Vergonha de Estado.

1º e 36ª

Antes do circo pegar fogo e virar cinza, anunciei em uma conversa com uns poucos amigos, que eu era contra o impeachment da então presidente. Sempre tem um pra atirar uma pedra, rotular de incoerente e tal… afinal nunca fui muito fã dela… não, na verdade eu sou reiteradamente opositor do PT. Toda a forma de governar petista, toda incompetência da Dilma e sua falta de tato na política merecem todas as críticas negativas que atraíram. Se dependesse de mim o PT acabava. E já ia tarde. E podia levar o PSDB junto também; antes que algum fanático grite “tucano de mierda!” pra mim.

Agora vamos ver então se nos entendemos. Como ser contra o impeachment da Dilma e opositor do governo dela? E por qual motivo comum, PT e PSDB são nocivos ao cenário político atual?

Sobre a Dilma, acho até meio óbvio dizer isso, mas apoiar o impeachment por NÃO QUERER a política petista no Poder, tira toda minha credibilidade como opositor político. E não venha com blábláblá de crime de responsabilidade fiscal, não. Na moral. Tá ridículo. Esse monte de papagaio que não até ontem era analfabeto constitucional, quer vir com ares de que tem a Carta Magna como livro de cabeceira. Até na faculdade de Direito eu discutia com gente que nunca leu a constituição, nem que fosse só o art. 5º, aí vem você, toma pozinho de pirlimpimpim e vira entusiasta da CRFB de 88, fãzasso. FATO: juristas ficarão pelos próximos 5 séculos sem entrar em um ponto pacífico sobre as pedaladas serem crime de responsabilidade ou não… com todo respeito à corrente dos mestres Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr.

Havia motivos dentro da hermenêutica jurídica pra considerar crime as pedaladas? Sim, claro.

Havia certeza ou um consenso pacífico dessa interpretação? Não.

E é aqui que entra minha linha de raciocínio, levando em conta nossa sofrida história como país. Desde nosso primeiro presidente até hoje, quantos presidentes, eleitos democraticamente, terminaram seu mandato? Cinco. Não precisar ir no google, os outros dois que você não lembra são Gaspar Dutra e JK. Tivemos 37 Chefes do Executivo federal, estamos na 6ª tentativa de República e na 8ª Constituição — na verdade, nem dá pra saber ao certo se entre 67 e 69 foram duas ou uma só. A gente podia tentar seguir essa Constituição de boa, só pra ver se essa parada de República democrática dá certo mesmo.

Mas não.

A máxima brasileira é “se eu puder me dar bem, eu vou me dar bem, a qualquer custo”. Assim que surgiu uma dúvida, uma sombra de crime de responsabilidade, vamos tirar mais um presidente eleito e tocar essa bagaça de qualquer jeito. Eu gostaria muito de ver o respeito à Constituição Federal ser mais forte que uma sombra de dúvida. E que irônico agora, tira-se uma presidente que a maioria não queria* pra assumir um cara que NINGUÉM quer no cargo. Nem os que votaram nele pra vice.

O Impeachment não foi vitória pra ninguém e — me perdoem uns mais chegados — comemorar seu resultado extrapola os níveis de tolice que eu estou acostumado a tolerar.

Agora sobre a dicotomia PT-PSDB. De um lado, um partido que faz campanha e alianças com uma proposta socialista, voltada pro povo, mas governa como semi-liberal, uma turma do “deixa-disso” e “ não é bem assim”, associado a interesses de grandes empresários. Do outro, um a galera cheia de promessas neo-liberais, arrebatando os votos da direita, mas governa alimentando o Estado com uma carga tributária pornográfica, com políticas sociais caríssimas e falidas. Ambos com um fã-clube ainda mais insuportável. A isso chamamos democracia.

Não fico a vontade, nem um pouco mesmo, de chamar ou ver pessoas chamando isso de golpe. Seria minimizar a marca de uma centena de campos de batalha banhados em sangue que golpes de verdade deixaram na história da América Latina. Tá mais pra uma vergonha mesmo.

*mais da metade da população NÃO votou nela. Você chama isso de democracia eu chamo de crise de legitimidade.