo. E também a ansiedade.
Me diga que não tem tempo pra fazer coisas. Mas não diga que não há o que fazer. Há um universo vasto de coisas a serem feitas. Pensadas. Digeridas e transformadas em coisas épicas!

Se você disser que o problema é tempo e ansiedade, eu vou concordar com você. São tempos onde é praticamente impossível não se sentir excitado com tantas possibilidades. E isso pode trazer bastante ansiedade.

Mas calma, cara. Lembre-se: hoje é MUITO melhor do que já foi há 30 anos atrás. Sim, eu tenho um tremento carinho pela década de 80, pois tive uma infância incrível e, certamente, lembrar de tudo o que fez parte dela, me deixa saudoso.

Mas eu não aceitaria entrar num DeLorean e ter que viver eternamente tendo que depender de revistas, Fantástico e locadoras pra consumir as coisas que eu tanto amo. Só se o Doctor Brown me garantisse que teria volta ☺

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