Av. Paulista

Caminhar pela avenida mais famosa da cidade é uma aventura – ainda mais em junho. Enfrentar o frio que congela o toque de nossos dedos, que nos faz sentir descamisados mesmo apropriados da malha mais felpuda e quentinha é, definitivamente, uma trilha intensa por entre a selva de pedra.

Algo mudou. Parece que os ventos que beijam nossos lábios descascados e estapeiam nossos rostos de pele seca dançam em outro ritmo e n’outra coreografia.

Há cinco ou seis anos, vislumbrava um dia conviver ali. Dentre as mil e uma faces aglomeradas no meio-fio. Era todo o anseio de um jovem preso à sua raiz “média-alta” mixado ao mundo que chamava-o e caçoava de seus cabelos bagunçados e espinhas avermelhadas.

Assistir a cidade das luzes se desmanchar perante meus olhos era orgasmático. Ouvir o burburinho e ver a gente estranha dançar ao som dos solos de guitarra tocados em meio a calçada era puro êxtase.

Tudo que almejava era andar por ali sem dar satisfações. Sem rumo, lenço ou documento. Sem pretextos ou pós-textos.

São cinco – ou seis – anos desde lá. Vivi bastante; aprendi o dobro. E cá estou.

Cá estou, hoje, nessa realidade. Conquistei o que almejei. É estranho como todo mundo muda em cinco – ou seis – anos.

Meus pais mudaram para o interior da cidade, eu já não moro com eles – e esse era meu maior plano de vida, em anos.

A vida parece que nos prega peças. De repente tudo mudou para mim – e em mim. E não foi porque eu quis ou pedi. Simplesmente foi.

Não que isso seja ruim.

Acho que o importante é viver o momento. Mesmo que o momento metaforize-se numa flor em seu leito de morte. Porque uma flor murcha ainda continua bonita, e sempre dá lugar a uma nova vida.